Nosso querido dia dos pais.

31 de julho de 2010

Texto para Bloínquês
Edição de cartas
Tema: Dia dos pais

Olá pai,

Soube que você pegou o último trem. Espero que esteja bem acomodado, em uma poltrona confortável, fumando seu charuto favorito... Eu? Eu estou bem. Muito bem, na verdade. Feliz como nunca. Você deve estar se perguntando o porquê de eu estar tão contente... pois é, eis o motivo desta carta.

Sugiro que beba um gole da cerveja preta que tanto ama, antes de começar a ler. O que tenho a dizer é muito complicado de se aceitar. Não, calma, não se apavore. Quero que fique tranquilo enquanto estiver lendo essas palavras que aparentam ser secas, mas no fundo, foram molhadas por minhas lágrimas.

Hoje é dia dos pais, né? Um monte de gente deve estar com seus pais, felizes, aproveitando essa data comemorativa. Eu devia estar te esperando em minha nova casa, sei disso... mas não estou. Não, pai, não levante! Continue lendo. Não adianta sair do trem, ele não vai parar exclusivamente para ti no meio do nada. Volte para seu banco. Deixe-me terminar.

Como eu havia dito, não estou te esperando em minha nova casa. Sei que você estava muito animado para me rever depois de tantos anos... sei que você estava ansioso para conhecer minha esposa, seu netinho pequenino, meu chefe, meus novos amigos, meu novo lar, minha nova vida... Acontece que tudo isso era mentira. Não tenho uma nova casa. Não tenho uma esposa, nem um filho, nem um chefe, nem um lar... nem vida.

Eu estou vivendo longe de você. Muito longe. Longe demais. Até ontem, não poderíamos nos rever, pois isso era praticamente impossível. Porém, tive uma ideia. A princípio, senti-me um lixo por realizá-la, mas no fundo, era o melhor que eu podia fazer.

Sinto falta de pescar ao seu lado, de assistir aos jogos de futebol no Morumbi contigo, de te pertubar até você aceitar jogar banco imobiliário comigo... sinto falta do seu lugar à mesa, das viagens que fazíamos, das músicas que você ouvia... ora, pai, não chore. Guarde suas lágrimas.

Soube que mamãe morreu há alguns meses. Sou seu único filho. O senhor não tem mais nada. Aposentou-se há poucos anos e não tem mais perspectivas de vida. Agora, principalmente, depois de saber que não me verá quando esse trem parar... Mas eu te digo o seguinte: você me verá antes da última estação: Mamãe mentiu pra você. Você era e continua sendo cardíaco, não poderia saber a verdade. Eu não saí da cidade para construir uma nova vida, pai. Eu fui assassinado.

Há alguns anos atrás, enquanto voltava daquela festa, fui abordado por seis marginais. Eles roubaram minha carteira, meu celular, meu tênis e, não satisfeitos, começaram a me espancar. Deviam estar muito drogados... sim, eles estavam, sem dúvidas. Eles pisaram nas minhas mãos, chutaram meus olhos, esmagaram meus dedos dos pés, esfaquearam meu estômago... Ó, pai, foi terrível! Eu cuspia sangue e implorava para que parassem, mas eles riam do meu choro e continuaram a me fazer sofrer. Eles mutilaram meus dedos, um por um. Eles perfuraram minhas pernas com aquelas facas afiadas que refletiam o vermelho do meu sangue. Eles me deram murros na cara, cuspiram em cima de mim... Eles esfregaram meu rosto no asfalto quente, me xingaram... De repente, eu não sentia mais nada. Estava morto.

Pai? Pai? Ó, você não aguentou. Agora ficaremos juntos para sempre e, felizmente, passaremos o dia dos pais unidos, como sempre fomos.


De seu eterno filho,


Fernando.

São Paulo, 8 de agosto de 2010.

Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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