- Roubaram meu livro!

12 de janeiro de 2011

Texto fictício


Uma das jogadas que faço quando estou lendo um livro é parar de ler em uma parte interessante para ter vontade de continuar mais tarde, pois se paro em um capítulo cansativo a vontade de continuar a ler não vem nunca.

Pois bem, lá estava eu sentada no ônibus, lendo um livro policial da biblioteca, esperando meu ponto chegar. Estava indo à uma loja de roupas pagar a primeira parcela dos quatrocentos reais que fiz minha mãe gastar no mês passado. Não sou do tipo de pessoa que faz isso todo mês e justamente por isso minha mãe deixou avisado: Menina, tu vai caber nessas roupas até 2015 e pode ter certeza que o mundo não vai acabar três anos antes porque eu não vou deixar.

Como de costume, fechei o livro em uma parte decisiva. Já estava no final e eu finalmente poderia saber quem era o assassino da Madame Boulevard, depois de uma semana aguardando por esse momento. Dei o sinal e desci no ponto desejado.

Enfrentei uma fila quilométrica para pagar a tal conta e assim que paguei, encaminhei-me ao shopping para terminar de ler na praça de alimentação. No entanto, algo me intereferiu no caminho. Apesar de estar de manhã, a ruazinha que resolvi pegar para encurtar o caminho acabou com a minha vida. Tá, sem drama. Eu fui assaltada.

O ladrão chegou lentamente de bicicleta por trás de mim e, mesmo não estando armado, me assustou.

- Vamo mocinha, passa o celular ae...
- Foi mal cara, não trouxe ele hoje.
- Passa o mp5 então.
- Serve mp3?
- Cacete moça, tá atrasada, heim!
- É mano, daqui a pouco estarei sendo sua parceira de assaltos. - dei uma risadinha - E à propósito, o atrasado aqui é você, porque eu estava com quase cem mango na carteira antes de pagar uma conta.
- Hmm, engraçadinha... Vamo lá, passa a pulseira.
- Paguei três mango nela, quer mesmo assim?
- Tu tá zoando com a minha cara, manolo?
- Ah, qual é! Olha o sol, meu, vai pra praia jogar um fut, sei lá, vai ser feliz!
Ele arregalou os olhos e pareceu assustado com a minha reação.
- Abre a bolsa, anda!
Fiz a egípcia e abri a bolsa, mostrando tudo o que havia dentro dela pro ladrão.
- Um estojo de maquiagem, um santinho que me deram na rua, um Trident pela metade... Madame Boulevard...
- What? Tu tá lendo Madame Boulevard?
- Tô, por que?
- Mano, to louco pra ler isso ae... vamo, passa.
- Ah, qual é, meu, logo meu livro? - perguntei assustada com a ideia de não terminar de ler o final.
- Anda, na ligeira moça... - disse preparando-se para pedalar.
Foi uma cena trágica, um chute no estômago, uma facada no coração... foi triste ver meu adorável livro - que nem era meu - sendo entregue à um desconhecido tão facilmente.
- Cara, posso te pedir um favor?
Ele me olhou torcendo a sobrancelha.
- Amigo, passa teu MSN, eu imploro!
- Que isso, colega, tá afim de mim? - arregalou os olhos.
- Claro que não, idiota. Eu quero saber o final do meu livro e não conheço ninguém que leu até o final. Nem na internet é capaz de eu achar! Essa é uma raridade antiga pra cacete.
- Trinta mango.
- Trinta mango o quê?
- Pelo final do livro.
- Ahhh... Vinte?
- Ou trinta ou adiós final!
- Aff, beleza.

Assim que cheguei em casa, adicionei o gatinho underline praieiro underline vidalok no msn, chorando loucamente por não poder ler o final do livro com os meus próprios olhinhos.

- O que houve, filha? - perguntou minha mãe apavorada ao me ver chorar.
- Roubaram meu livro!

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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