O anjo

11/11/2011


Era a última vez que eu assistia àquele pôr-do-sol. O vento voava veloz e meus cabelos se moviam sem direção... assim como eu. Estava em cima daquele prédio quando olhei para o céu. Ele 'tava laranja, com nuvens amareladas. Dava pra ouvir o barulho abafado dos carros lá embaixo. Pensei. Não! Não queria pensar, não podia. A coragem passaria com o pensamento. Se eu realmente queria acabar com tudo aquilo, não podia pensar.

- Olá. - disse alguém se aproximando lentamente.
Reconheci a voz e virei. Era ele.
- Eu sei no que você tá pensando em fazer, mas -
- Você não vai me impedir.
- Mas eu não vim aqui para impedir nada. Se quer tanto fazer isso, vá em frente. Eu fico aqui assistindo.
Parei. Olhei para baixo.
- Você não teve culpa do que aconteceu. - ele disse.
- Era você que tava dirigindo?
- Não, era você.
- Então eu tenho culpa sim.
Um vento frio me estremeceu. Meus olhos se encheram d'água com as lembranças que me tomavam a mente.
- O que é a culpa? - ele perguntou.
Não entendi a pergunta e olhei para ele.
- O quê?
- Quero saber o que é a culpa para você.
Pensei.
- Não sei responder, é... a culpa... é algo abstrato...
- As pessoas se culpam por coisas do destino. Se alguém quebra a perna ao ir encontrá-la, ela se culpa pela perna quebrada da vítima. Até porque, se ela não houvesse feito o convite, isso não teria ocorrido.
- Por que você tá falando isso?
- Para de ficar perguntando e reflita sobre o que eu disse.
- Mas eu não preciso saber de nada disso... eu já decidi.
- Como uma pessoa pode pensar em se matar porque se sente culpada se não sabe nem mesmo o que é a culpa?
Parei novamente. Senti um peso passar pela minha garganta. Olhei para os carros lá embaixo de novo. O que era a culpa?
- A gente se ama. - ele disse - Não é justo que você desista de enfrentar tudo isso e tomar esse tipo de decisão sozinha. Isso é egoísmo.
Senti meu coração se apertar. Se eu me matasse por pensar que seria a solução para meu sentimento de culpa, seria injusto com ele. Não estaria afetando somente a minha vida. Parei. Pensei. Perguntei:
- O que é a culpa?
- Responda você mesma.
- Como eu posso responder uma coisa dessas? - perguntei com a voz trêmula.
- Saindo daí.
Pequeno silêncio.
Olhei para os carros. Não. Não podia continuar com essa ideia.
Olhei para trás e ele tinha sumido.
Assim que ele saiu, eu telefonei. Telefonei para ele. Meu celular, que estava jogado no chão, voltou para as minhas mãos e eu disquei.

- Alô?
- Alô... por que você saiu sem se despedir?
- Do que você está falando?

E o vi voar do outro lado do prédio. Voar de verdade, com asas... com asas de anjo. O meu anjo. O anjo que me salvou.


Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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