E lá se foi Poliana.

11 de abril de 2010

E lá se foi Poliana.


Colocou a última peça de roupa dentro de sua mala vermelha, calçou seus sapatos e saiu. Parou para pensar se realmente estava tomando a decisão certa ou se encontrava-se a um passo de cair em um profundo abismo, deixando tudo o que gostava para trás. Lembrou-se das palavras de sua mãe, que a alertavam das dificuldades as quais enfrentaria, mas tampou os ouvidos com suas delicadas mãos e desviou o seu destino para outro caminho, diferente do recomendado.

Ao sair de casa, Poliana acenou ao padeiro, bebeu uma caneca de café com leite, deixou as moedas sobre o balcão e partiu. Seria uma longa viagem e procurou não perder a hora dentro de uma segunda caneca.

A manhã estava agradável e o sol refletia nas poças d'água, ofuscando a visão das pessoas que por ali caminhavam, de cabeças baixas. Entregou o bilhete ao moço uniformizado em frente ao trem, entrou no terceiro vagão e depositou sua mala sobre o chão de madeira, sentando-se no banco. Colocou seus óculos escuros para não cegar-se diante do sol ardente que iluminava o dia e esperou...

Esperou mais um pouco... Esperou muito, muito, muito... O céu fechou-se e sob o céu surgiam nuvens negras, as quais fizeram da bela manhã um dia mórbido e solitário. Sozinha naquele vagão de trem, Poliana tirou os óculos escuros e olhou tristemente para o lado de fora, onde as gotas pesadas caiam com força sobre o solo. E o sol? Cadê o sol tão lindo que marcara o momento de sua saída, da saída de sua antiga vida, o qual a animara tanto para que tomasse sua decisão?
Poliana entristeceu-se.
Abriu um pacote de biscoitos e esticou suas pernas gorduchas sobre o banco da frente. Estava cansada, mas não se rendeu ao sono. Permaneceu acordada, lutando contra aquela imensa nuvem feia que deixava o seu dia escuro. Quando só restavam os farelos do que comera, olhou para o lado de fora e viu que um novo sol se abria. Um enorme sorriso marcou seu rosto, enfatizando suas covinhas.

Foi quando um senhor carrancudo adentrou o vagão e olhou com bravura para a menina. Nesse mesmo instante, Poliana tirou os pés do banco e ajeitou sua postura. Limpou os farelos do biscoito e tratou de pegar um livro. O ancião a encarava com um grande mau humor e isso a impedia que continuasse a ler o romance tranquilamente. Então o céu azul brilhante se transformara num imenso branco que cobria a estrada: chovia.
A menina vestiu um casaco xadrez e encolheu-se no banco. A viagem a cansava cada vez mais, porém, a jovem não desistiu e permaneceu com os olhos atentos, aguardando desanimada a sua chegada. E o velho esbravejou diante do próprio mau humor, levantou-se e desistiu da viagem.

Poliana chorava. Queria sua cama quentinha, queria os abraços de sua mãe, queria as risadas de seu irmão, queria as piadas de seu pai, a comida de sua avó, a música de seu avô, os beijinhos de seu cachorro... Desejava mais que nunca a sua liberdade, diante da possibilidade de sair daquele vagão definitivamente e voltar para tudo o que tinha e que amava... PENSOU. Sorriu. O dia continuava feio, mas sua esperança fez com que não se deixasse abater por tão simples problema. Tantos dias bonitos viriam alegrar sua vida se ela permanecesse lá, naquele solitário vagão, aguardando.

O trem parou e poucas pessoas desceram. Dentre elas, Poliana, sorrindo, gargalhando, comemorando, dançando. E o dia voltou a ser lindo novamente... Dessa vez, para sempre.

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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