Fazendo do fim um recomeço

18 de janeiro de 2012

Ela estava sentada no sofá de sempre, preparando mais um sapatinho de tricô.

- Você está com uma carinha triste... - disse, concentrada nos pontos que fazia.

Olhei para a televisão. Um vídeo musical expressava o amor entre duas pessoas que corriam felizes pela praia. Repudiava-me olhar aquela cena, mas, ao mesmo tempo, eu sabia que eu adoraria poder voltar a vivenciá-la. O difícil não era saber disso: era aceitar isso. Era como faquinhas perfurando meu corpo... a sensação de que elas entravam pela minha pele e encontravam um imenso vazio me deixava desiludido.

- Estou com raiva, vó. Mais uma vez ela conseguiu acabar com o meu dia.

Com feição de quem já estava acostumada com aquela mesma história, perguntou:

- O que houve dessa vez?

"Dessa vez"... Isso me doía tanto. Sabe, ouvir essa expressão era como se toda a situação ruim que me consumia tivesse se tornado rotineira. E eu também não queria aceitar isso.

- Ela odeia quando saio com meus amigos e, de repente, soube que ela saiu com uma amiga ontem.

Minha vó parou o que estava fazendo. Parecia estranho, um tanto infantil, desabafar com ela. Mas era bom ter uma psicóloga tão paciente ao meu lado, já que atirar tudo o que eu sinto pra cima dos meus poucos amigos era pedir demais deles.

- Vocês estão juntos, querido? - perguntou, incrédula.

- Claro que não, né. Olha a merda... desculpe... olha a desgraça que ela fez! Ela faz essas coisas de propósito, vó. Parece que gosta de me ver triste... parece que pede para que eu retribua da mesma forma! A vontade que me dá é de sair por aí pegando... digo, ficando com todas as garotas da cidade.

Ela deu um leve riso.

- Que graça tem isso? - perguntei, bravo.

- Não me entra na cabeça saber que vocês terminaram uma relação por um motivo tão sem cabimento.

- Sem cabimento?? - questionei - Como assim "sem cabimento", vó? Você aguentaria alguém pirraçando contigo durante meses dessa maneira? Ela fez tudo de propósito! Ainda tem a coragem de repetir que me ama todas as vezes em que nos vemos!

Minha vó respirou fundo e olhou para mim como se já soubesse o final da história. Isso me aborrecia um pouco... é estranho, mas quando eu estou passando por situações como essas em minha vida, prefiro ouvidos à bocas... e de preferência algum consolo e compreensão.

- Querido, a compreensão que você quer que eu tenha contigo não é a que eu posso te oferecer. Isso porque eu sou uma pessoa que te ama. Se eu não gostasse de você e não me importasse com o que você sente, eu não pararia o que estou fazendo pra conversar com você. Posso não ser a pessoa mais perfeita do mundo (até porque ela não existe) pra te ouvir nesse momento, mas eu me importo com tudo isso e quero tentar ajudar de alguma forma.

Confesso que me assustei com a maneira que ela me dirigiu aquelas palavras. Ela dizia tudo muito tranquilamente, mas eram coisas que me atingiam de uma maneira única. E não terminou por aí.

- Você sabe que eu não consigo me expressar tão bem, até porque já tenho uma idade avançada e meu raciocínio já não é tão vivo quanto antigamente. Mas eu vou tentar... por mais que você saia daqui bravo comigo, com aquela sensaçãozinha de "acho que deixei ela triste, mas é bom porque dessa forma não serei o único". Você quer continuar essa conversa?

Ainda assustado, prossegui:

- Tudo bem... pode falar. - respondi, mesmo que tal resposta não expressasse tudo o que eu estava sentindo após aquele baque.

- Você é apaixonado por essa garota, querido. Não deixe o tempo passar e te afastar dela por coisas tão pequenas. Vocês são jovens... não têm a experiência necessária pra continuarem nessa relação ainda, mas podem consegui-la juntos. Não é ficando(é assim que vocês falam né?) com qualquer menina pra fazer ela sofrer que você vai conseguir superar tudo isso. Vocês se amam. Não é fácil fazer um relacionamento durar, ainda mais pra vocês que são tão jovens, mas vocês conseguem se não desistirem dessa maneira.

- Como eu faço então, vó? - perguntei, tomando cuidado pra lágrima que insistia em cair do meu olho não escorregasse e acabasse de vez com a minha reputação.

- Não cobre tanto dela. Às vezes a gente pensa que o pedaço de torta que damos à alguém um dia deverá voltar pra gente pelas mãos dessa mesma pessoa. Não é só porque você faz algo e ela não expressa saber que você tem o direito de se pôr no lugar de vítima. Não existe vítima nessa história. Existem duas pessoas que se amam.

- Mas você tem que falar isso pra ela também...

- Não. Faça a sua parte que, com o tempo, ela fará a dela também. Sei que não é certo comparar as pessoas pela idade, mas você já é mais velho... tem pensamentos que ela não tem. Tem ideias que ela não compreende. Tem momentos que ela ainda não pode mudar.

Pousou suas mãos em meus joelhos e sorriu pra mim.

- Ela é uma garota que ainda tá na flor da idade... Tem dias que ela vem aqui, comenta comigo sobre o livro juvenil que está lendo, fala sobre a blusa que ficou apertada e a fez correr o dia inteiro na praia pra não engordar... Acima de tudo, sinto que ela gosta muito de você. E sinto também que ela não fez isso de propósito.

- Como você sabe? Ela sabe que eu não gosto quando... -

- Ela tem uma vida! - disse, em tom firme - Assim como você tem a sua! Vocês não podem se proibir de fazer coisas que gostam! Qual o problema de ela sair com aquela amiga? Por acaso você pensa que ela te trocaria por ela? Aliás, o que você pensa que elas fazem juntas? Tiram a roupa e começam a dançar em cima da mesa?

- Você é como elas, vovó, não vai entender...

- Como elas em que sentido?

- Você já foi menina... ela será uma mulher um dia.

- Não acredito que você mantem esses padrões de gênero estampados nessa cabeça! A genética não significa nada agora, querido. Se eu acreditasse que todos os homens são iguais, não estaria perdendo a minha novela das seis pra conversar com você... além do mais, estaria casada com uma mulher agora. - deu uma risadinha.

Minha vó sempre foi uma pessoa que gosta de falar. Fala até dormindo, se duvidar... mas me espantei com tudo o que ela dizia. Queria e não queria aceitar...

- Ela é uma garota adorável. Tem seus defeitos, assim como eu tenho e você também tem. Se quer um conselho, deveria parar de acentuar os defeitos dela e procurar as qualidades. Você viu o que ela fez semana passada?

- O bolo?

- Sim, o bolo. Aquele muffim que ela comprou e colocou velinhas em cima pra te desejar feliz aniversário foi uma coisa fofa que você nem deu valor.

- É...

- Ela deve tá amando ter um namorado, mas não pra se exibir... Ela ama estar ao seu lado porque você a cativou, mesmo sendo assim...

- Assim como?

- Uma pessoa que quer sempre estar certa e gostaria que eu estivesse fazendo cafuné ao invés de estar falando tudo isso. Até porque, a verdade é difícil né? Pelo menos a verdade que eu aceito e que seria muito mais fácil pra vocês dois se você também aceitasse. Amar uma pessoa tem seu preço, querido. Mas esse preço some quando os damos conta que o amor é superior a ele.

- O que eu faço agora, vó? Eu falei tanta coisa ontem...

- Vá até o apartamento dela e peça pra ela descer. Mas não fale nada... apenas dê-lhe um abraço forte e tente expressar por meio dele tudo o que gostaria de dizer...

O abraço foi forte. Mas o primeiro foi em minha vó porque eu sei que a novela das seis tava boa.




Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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