So don't teach me a lesson

15/09/2011

'cause i've already learned.


Estava chovendo. Na estação de trem, apenas Laura e o quadro.

(som de um trem passando rapidamente e fazendo o jornal jogado no chão voar)
A chuvinha era fina, daquelas que parecem pequenas agulhinhas perturbadoras. Laura vestia capuz e segurava o quadro. Ela não via o que tinha dentro dele, pois estava embalado. Era seu trabalho: entregadora de quadros.

Estranho? Para você pode até ser, mas para Laura era até interessante. Gostava de tentar desvendar o que havia dentro da embalagem através dos destinatários. Uma vez, o alvo foi um senhor muito - insira uma ênfase aqui - mas muito - mais uma - muito gordo. Foi no subúrbio da cidade que Laura encaminhou-se para entregar o quadro. Era pesado e grande. Pegou duas conduções até lá e tocou a campainha. Ao abrir a porta, o senhor olhou para ela com certo pouco caso e pegou o quadro rapidamente, fechando a porta após pagar-lhe. Laura imaginava que no quadro houvesse uma grande imagem de uma pizza marguerita, daquelas lotadas de queijo e cobertas por manjericão e tomate.

Mas daquela vez ela estava esperando o trem pra sua casa. Não, o quadro não era pra ela mesma. Ficara encarregada de levá-lo pra casa e, no dia seguinte - bem cedinho - entregá-lo no centro da cidade, na rua das Flores. Ela zelava muito pela ética de seu trabalho e nunca seria capaz de abrir uma embalagem, mas naquele dia, diante daquela solidão na estação de trem e sob a chuvinha fina, resolveu abrir o embrulho. Não sabia por qual motivo estava querendo tanto fazer aquilo, mas algo interior fazia com que ela destacasse o adesivo e, numa tentativa de "desgrampear" a caixa, abrisse.

Foi mágico.

Seus olhos bateram na imagem e fixaram-se nela. Dentro de uma moldura grossa de madeira, uma figura em preto e branco expressava a revolta de um homem perante sua realidade. Todos os outros eram idênticos e pareciam movidos por uma força incapaz de ser entendida. Mas o homem, no canto da tela, não parecia estar satisfeito com a situação na qual se encontrava e sua raiva, ódio ou seja lá que sentimento fosse que lhe dominava, foi retratado naquele quadro da maneira mais impressionante possível.

De repente, Laura soltou o quadro de uma maneira brusca e rápida, como se estivesse segurando um bicho venenoso. Seu vidro espalhafatou-se todo em pedacinhos no chão e a moldura simplesmente se desfez diante do choque, mas a figura manteve-se intacta e viva. Encarava a menina com fúria, como se a convidasse para um drink dentro de seu imenso preto e branco. Laura afastou-se, suava frio. Encostou-se na parede de tijolos e bateu os ombros no telefone público, derrubando o fone do gancho.

"Veeeenha... ", dizia uma voz de dentro do telefone, "veeeenha..." - mais alguns sussurros parecidos com ventanias furiosas, daquelas que batem na janela e parecem gritos.

Laura colocou o fone no gancho rapidamente. Sentiu um calafrio correr por todo o seu corpo e seus dentes martelarem dentro de sua boca como motores enfurecidos. Estava congelando por dentro. Deu alguns passos para perto da imagem sob os caquinhos de vidro e observou novamente o homem sofrendo dentro de seu mundo. Não, não queria ser como ele! Não queria enquadrar-se num mundo o qual não lhe pertencia!

Sentiu algo se aproximar de si. Fechou os olhos e torceu para que não fosse nada. A chuva continuava caindo devagar. O silêncio dominou o ambiente e Laura sentiu que algo realmente se aproximava dela e virou-se sem pensar.

Não era nada.

Congelava. Olhou para os lados e na rapidez de seus movimentos repetitivos, seu capuz caiu, revelando seus cabelos negros e longos. Em um dos flashes, viu um homem de terno, com o rosto todo apagado, bem ao fundo da estação, perto do bebedouro. Assustou-se. Virou novamente e não o viu mais. Continuou olhando para os lados e a cena repetiu-se novamente, dessa vez perto do banco de espera. Ele estava sentado e, mesmo sem ter olhos, parecia olhar fixamente para ela. Ela gritou apavorada e ele sumiu de repente. Um trem passou, não era o seu. Dentro dele, o mesmo homem de terno sem rosto olhando para ela. Sentiu o vento gelado da passagem do trem e seu coração acelerou. Lutava contra o medo. Olhou novamente para os lados e não viu nada. Virou atrás de si mesma e se deparou com o mesmo homem, centímetros à sua frente. Fechou os olhos com pressa, tremendo de pavor. Abriu-os novamente e ele havia sumido.

Laura começou a chorar. Queria sair dali, mas precisava do trem. O trem não chegava nunca. As ruas fora da estação estavam vazias, bem como a estação. Agachou-se ao lado da imagem, sem olhar para ela, e abaixou a cabeça sobre os joelhos, procurando não prestar atenção no que acontecia ao seu redor.

De repente tudo parecia ter acabado. A sensação de estar sendo observada ou seguida havia passado. O alívio se aproximava e resolveu juntar os caquinhos do quadro. A foto estava ali. Laura olhou para ela novamente. Foi tão rápido. Quando menos percebeu, foi puxada para dentro dela, sob seu último grito.

A estação continuava em silêncio e os caquinhos permaneceram sobre o chão. E a chuva... ah, a chuva fininha! Caía, caía... caía.


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Não sei o motivo, mas me inspirei ouvindo Heart in a Cage, dos Strokes, para escrever este texto.

Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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