17 de novembro de 2016

Sobre a ritualização da "virgindade"

Hoje à tarde, quando pensei em escrever sobre isso, logo hesitei, porque muitas pessoas próximas a mim - familiares - leem meu blog, inclusive minha mãe. Só que a ideia de falar sobre o assunto permaneceu na minha cabeça e eu acho imensamente importante escrever a respeito disso. Então, antes de mais nada, eis um pequeno fato: mãe, eu faço sexo. 

Dito isso, voltemos ao raciocínio. 


Eu sempre me incomodei muito com a pressão que a sociedade impõe sobre as mulheres para que elas "percam a virgindade". A gente é bombardeada desde o início da adolescência com comentários do tipo "nossa, se prepara, porque vai doer". Depois, quando vamos chegando nos 16, todo mundo - de repente - se sente no direito de te questionar: "eaí? já deu?". Se você já passou dos 20 então, NOSSA. Cara, tudo isso é tão problemático que eu nem sei por onde começar. 

Importante ressaltar que eu falo como uma mulher-cis-heterossexual. Não posso falar por pessoas que não estão nesse "perfil", pois não seria o meu local de fala. 

Vamos começar esse texto ressaltando uma coisinha para todo mundo saber: fazer sexo não é a mesma coisa que penetração. Se você acha que os dois são sinônimos, sinto muito em te informar, mas você não sabe transar. Isso nos leva a concluir que virgindade é algo muito relativo a cada um de nós. É inexplicavelmente ignorante acreditar que uma pessoa deixa de ser virgem quando penetra alguém ou é penetrada. Vamos parar de endeusar os pintos, por favor. Obrigada. 

Partindo dessa pequena problematização, acho importante falar sobre a ritualização da penetração. Nós, mulheres, desde o começo de nossas vidas, somos expostas a uma série de rituais. A primeira menstruação é um deles. Na minha época, lembro que as amiguinhas que menstruaram antes  de mim achavam o máximo, não por elas realmente acharem aquilo incrível, mas porque as pessoas ao redor delas diziam 24 horas por dia o quão maravilhoso foi elas terem finalmente menstruado. Com a penetração é o mesmo: trata-se de um negócio simples que a galera insiste em transformar No Ritual

Ilustração: Kathrin Honesta

Quando me perguntavam as questões que botei no terceiro parágrafo, a galera não tava interessada em saber sobre minhas experiências sexuais no geral, que começaram aos 16. Elas queriam saber se um pinto já tinha entrado na minha ppk - o que, no meu caso, só foi acontecer aos 20. Nem preciso dizer o tanto de bosta que tive que ouvir. Eu me sentia na vitrine de um zoológico, com as pessoas me questionando do outro lado do vidro sobre quando ia rolar a famigerada penetração. As amigas debatiam entre si sobre o que ia entrar na minha vagina enquanto eu e meu namorado estávamos vivendo de boas. Ou quase.

"Ou quase" porque é uma pressão fudida. Falo por mim, que sou mulher e fui criada nessa sociedade machista. Eu já tava namorando há alguns meses e tudo tava perfeito. Hoje eu vejo que realmente não faltava nada, mesmo na hora de transar. Tava ótimo. Só que a galera ao meu redor insistia em gritar na minha cara que não tava ótimo não. Que eu precisava dar logo. Que eu não conseguia porque não relaxava o suficiente. Que nossa, eu ia entrar na faculdade em breve e não podia de jeito nenhum ser uma caloura virgem - sim, eu ouvi isso e retomarei esse momento daqui a alguns parágrafos.

Nem preciso dizer que toda essa galera conseguiu me desestabilizar a ponto de eu achar que eu não era normal. Eu e meu namorado tentamos muitas vezes e eu me culpava toda vez que não dava certo. Eu cheguei a chorar, porque sentia que o problema era eu. Todas as minhas amigas tinham transado-com-penetração-pela-primeira-vez de uma vez só e eu já tava na décima tentativa e nada. Até que um dia foi. E eu senti um alívio MUITO GRANDE, não por ter feito um sexo maneiro - e realmente foi maneiro -, mas porque eu finalmente tinha quitado a dívida que tinha com a sociedade. 

Se vocês não compreendem o quão problemático isso é, sugiro ler o texto de novo desde o começo.

Que bosta de sociedade é essa? Como pode alguém sentir "alívio perante as pessoas" por ter feito algo que só dizia respeito a ela mesma? 

Parem de botar medo nas meninas e, pelo amor de deus, parem de insistir pra elas serem penetradas. Eu não suporto essas revistinhas teen que colocam a responsabilidade da penetração toda em cima de nós! "Você tem que estar relaxada". Sim, é bom mesmo que estejamos, mas pra isso, vocês tem que parar de uma vez por todas de criar essa mega espetacularização em cima das nossas vaginas e do que fazemos ou não com elas. E é muito bom lembrar que em toda essa relação existe um pinto e esse pinto é de alguém. Cadê a galera dividindo isso tudo com os homens? 

Quando me falaram pra transar-com-penetração logo porque eu já ia entrar na faculdade, eu não percebi a gravidade dessa fala. Hoje eu noto o quão errado é pensar dessa forma e cobrar isso de uma mulher. Eu não ouvi isso só de uma pessoa, mas de muitas. O argumento utilizado era sempre o mesmo e eu vou deixar ele bem destacado nesse texto pra vocês nunca, em hipótese alguma, repetirem pra alguém:
"é bom você aproveitar que tá junto de uma pessoa que você confia, porque se for pra faculdade os caras não vão ter paciência se descobrirem que você é virgem e se aceitarem transar com você não vão ser cuidadosos"

WHAT???

WHAAAAAAAT???

Vamos parar de naturalizar essa falta de cuidado dos homens durante o sexo. Isso não é normal! Não tem como um cara chegar querendo botar o pinto dele em você, sem se preocupar se 1) você está gostando daquilo e 2) se aquilo tá te machucando. Isso é errado num grau que eu poderia ficar dissertando sobre durante horas. 

Meninas, anotem no coração: não é normal sentir dor durante a penetração. Se te falaram que é normal doer na primeira vez, isso tá muito errado. Não é questão de opinião: tá muito errado mesmo! Se o cara não sabe lidar com o ser humano com quem está transando, a dor não é sua culpa, é dele. Ele não tá transando com uma porta, ele tá transando com uma mulher. E tem mais: a dor não está relacionada à "virgindade" (entre aspas, porque já conversamos sobre isso no início do texto). Se o cara não tiver o mínimo de decência e gentileza, vocês podem transar pelos próximos 50 anos e em todas as vezes em que transarem vai doer. Lembrando que ser gentil durante o sexo não é diferencial, é pré-requisito

Pausa pra respirar.
Pronto.

Depois que você "perde a virgindade" (odeio esse termo, me ajudem a arrumar outro), sua vida continua a mesma. E pasme: talvez você nem queira mais transar assim, ou não faça questão. Existe uma infinidade de outras maneiras de fazer sexo. Beijem as pessoas, toquem no corpo das pessoas, sintam a presença das pessoas, não importa se é alguém que você conheceu hoje ou há anos. A vida já é muito ruim com a gente em vários outros momentos do dia, então que, pelo menos, quando estiver transando, que a gente possa ser feliz. 

15 de novembro de 2016

Estilo de vida minimalista: roupas e objetos

mi·ni·ma·lis·ta 
1. relativo ao minimalismo ou aos minimalistas.
2. que está reduzido ao mínimo ou pretende reduzir ao mínimo.


Sempre me incomodei com aquelas gavetas sem função determinada, cheias de coisas aleatórias. Carregador de celular, carnê das Casas Bahia, chave da porta que não existe mais, lembrancinha de aniversário de 15 da prima, moeda de 5 centavos, grampeador... Lá na casa dos meus pais, tem uma gaveta específica pra isso e ela fica na cozinha. Quando vim morar sozinha, a primeira coisa que prometi a mim mesma, depois de não acumular roupas sujas a ponto de ficar sem ter o que vestir, foi não ter uma gaveta da cozinha

Gavetas da cozinha, seja lá em que cômodo da casa elas estejam (ou se são gavetas - pode ser uma estante, uma caixa, um criado-mudo) são ótimas oportunidades pra você não se desfazer do que não possui utilidade. 

Você chega em casa depois daquele rolê cansativo. Nas mãos, o panfleto de pizzaria que te entregaram na rua. O que você faz com ele? 

( ) coloca dentro da agenda telefônica ou em algum local parecido;
( ) joga fora - no lixo limpo, de preferência;
(xxxxxxxxx) coloca na gaveta da cozinha.

Malditas gavetas da cozinha, infernizando meu espírito minimalista desde 1994. 

Não é de hoje que me incomodo com essas coisas. Recentemente, lendo sobre o tema na internet, descobri que isso não é maluquice minha. Essa angústia por gavetas da cozinha se resume em um tipo de personalidade, que venho tentando ligar a um estilo de vida. Alguns chamam de minimalismo, mas não importa muito o nome. O que importa é: só quero pra mim o que me for realmente necessário. 

Isso abre espaço pra falar sobre vários assuntos, desde a forma como lido com minha aparência até a maneira como me relaciono com as pessoas ao meu redor. Pra começar, vou falar de algo mais prático: roupas e objetos.


Organizar armários e estantes nunca foi tão prazeroso quanto na semana passada. Foi a vez em que eu mais fui radical. Eu me livrei de coisas que não tinha coragem de desapegar e, para exemplificá-las, nada melhor do que listas:

- roupas que eu ainda acho bonitas, mas que não são confortáveis ou não acho que ficam bem em mim;
- roupas que estão esperando pela ocasião especial desde 1867;
- livros que eu não pretendo ler; ou que li e não gostei; ou que li e gostei, mas não faço questão de ter; 
- caderninhos e agendas com muitas folhas em branco que não estão sendo usados;
- bolsas e mochilas paradas há décadas.  

Uma parte de tudo isso eu vendi, com o objetivo de ter grana pra comprar roupas que realmente vou usar (de preferência peças chave, que eu consiga combinar com o que já tenho). A outra parte doei para um brechó. 


A sensação que me dá é uma mistura de alívio, paz e leveza. Tenho certeza de que no meu armário tenho somente o que eu realmente visto. E os objetos, que poderiam ir pra gaveta da cozinha, estão fazendo um benzinho pra outra pessoa. 

9 de novembro de 2016

Sobre os últimos dias #3

Era pra eu estar dormindo, depois de ter - tecnicamente - começado meu projeto de pesquisa pra faculdade. Acontece que amanhã não vou ter tempo de almoçar no restaurante universitário e resolvi deixar o almoço pronto (e olha que foi só uma carninha moída com purê de batata), mas não imaginava que fosse levar duas horas na cozinha. Maldita mania de cortar fininho a cebola. 

Isso me faz pensar no quanto a vida adulta é um verdadeiro desafio, porque se você resolve não lavar a louça ou arrumar sua cama, não tem problema, mas se você não deixa almoço preparado você simplesmente não vai ter almoço. E eu fico sem roupa limpa, mas não fico sem comida. 

A minha vida tava extremamente corrida até 3 semanas atrás, mas não vejo motivo pra me vangloriar disso. Tipo, eu não acho normal uma pessoa dormir pouquíssimo todas as noites porque ficou estudando, ou se alimentar mal porque não dá tempo de fazer comida. Por isso, com a ajuda da minha mãe, eu reformulei toda a minha rotina.

Continuo sem o tempo que eu gostaria de ter (no caso, férias de 15 meses), mas agora eu aprendi que reservar o meu tempo também faz parte do meu dia. Ficar um momento sem fazer nada, nem que seja meia hora, vendo vídeo, olhando pro teto, ouvindo música, mesmo sabendo que tem várias coisas pra resolver gritando no meu ouvido. Hoje foram 2 horas cozinhando, então digamos que eu tive um momentão. Meu projeto de pesquisa ainda não comecei, mas as comida tão tudo pronta nos potinho na geladeira. 

O que mais tenho feito pra me distrair é ouvir música, principalmente no caminho pro trabalho. Vou deixar aqui as que eu mais tenho escutado: