Anabela.

28 de maio de 2011

Texto baseado em:

"Fui ter com Virgília; depressa esqueci o Quincas Borba. Virgília era o travesseiro do meu espírito, um travesseiro mole, tépido, aromático, enfronhado em cambraia e bruxelas. Era ali que ele costumava repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas, ou até dolorosas. E, bem pesadas as coisas, não era outra a razão da existência de Virgília; não podia ser. Cinco minutos bastaram para olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplação mútua, com as mãos presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E lá se foi a lembrança do Quincas Borba... Escrófula da vida, andrajo do passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros, se eu tenho dois palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir?"(Memórias Póstumas de Brás Cubas, cap. LXII)

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Ana Bela era bela como um lírio encantando uma manhã ensolarada. Sua pele negra brilhava sob a luz do astro-rei e seu olhar, quando encontrava o meu, estremecia-me dos pés à cabeça, como se me hipnotizasse lentamente. Seus cabelos enrolavam-se da raiz às pontas, macios como algodão e seu perfume era doce e suave, remetendo-me ao cheiro da primavera, estação das cores sobre o verde, sobre a terra, sobre as mesas lá de casa... Está bem, paremos com a mesmice: Ana Bela não gosta disso.

Lembro-me do dia em que cheguei eufórico em sua janela e, gritando por seu nome, fui rendido por um tropeção. Bendita pedra no momento não propício. Quando ergui-me, lá estava Ana, rindo-me com o rosto corado. "Venha, levante daí", dizia, "Vamos comer um pedaço de torta... acabei de fazer". E íamos até o jardim, nem paulista, tampouco francês, mas ainda sim um jardim bonito. Sentávamos na grama e, enquanto comíamos a torta, Ana Bela me contava sobre o seu dia lendo Agatha Christie. "Surpreendi-me, como sempre", comentava ela sobre o final da trama, "esse obrigar-te-ei a ler... é inacreditável".

... E eu a contemplá-la, como um cientista contempla sua descoberta; e diria ao cientista, se houvesse a oportunidade, o quanto a minha descoberta era ainda mais bela: o amor de Anabela por mim, amor esse que era sempre tão claro em seus olhos brilhantes cor-de-café... olhos que eu sabia que também contemplavam-me.

Como sentia-me bem quando perto de minha amada Ana Bela. Sua beleza, seu perfume, suas tortas, seu olhar ao dizer o quão difícil fora o teste de Ciências da tarde anterior... seu sorriso ao relatar seu amor por mim, sem naturalizá-lo, nem entregá-lo aos braços do cotidiano caótico e perturbador; sua suavidade ao pegar minhas mãos e trazê-las junto a si, abraçando-as delicadamente; sua voz doce ao cantarolar uma canção qualquer e qualquer que fosse a canção qualquer não seria qualquer ao som de sua voz doce.

... Era como estar longe da realidade, longe dos problemas, longe da vida... ou perto dela, se é que você, leitor, alguma vez já parou para pensar no que a vida significa. Para mim, não sei ao certo, só sei que naqueles momentos, em que nos braços de Anabela encontrava-me, nada mais importava: somente o meu amor por ela e seu amor por mim.

Mas aí surgiu um ponto ao fundo que se transformou em luz que se transformou em um clarão... o que quer que aquele causador de catástrofes represtentou, em uma noite escura, foi o causador de minha desgraça. Clarão maldito, pertencente ao ainda mais maldito caminhão. Levou a minha única alegria para um longe desconhecido; retirou seu perfume, seus cachos, sua pele, seus abraços, sua voz, seu sorriso... retirou tudo, acabou com tudo!

Afastou para sempre de mim o meu amor: a minha Ana bela, bela Ana... Anabela.

... e nem as tortas restaram-me.

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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