Sobre o amor.

15 de dezembro de 2011

- Nem sempre as coisas acontecem do jeito que gostaríamos que acontecesse - disse minha vó, com seus cabelos brancos ralinhos, tricotando no sofá da sala.
- É, você tem razão... foram só dois anos desperdiçados que não farão falta na minha vida.
Ela parou, pousou as linhas sobre o colo coberto pelo seu vestidinho xadrez e me observou séria.
- Não valeram a pena? É isso mesmo que você pensa?
- O que me resta pensar, vovó? - respondi, com lágrimas nos olhos - Nada do que eu tentei deu certo...
- Não é só porque não deu certo que não valeu à pena, Júlia.
Derrubei uma lágrima que foi seca por suas mãos.
- Venha aqui, querida - disse ela, apoiando minha cabeça em seu colo, fazendo cafuné - Antes de me casar com seu avô, eu me apaixonei. Eu tinha mais ou menos a sua idade... aí, por volta dos dezessete. - suspirou. - Só que essa pessoa não gostava de mim da mesma forma.
Acomodou-se melhor no sofá e eu levantei.
- Não, querida, pode continuar aqui... são só as costas. - e retomou de repente ao assunto - Às vezes dá certo quando insistimos... mas quando o tempo é cruel e se acumula, temos que lembrar de nós mesmos.
- Como assim, vó?
- Nós não podemos passar o resto de nossas vidas traçando planos para conquistar alguém, querida. O amor não vem assim, forçado...
Pensei, olhei para o reflexo do sol que se encostava no bibelô da estante.
- Eu odeio o amor, vó. Ele é ruim.
- Não, minha linda... - começou a fazer uma trança em meus cabelos cheios de cachos - O amor é um sentimento puro, verdadeiro e bonito, que nos faz querer viver. O amor não é ruim... o ser humano é que faz com que ele pareça assim...
- E por que o ser humano faz isso?
- Porque é mania de nós, meros humanos, agregarmos características nossas - portanto, particulares - aos sentimentos gerais, que são de todos. O amor é uma coisa só. E ele é bom...
- Mas por que ele nos fere, então?
- Não é o amor que nos fere, querida... é a falta dele.
Pausei por alguns segundos para refletir... fazia sentido.
- E como a gente faz pra ele não faltar?
Ela respirou fundo e continuou a fazer a trança em meus cabelos.
- Não somos nós que fazemos isso, netinha... O amor depende de duas pessoas. Quando apenas uma está disposta a compartilhar seu amor com a outra, não consegue... O amor deve vir de ambas as partes.
- Mas às vezes ele não vem, vó - disse com a voz baixinha, derrubando mais uma lágrima.
- É nesse momento que temos que pensar que a nossa vida é muito mais do que ficar tentando eternamente receber um amor não correspondido. - fez com que eu levanta-se e sentasse ao seu lado, olhando em seus olhos. Com as mãos em meus ombros, continuou a falar.
- Você é linda, querida... muito mais do que pensa. Isso vai passar, acredita em mim... Passou pra vovó, não passou? Olhe como estou hoje... apesar das rugas e dos cabelos brancos, continuo linda. - sorriu - Aquele meu antigo romance já não significa a mesma coisa para mim, pois com o tempo as coisas mudaram. Quando eu pensei que não houvesse mais motivos para se acreditar no amor, seu avô apareceu para mim... ele era lindo como ainda é... aquele sorriso e aquela vontade de me fazer sorrir também fizeram com que nós nos amássemos até hoje.
Derrubei mais algumas lágrimas, mas dessa vez não eram de tristeza... meu coração ficou mais leve e eu finalmente descobri que eu era capaz de superar aquela situação. Não ser correspondido não significa que nunca serei, por outro alguém...

... e a vida vai me trazer um amor como o de meus avós... o mundo não está perdido como as pessoas dizem. Elas é que estão. E eu não quero ser como elas.

- Eu te amo, vó... - disse, abraçando-a.
Ela sorriu, me abraçou de volta e, durante o abraço, disse:
- E essa menina ainda não acreditava que o amor era bonito...





Beatles... como sempre, traduzindo os sentimentos... leiam a tradução, pois é mágica!

Para todas as "Prudences"... vocês são lindas.

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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