A solidão do jardineiro

21 de maio de 2010

Jorge deu o último gole no vinho barato e acendeu um cigarro. A fumaça exalada fazia com que aquela noite gelada se tornasse mais aconchegante. Estava sentado numa cadeira de balanço, na varanda, de frente para o quintal. O atrito do móvel com o chão de madeira produzia um ruído desagradável. A luz fraca do lampião exaltava seus cabelos grisalhos e as rugas do seu rosto cansado; rosto de quem trabalhara a vida inteira como jardineiro para uma madame.

Ah, a madame! Seu nome era Clarice e tinha por volta dos quarenta e cinco anos de idade. Prendia os cabelos negros em um modesto coque e usava os mais caros vestidos. Era viúva de um velho rabugento e milhonário. Infelizmente, ela morrera cedo, deixando para Jorge o lamento de alguém que era amado, mas não amava. Jazia naquele mesmo quintal, de frente para a varanda onde Jorge fumava, naquela noite de inverno.

Pobre Jorge... Vivera infeliz, sem correspondência ao seu amor tão verdadeiro. Sempre dentro daquela maldita roupa de jardineiro, segurando aquela pá enferrujada e cuidando das flores de madame Clarice, a qual era a mais bela de todas elas.

Sentia-se sozinho. Precisava do sorriso de sua amada, do sangue de sua amada, do olhar profundo de sua amada, dos votos de perdão de sua amada, das delicadas mãos de sua amada ao piano, das lágrimas de súplica de sua amada... De sua amada.

Então, Jorge levantou-se. Naquele mesmo ambiente, trocou seus farrapos por um terno impecável retirado do guarda-roupa de seu falecido patrão. Espalhou pó-de-arroz por todo o rosto. Calçou os brilhosos sapatos do milhonário e ajeitou os cabelos com as mãos. Estava divino.

Após aprontar-se, caminhou até a campa de Clarice sob o silêncio da noite, com sua velha pá nas mãos. Pressionou-a contra o solo. A luz do lampião apagou-se. Continuou a cavar em busca de sua amada. Quanto mais cavava, mais se aproximava. De repente, a pá encostou em algo concreto. Era o caixão.

A madrugada chegava e o vento produzia um zumbido amendontrador. Jorge sorriu de satisfação. Agachou-se diante do caixão e, com a pá e a força,abriu o cadeado. Uma semana havia se passado desde que fora trancado. A podridão do cadáver transmitia um odor traumatizante para qualquer pessoa, menos para Jorge. Ele sorria e cantarolava. Passou as mãos sobre o rosto de Clarice, coberto pela carne em decomposição. Ele pedia perdão por tê-la deixado tão feia e dizia que a amava.

Por fim, uma lágrima de loucura afogou seu próprio rosto. Jorge retirou uma faca afiada e brilhante de dentro do bolso e suicidou-se. Agora ele ficaria para sempre ao lado de Clarice, sua eterna e morta amada.




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Tema: um jardineiro - um quintal - um caixão.

Esse foi um conto que eu criei na aula de literatura para ler em uma roda de alunos. Eles ficaram com uma cara de nojinho em algumas partes, mas me apontaram quando a professora perguntou qual dos contos eles gostaram mais.

Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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