O meu segundo mundo.

11 de março de 2010

Sob janelas, sobre o muro. All stars, revistas de desenho japonês, lápis, borrachas, tempo nublado, ventinho frio. Paz, sossego e folhas em branco. São poucos os ônibus que por aqui passam. Da janela acima se ouve o vizinho cantar desafinado. Na frente do prédio, técnicos conversam sobre a TV quebrada. Na garagem, meninos jogam futebol. Jornais jogados pelo chão salão de festas... Um velhinho de boné acabou de entrar e está conversando com o porteiro.
Sentei-me debaixo de uma árvore e comecei a desenhar. Desenhei pessoas e mais pessoas. Adoro desenhar pessoas.

O céu está escurecendo e eu preciso subir para o apartamento de meus avós.
Subo o elevador; o mesmo elevador de sempre, nada mudou dentro dele. Aperto o nono andar e aguardo. Caminho pelo corredor em direção ao apartamento noventa e sete e giro a maçaneta. Não há ninguém na cozinha. Na sala, vovó assiste à novela encolhida em um cobertor. No quarto, entre partituras, palhetas e notas musicais, está vovô, tocando seu velho violão.

Vou para a cozinha buscar biscoitos de goiabada e café; depois me junto à vovó. Encolho-me no cobertor junto a ela e deito sobre seu ombro. Ela abaixa a TV e começa a contar histórias de quando era mais nova. Logo depois, vovô sai do quarto e senta-se no outro sofá, com seu violão, obviamente. ''Obviamente'' porque ele nunca o larga. Quase nunca.

- O café está na mesa, Mauro. – diz ela, olhando para a TV.

A novela acaba e ela vai para a cozinha preparar um bolo. Eu fico na sala ouvindo meu avô tocar músicas, dedilhando as cordas de aço do instrumento, sozinho em seu mundo de notas musicais.

Não demora muito para vovó voltar para a sala e ligar o DVD. Logo começa o famoso “Fun in Acapulco”, do Elvis. Meu avô acompanha cada música e vovó cantarola em meus ouvidos, as mesmas canções do filme.

Com o tempo vou adormecendo e só acordo quando ouço sua voz, gritando lá da cozinha:
- O bolo está pronto!

 




Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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