Filosofando

25 de janeiro de 2012

- Já parou pra ouvir o silêncio?

Ela era pálida como uma nuvem e vestia roupas de mesma cor. A única coisa que se diferenciava do branco que lhe cobria era o cabelo chanel azul.
- O quê? - perguntei, confuso.
Era estranho o fato de ela vir falar comigo sem ao menos me conhecer. Estava sentada na ponte, balançando as pernas, enquanto eu esperava o meu ônibus no ponto.
- É bonito como o som das notas silenciosas atingem minha alma... Te atingem também?
Achei que fosse mais uma maluca atordoada com a modernidade daquela metrópole. Talvez se atirasse de lá a qualquer momento ou simplesmente ficaria ali blefando, sob o escurecer do céu.
- Eu não sei... - respondi por impulso - Talvez eu tenha passado muitas horas preso no barulho do escritório, então não percebo.
- Não mesmo?
- Não. - retirei uma bolacha do pacote - Você aceita uma?
- Só me alimento de silêncio.
Deu vontade de rir, mas contive o riso.
- O silêncio não é um pouco vazio pra preencher seu estômago? - perguntei.
- O que é vazio?
- Como assim?
- Como assim o quê?
- Você não sabe o que é vazio?
- Eu não... Você sabe?
- Sei, ué.
- O que é?
Refleti sobre o que seria vazio.
- Er... Vazio é algo que não está cheio...
- Cheio?
- Vai me dizer que também não sabe o que é cheio.
- Não sei.
- Não sabe o que é cheio?
- Não... não sei se vou dizer que não sei o que é cheio.
- Você é muito complicada!
Comi mais uma bolacha e forcei a vista até o final da rua para ver se o ônibus chegava.
- Você ainda não me respondeu o que é vazio...
- Ah... - olhei pro pacote de bolacha - Olhe. Este pacote está com uma bolacha. - comi a última - Agora ele não tem mais bolachas. Está vazio.
- Entendi... - sussurrou - Então meu estômago não tem bolachas e, por isso, está vazio.
- É... Por aí.
- Por aí o quê?
- Por aí, ué... O que você disse faz sentido.
- O que você disse não faz?
- Eu não disse isso.
- Eu não disse que você disse.
- Ai, para! Você está me deixando maluco. É melhor ficar aí, falando sozinha. Não tenho paciência.
- A paciência come bolachas?
- Não, a paciência não come bolachas.
- Então ela é vazia.
- Pelo contrário. Minha paciência está é bem cheia, ouviu?
- Então você mentiu.
- Eu não sou mentiroso! Quem você pensa que é pra falar assim comigo? Eu nem te conheço!
- Você não sabe quem eu sou?
- Não e nem faço questão! - vi o ônibus que se aproximava e fiz sinal para que parasse - Tenha uma boa noite! - disse, enfurecido, subindo no veículo.

Ela permaneceu ali, mexendo as pernas. Ela, a paciência dele. Vez ou outra atirava uma pedrinha na água. Ela só queria ensinar o tal do enfurecido a percebê-la em sua vida e aproveitar o que ela poderia dar de melhor para ele: a tranquilidade através do silêncio... Mas ele não queria saber de nada disso. Ele estava mais preocupado com a papelada que tinha que ordenar naquela mesma noite, antes de dormir.

Preste atenção em sua paciência. Aprenda a ouvi-la! Mas cuidado... nem sempre ela está de branco e vez ou outra ela tinge o cabelo.

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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