Sonhe por mim.

4 de julho de 2010

Texto para Bloínquês
1ª edição de cartas.

Eduarda,

Nesse exato momento você deve estar vestida de noiva, sentada em sua grande mala amarela no meio saguão do aeroporto, olhando para o grande relógio estampado na parede. Do lado de fora deve estar chovendo. Os aviões decolam rapidamente e as pessoas caminham apressadas pelos corredores. Deve haver alguma velhinha ranziza sentada perto de você, lendo alguma revista de fofoca, ou algum gringo bonito falando em outra língua com a moça da lanchonete. E você deve estar aí, sentada em sua grande mala amarela no meio do saguão do aeroporto, olhando para o grande relógio estampado na parede... me esperando.

Sonhamos em morar em Milão desde que nos conhecemos. Teríamos um apartamento pequeno, um cachorro grande e um médio salário. Daríamos importância para as coisas simples que passariam a nos cercar e diríamos bom dia para todas as pessoas que víssemos pelas ruas. Teríamos uma mesa de café da manhã modesta, porém deliciosa. Trabalharíamos como fotógrafos pra qualquer madame rica e jantaríamos sentados na grama de alguma praça. Durante o inverno, sairíamos pulando como dois astronautas cheios de roupas e rolaríamos pela neve... seríamos felizes.

Sempre que fazíamos esses planos, meu coração se apertava imensamente. Sentía-me mal por ter que esconder uma grande coisa de você. Eu não tinha mais nada, somente a certeza de que alguém me amava. Você. Não pude deixar todos esses sonhos de lado e chutá-los como grandes flocos de neve, para londe de mim. Isso me fazia feliz. Eu sabia que realizaríamos tudo isso porque sempre tivemos esperança, mas eu descobri depois de um tempo algo surpreendentemente triste: estou doente.

Antes eram oito meses. Agora, restam-me poucas semanas de vida. Eu poderia livrar-me de todos esses equipamentos que me ajudam a respirar e atirar todos esses comprimidos pela janela, só pra pegar um taxi e te encontrar no aeroporto. Eu não posso. Tudo isso aqui me mantém viva. Se eu sair, eu morrerei. Se eu ficar, eu morrerei. Se você ficar, você morrerá. Se você for, você viverá e me guardará contigo no teu coração.

Vá, eu imploro. Não desanime. Não desista. Sonhe. Sonhe muito. Não abandone o resto que sobrará do nosso amor como qualquer papel de bala que as pessoas jogam pelo chão. Lute. Enfrente o sofrimento. Chore. Faça o que for preciso para não morrer junto comigo. Pegue esse avião. Vá para Milão. Construa sua vida. Tenha um cachorro. Pule pela neve. Encontre um novo amor. Tenha filhos. Fotografe tudo o que te fizer feliz.

Realize tudo o que desejamos... se não por você, faça-o por mim.

De sua eterna amada,
Cecília.

Santos, 4 de julho de 2010.

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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