Uma conversinha.

12 de fevereiro de 2010

"Eu tenho uma irmã chamada Márcia, também... ela vai fazer aniversário amanhã."
"Creio que ela seja mais jovem do que eu..."
"Obviamente."
Aquele obviamente soou de forma estranha e mau-educada, mas ele logo pôs-se a se desculpar.
"Não foi isso que eu quis dizer, dona... foi mal" - e gargalhou.

Ele é um morador de rua, lá da cidade onde vive a maior parte da minha família, Barra do Una. Seu nome é Luís, mas todos o chamam de alemão devido aos seus olhos claros e por ser loiro.

"Você tem quantos anos, meu filho?" - a minha mãe perguntou.
"Trinta"
"Poxa, você é tão novo! Por que tá nessa vida?"
"Ah, sabe como é..." - continuou, dançando pra não cair de tão bêbado que estava. Percebia-se isso através da sua voz lenta - "Meu pai falava Homem que é homem, bebe! daí lá fui eu beber com ele um dia. Quando chegâmo em casa, minha mãe jogou nós dois no banheiro."
"Tá bebendo até hoje por quê?"
"Ah, não dispenso a barrigudinha."
Nos entreolhamos. O que seria barrigudinha? Imaginei uma mulher gorducha, mas ele logo tratou de explicar. É uma espécie de pinga barata, que vem numa garrafa gordinha.

Ele pausou pra pedir uma caixinha de fósforos emprestado no bar. Quando voltou, ascendeu um cigarro.

"Tá só até aí ou tu usa alguma outra coisa?"
"Q'outra coisa o quê... Esses dias vieram me pedir um tal de craque, daí eu virei e perguntei Que isso? Sou drogado não, viu."

Nesse instante, uma família caminhava pela rua e um cachorro gigante passou por eles. De repente, o Alemão gritou por ele: Venha cá, seu malandro! Com medo, o cachorro voltou de orelhas baixas. Era o cachorro dele, seu companheiro.
"Po, tá na hora de dar um banho nele, cê não acha não?" - perguntou minha mãe.
"Que nada, dona. Ontem eu já 'taquei ele da ponte; tá limpinho, olha."
"E como tu consegue ração pra ele?"
O Alemão começou a rir.
"Ração? Tu acha que ele come ração, dona? Ele come é carne. Por que tu acha que ele fica comigo? Os caras lá que cuidavam dele não davam comida boa daí ele veio pra mim... Ração? Ração como eu."

"Você mora onde?" - continuou minha mãe.
"É o seguinte... Eu táva aqui do lado, dormindo do lado de fora dessa igreja. Daí num belo dia, fomos eu e um doido aí assistir a missa. A gente contribuiu lá com uma graninha pra botar gasolina no carro do padre, né. Aquela cestinha, vocês tão ligado. De repente, ele berrou lá do altar, pelo microfone: Hei, vocês dois aí. Vão saindo dessa igreja. A gente obedeceu, né, fazer o quê. Depois da missa, o padre veio falar com a gente... Vocês não vão mais poder dormir aqui, tão ouvindo? Aí eu virei pra ele e perguntei: Tá, mas devolve o dinheiro que a gente doou, né?"
"O que ele respondeu?"
"Não posso, meu filho. Esse dinheiro vai para as pessoas pobres...'' E EU SOU O QUÊ?

"Você tem filhos?"
"Tenho um piá, 15 anos..."
"Cadê ele?"
"Tá lá com a minha mulher e o pé de veludo."
"Pé de veludo?"
"Sim, aquele que chega de mansinho e quando a gente vê já tá casado com a nossa mulhé... Mas pensou que ele ia ficar só com ela, é? Pegou a mulhé, agora cuida do filho também!"

A gente começou a rir muito. Conversamos ainda durante mais algum tempo e tivemos que voltar. No final ele ainda disse que era do Paraná e que já conheceu do nordeste ao Chile, só andando pelas estradas. Parou em Barra do Una por acaso e está lá há alguns meses, porque gostou dos moradores.
Em nenhum momento ele proferiu palavrões, nem deu em cima de ninguém. Durante todo o tempo ele deu risada, fumou, falou lentamente e nos fez rir.
E antes de ir embora, eu ainda o ouvi dizer: "Essa caixa de fósforos é minha ou ela me deu?"

Ainda tem gente que dá tanto valor ao dinheiro que esquece de viver a vida felizmente.

Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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