A menina que amava brigadeiro.

27 de setembro de 2010

Wow, que dia mais entediante. Tenho só oito anos, mas não ando tendo muitas coisas divertidas para fazer ultimamente, sabe.

Sento-me no sofá, caindo pelas almofadas, encosto meu pé na mesinha de centro e ligo a TV. Pego a primeira colherada de brigadeiro, daqueles que grudam no dente e te matam engasgado se você não tomar cuidado. Toda aquela lata de leite condensado e aquelas toneladas de colheres de chocolate só para mim, nhammm... devoro tudo.

De repente, desvio os olhos para a televisão. Moças magras fazendo sucesso nas passarelas, câmeras fotográficas esbanjando seus flashes, centenas de aplausos... Daí eu me lembro do quanto eu sempre quis estar lá, entre elas.


Olho para a panela com os restos do brigadeiro.
Olho para a televisão.
Largo a panela.

Caminho pela casa, lentamente. Passo em frente as minhas bonecas, todas enfileiradas, na estante amarela. Todas elas sorrindo, todas elas com as bochechas rosadas, todas elas magras... Olho para a foto de minha irmã mais velha estampada na parede do meu quarto. Tão linda, tão feliz, tão magra... Observo a televisão, dessa vez mais longe... as modelos continuam caminhando pela passarela. Todas elas contentes, todas elas bonitas, todas elas magras...

Paro em frente ao espelho. Vejo minha figura de 1 metro e 30. Afasto meus cabelos do rosto e desabotoo meu vestido florido. Vejo-me feia. Feia e gorda. Muito gorda, na verdade. Não sou bonita, não sou magra... cadê meu sorriso? Oras, será que não sou sorridente nem feliz, também?
Por que não sou como as moças da TV? Deveria perguntar para mamãe, quando voltasse do trabalho?


"Para ter essa cinturinha, eu controlo minha alimentação... nada de balas, bolos, sorvetes, brigadeiros..." , diz uma das modelos em uma entrevista.

Então é isso! São os brigadeiros que me fazem gorducha!

Abaixo a cabeça e abotoo o meu vestido. Olho para o lado, em direção à janela aberta. Respiro o ar fresquinho que vem de fora e sorrio. Volto para o sofá e sento-me do mesmo jeito que estava antes. Mudo de canal. Pego a colher com vestígios de brigadeiro. Penso na modelo e no que ela dissera na entrevista. Permaneço olhando a colher de brigadeiro. Devoro o que restou do doce.

"Coitada dela", finalizo, assistindo o final do meu desenho animado favorito.

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Assim como a personagem, meu pior pecado é a gula. Por mim, eu passaria o resto dos meus dias comendo doces e mais doces, deitada em quilômetros de grama... E não, haha, jamais deixaria de comer tudo isso por questões de estética, rs. As pessoas se importam demais com suas imagens e esquecem que a felicidade está nas coisinhas mais pequenas, como brigadeiros, por exemplo.



Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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