A Flor.

13 de novembro de 2010



Foi naquela tardezinha de novembro, após o último gole de café, que meus olhos deixaram as letras do jornal e curvaram-se diante do balcão daquele padaria. Avistei aquela flor. Usava um vestido florido de botões e prendia uma mecha dos cabelos louros com um grampo. Parecia exausta diante do livro que lia e, devido a isso, percebi que se tratava de alguma leitura obrigatória. Apoiava a testa com uma das mãos e, com a outra, dedilhava notas transparentes de um piano invisível sobre a madeira escura do balcão.

- Aqui está, mocinha. - disse uma gorducha do outro lado do balcão, entregando-lhe uma xícara de café.

Até aquele momento eu já sabia muito sobre a sua vida: odiava ler por obrigação e amava café. Oras, isso é muita coisa sobre a vida de uma pessoa, ainda mais quando ela gosta de café, como eu.

- Obrigada... - disse ela com uma voz quase apagada, rapidamente, retomando à sua leitura cansativa.

Bebeu o café inteiro d'uma só vez, sem desgrudar os olhos do livro. De repente, tirou uma caneta de sua bolsa que, até então, eu não havia visto. Fez algumas anotações no próprio livro. Pausou, fez uma cara de dúvida, olhou para o teto e torceu a boca. Pareceu ter lembrado de algo, pois começou a escrever loucamente, sem parar.

Acho que foi aí que pude perceber o quanto era ela linda. Seus olhos brilhavam num tom esverdeado e suas bochechas rosadas davam um ar de boneca ao seu rosto jovial. Era realmente uma flor. Uma flor jovem, delicada e persistente. Sim, era persistente, pois não desistiu de escrever o quer que fosse naquele livro que aparentava ser tão cansativo. As ideias fluiam rapidamente e, depois de algum tempo, parecia ter finalizado seu trabalho.

Sorriu profundamente e, quando se deu conta da sua feição alegre, desmanchou o sorriso. Qualquer louco a chamaria de idiota por estar sorrindo no meio de uma padaria, mas eu não... foi a cena mais linda do meu dia e eu memorizei-a em um desenho.

O relógio maldito me lembrava que o tempo passava e que eu precisava tomar o próximo ônibus direto para a minha rotina estressante. Antes de sair, entreguei o desenho à flor. Ela me olhou, observou o desenho e olhou-me novamente. Eu sorri e ela também.

- Ótimo observador você.

Eu sorri como forma de agradecimento ao elogio e fui comprar alguns cigarros no caixa. Quando voltei meus olhos à flor, um rapaz chegava ao seu lado e a cumprimentava com um pequeno beijo.

- Maria Flor, como foi a conclusão desse livro chato? - perguntou ele, ajudando-a a carregar suas coisas.

- Demorei, mas consegui. -respondeu a tal da Flor, dessa vez com letra maiúscula para comprovar o que eu dizia - Esse bolo é de quê? - perguntou ela à gorducha do outro lado do balcão.

- De chocolate amargo.

- Hmm... não, não quero nada amargo. Já basta aquele café terrível que tive que beber pra espantar meu sono. Sabe, eu odeio café.

Ela ainda sorriu para mim, antes de sair da padaria e dobrar a esquina, de mãos dadas com o seu verdadeiro amor. E eu, dentro de minha tolice, ainda acreditava que eu, que nunca amei a ninguém, poderia enfim, amar.



Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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