O dia que o meu sorriso enfeitou Paris

29 de maio de 2010

Texto para Bloínquês
19ª edição visual
Tema: foto abaixo


Após dezenove meses, quatro dias e algumas longas horas, lá estava eu, fazendo com que a terra dos sonhos se transformasse em realidade. O vento forte daquela manhã gelada fazia com que eu apertasse ainda mais o meu longo casaco de botões.

“Esperarei por ti debaixo da Torre Eiffel”, dizia o e-mail, “o lugar que você tanto sonha em visitar, minha querida amiga brasileira”.

Eu copiara aquelas palavras em um pedaço de papel e, naquele instante, ele estava em minhas mãos, após uma longa viagem. Foi a primeira vez que eu havia sentado na poltrona de um avião, bem pertinho da janela. Aos poucos, vi as pessoas se transformarem em pequenos pontos verdes e amarelos, os quais se transformaram em azuis e vermelhos, mais tarde.

Meu primeiro passo em Paris foi dado na manhã daquele mesmo dia. Assim que recuperei minha bagagem, tomei o caminho da Torre, saindo correndo pelas ruas parisienses. Com uma das mãos, segurava a mala verde e, com a outra, a minha boina negra que insistia em sair voando. A pressa dos meus passos fez com que eu esbarrasse em uma mesa de café, posta no meio da rua. Após milhares de pedidos de desculpas apressados, retomei o fôlego e continuei correndo. Meu cachecol já fazia com que eu não visse nada que passava à minha frente e meus pés esmagavam-se apertados naquela sapatilha xadrez, que implorava por um segundo de descanso. Porém, minha ansiedade não deixava. Estava, literalmente, a alguns passos de um dos maiores sonhos da minha vida.

Enquanto eu corria desesperadamente, as pessoas olhavam-me com curiosidade e eu estampava em cada rosto francês um largo sorriso. Conforme eu corria, o frio aumentava. Meus dentes se batiam rapidamente e o peso da minha bagagem eu já não suportava mais. Foi quando eu cheguei.

Que lugar mágico... Quanta grama, quantas flores, quanta felicidade! Lágrimas de contentamento corriam pelo meu rosto cansado e eu respirava sorrindo. Não podia ser real. Eu estava debaixo da Torre Eiffel, sentindo o inverno entrar em minha pele e chorando de alegria.

Retirei um pedaço de papel do meu bolso. Após dezenove meses, quatro dias e algumas longas horas, lá estava eu, fazendo com que a terra dos sonhos se transformasse em realidade. O vento forte daquela manhã gelada fazia com que eu apertasse ainda mais o meu longo casaco de botões.

“Esperarei por ti debaixo da Torre Eiffel”, dizia o e-mail, “o lugar que você tanto sonha em visitar, minha querida amiga brasileira”.

Mas ela não estava lá. Meu sorriso se desfez. Minhas lágrimas secaram. Meus olhos diminuiram e meu coração apertou-se dentro do peito. Cadê ela? Onde está a minha tão querida amiga francesa? Ela me prometera que esperaria-me debaixo da Torre Eiffel, naquele ambiente tão surreal e fantástico, porém não estava lá. E diante da minha tristeza repentina, abri o papel amassado que carregava nas mãos. Ei, espere! As palavras ali escritas já não eram mais as mesmas. Assustei-me. Li em voz alta:

"Olhe para trás..."

Rapidamente dei um giro em torno de mim mesma e sorri. Lá estava Jennifer, minha amiga francesa, encostada em uma das belas árvores que lá havia. Ela me olhava contente e sorria. Aquele sorriso foi parar em minha face, que se alegrava novamente. Corri para abraçá-la, mas ela me pausou com um gesto. Fez-me um sinal de "Espere... calma....", como se me pedisse para ter mais um pouco de paciência. De repente, toda aquela cena se desfez e eu fui tirada lentamente daquele lugar. As cores desfizeram-se, as flores sumiram e Jennifer desaparecera.

Depois de um breve susto, dei um pulo da cama. Olhei para o lado e vi seu retrato, com a boca suja de trufas de chocolate, sorrindo para mim. Parecia continuar me pedindo paciência e dizendo "Calma, Manie... Nós nos veremos muito, muito, muito em breve".



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Esse texto foi baseado em um de meus sonhos com a Jenny.
Jennifer é uma das melhores pessoas que eu já conheci em toda a minha vida, mas ela mora em Le Touquet, uma cidade francesa. Nós nunca nos vimos e só nos conhecemos através da Internet, há quase vinte meses.
Um dos meus maiores sonhos é vê-la e um dos seus maiores sonhos é vir me ver. Já que isso vai demorar mais um pouquinho para acontecer, ela criou um lugar chamado Dreamland, onde nós podemos nos encontrar. Esse lugar está perto de nós duas e, se quisermos, podemos ir todos os dias... nos sonhos. Sim, Dreamland, como o próprio nome diz, significa "Terra dos sonhos" e, muito, muito, muito em breve, se transformará em "Terra da realidade".



Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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