Saudade, sem traduções.

22 de maio de 2010

"Oi amor, tudo bem? A mamãe tá aí? Posso falar com ela? Beijo, tchau..."

Sempre que ela ligava pra cá, dizia essa mesma frase. Recordo-me de sua voz grave ao proferi-la. Lembro-me também, do dia em que eu, lá pelos oito anos de idade, perguntei a ela se não podia dizer outra coisa além daquilo, ao telefone. Ela caiu na gargalhada.

Ah, foi com ela que eu aprendi, aos seis anos, que 'teacher' não se pronuncia 'chicher', mas sim 'ti-tchâr'.

Podia chover, fazer sol, nevar ou ser o dia do apocalipse, mas ela sempre esteve presente em todos os meus aniversários, mesmo quando não tinha festa. Vinha debaixo de chuva com seus dois filhos pequenos e sua bebê, trazia-me uma lembrancinha...

... Uma lembrancinha. Isso me lembra a páscoa de 1998, quando ela passou no apartamento onde eu morava para me entregar uma lembrancinha. Porém, ao invés de chocolate, eram três coelhos de pelúcia embrulhados em um papel enfeitado, em formato de ovo de páscoa. Eu, na minha inocência, puxei o primeiro coelho pela orelha e atirei longe. Em seguida, puxei as orelhas do segundo coelho. Depois, puxei as do terceiro. Por fim, fiz uma cara de confusa e perguntei: "cadê?"

Ela era alta e gorducha. Tinha uma boca enorme e minha mãe dizia que ela gastava um batom inteiro cada vez que passava. Ah, minha mãe. Elas eram irmãs. Não de sangue, mas de coração, que é o que realmente importa. Conheciam-se há vinte anos. É realmente uma amizade de se dar inveja a qualquer pessoa...


Uma vez, aos dez anos de idade, fui dormir na casa dos meus avós e acordei com a triste voz de minha vó, que chorava ao telefone. Permaneci deitada na cama, tentando desvendar o que acontecia.
"Trinta e um anos, Mauro...", dizia vovó ao meu avô, "Tão jovem..."
Eu já tinha sacado: Alguém morreu. Agora, o segundo passo seria descobrir quem morreu.
"Três filhos, Mauro...", continuava, "A Ana Carolina ainda é uma bebê..."

Nesse momento, meu coração apertou. Não queria acreditar no que estava ouvindo. Não era possível... Devia existir alguma outra pessoa de 31 anos com uma filha pequena chamada Ana Carolina. Mas não tinha.

Levantei-me e fui até a sala. Minha vó estava com os olhinhos fundos.
"Manie, a vó precisa contar uma coisinha... Ó... A gente precisa ser forte, ta?"

Aquilo bastava.

Lembro-me da minha mãe me recebendo de óculos escuros; lembro-me de uma vizinha gordinha me abraçando (o que me fez lembrar dela); lembro-me de sua mãe se ajoelhando e gritando aos pés de seu caixão; lembro-me de várias pessoas sofrendo; lembro-me de minha mãe me convidando pra vê-la e eu dizendo que não queria. A tentação foi grande. Eu a vi. Estava pálida. Não sorria. Seus olhos estavam fechados e eu torcia para que eles se abrissem... Ou torcia para que os meus se abrissem e que aquilo não se passasse de um pesadelo.

O que se passou depois eu não quero citar aqui, pois acho que as más lembranças devem ser apagadas da memória. São lembranças muito fortes e nem um pouco agradáveis, mas que ficarão pra sempre dentro de mim.
Foi o dia mais triste de toda a minha vida. Depois dele, os telefonemas de madrugada passaram a me amendrontar.... Nunca mais fui em velórios; nunca mais entrei em cemitérios; nunca mais... Nunca mais.

Eu não sei porque estou escrevendo sobre isso, mas de repente me deu uma vontade tão grande e, ai, estou chorando. Não era pra eu estar chorando. É que... Eu sinto muita falta dela. Ela era a minha segunda mãe. Sempre foi uma das pessoas mais importantes pra mim. E eu tenho muita saudade dela. Queria poder abraçá-la novamente, queria poder falar com ela ao telefone, queria vê-la na platéia da minha formatura, queria vê-la em meu casamento, queria vê-la... Só queria vê-la novamente. Eu sinto muita falta. Estou sendo repetitiva. Mas eu sinto muita falta dela. Durante muito tempo sempre guardei isso comigo. Nunca conversei sobre isso com ninguém. Sempre procuro mudar de assunto quando me perguntam, mas... Todos os dias eu lembro dela. Todos os dias. A cada livro de história, a cada momento em que eu penso em tornar-me jornalista, a cada 'teacher' que eu ouço, a cada telefonema.

Não tenho palavras pra descrever o quanto dói perder alguém que amamos. Eu poderia estar dormindo, vendo TV, passeando, mas estou aqui, em pleno sábado de manhã chorando em frente ao computador, digitando isso pra poucas pessoas (ou ninguém) ler. Eu realmente espero que os anjos saibam ler, pois se isso for verdade, ela será uma das únicas pessoas que lerão isso.

Desde que eu a perdi, sempre tive medo de perder mais pessoas que eu amo. A cada despedida, a cada 'tchau' depois da escola, a cada passo que eu dou me afastando de alguns amigos, a cada abraço de despedida, eu realmente fico triste. Em alguns casos eu fico mal. Não quero dar 'tchau' para as pessoas que eu amo e ter a consciência de que essa pode ser a última vez que as verei. Não. Perder uma pessoa que amamos já é tristeza demais.

Acho melhor eu parar por aqui.

Se você tem uma madrinha, saiba que ela sempre estará perto de ti, indepentendemente do que aconteça. A minha está. Eu sei que está. Mas a saudade é imensa e nunca, nunca, nunca vai se apagar.

Pois é, Dinha. Espero que um dia a gente ainda possa se encontrar.




Não escrevam sobre coisas que te façam chorar ouvindo Noturno do Chopin... É só uma dica.

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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