O mundo precisa de mais abraços.

30/01/2012



(...) - Guerra?
- Guerra, sim, menino. Você não sabe nada da vida. Guerra. As pessoas são falsas, mesquinhas. São monstros. Vivemos entre monstros. É uma guerra em que os interesses falam muito forte. Cada um pensa em si mesmo. É como se vivêssemos em redomas. É parecido com esta estação. Acho que estou um pouco confuso.
- Eu entendo. O que não entendo é por que não fazemos alguma coisa para mudar. Por que nos acostumamos com o que não nos faz bem?
- Ah, menino! Como eu gostaria de acreditar que haverá um dia em que os interesses serão maiores pela essência do que pela aparência! Um dia em que nossos sentimentos poderão ser convidados a conviver, sem disfarces, com os nossos outros convidados. Como eu gostaria de acreditar que haverá um dia em que a palavra essencial será o respeito! Isso mesmo, o respeito. O outro não será apenas uma necessidade transitória. O outro não será descartável. Nada de redomas, menino! Mas não sei se ainda consigo acreditar nessas coisas.
- Na sua infância, você acreditava?
- Eu acreditava, sim. Muitas vezes eu quis entrar no trem e partir. Eu tinha a certeza de que, longe, em algum lugar, essas coisas seriam lindas.
- E você partiu?
- Um dia, eu parti e cheguei longe. E mais longe. E mais longe ainda.
- E encontrou?
- Não.
- Ainda não.

(O pequeno filósofo, de Gabriel Chalita - páginas 86/87)


Acabei de terminar (profunda mistura de sinônimos) de ler esse livro. Confesso que fiquei paralisada. Não com o final, mas com cada página que minhas mãozinhas viraram durante esses últimos dias. É uma história para ser pensada e fazer com que a gente se olhe no espelho e se reconheça. Não num espelho qualquer, mas no espelho da alma.

Apesar de constituir uma leitura bastante fácil, sua compreensão já não é tão simples quando paramos pra refletir no que está sendo exposto. Quando lemos e lembramos das pessoas e/ou momentos de nossas vidas, a "coisa" fica mais simples... mas quando puxamos o espelhinho do bolso pra enxergar nós mesmos, essa "coisa" muda de figura.

É fácil olhar pros lados e opinar. O difícil é saber que nós mesmos somos tão imperfeitos quanto pensamos. Não sabemos o motivo pelo qual estamos passando pela Terra. Sendo ou não uma questão biológia, sinto que há muito mais do que uma simples fecundação para explicar o porquê de eu estar aqui, neste momento, postando em meu blog. É uma questão profunda e chega e me dar nós na cabeça (se já não bastasse os do meu cabelo), mas depois de ler esse livro, parece que ficou menos pesado. Não que eu tenha descoberto a minha "missão" (insira um coro angelical com arpas e vozes suaves aqui), mas descobri em mim mesma muitas coisas que estavam escondidas durante muito tempo.

Durante a leitura, me senti (volto a dizer que odeio essa regrinha de pronome oblíquo e pararã, então deixa eu ser feliz) esfaqueada. Parece que o pequeno filósofo se dirigia só e somente (e apenas) a esse ser humano que sou. Confesso que em algumas passagens, tive vontade de fechar o livro e fingir que nunca tinha começado a ler o que tem dentro dele. É fácil ignorar a verdade que construímos, né?

Apesar de tantas "agulhadas", pude sentir a pureza das palavras do filóso-finho e, com isso, me senti leve. É com ler coisas que ao mesmo tempo em que apontam mil coisas em nossa cara, nos deixam tranquilos. Com sua delicadeza, o garotinho consegue ser ingênuo e maduro sem hesitar. É lindo como ele nos mostra coisas simples que deixamos passar como um trem em uma estação, levando pessoas, sorrisos, lágrimas e outras coisinhas do coração. É, o coração. Muita gente esquece que além da imagem que passamos exteriormente, carregamos uma coisinha do lado esquerdo do peito que, mesmo que simbolicamente, representa nossos sentimentos. Cada vez mais somos julgados por nossa aparência e, sendo assim, nossa essência vai sumindo (talvez em um trem, quem sabe....).

Somos cobrados. Se ainda não fomos, seremos. Eu vivi uma época em minha vida em que eu fui cobrada até na cor dos sapatos. Regras? Sim. Além do mais, "temos que aprender a enfrentar o que o mundo lá fora exigirá de nós, né?". Mas eaí? Até quando teremos "escolas de mundo real"?

"Os adultos têm as crianças e as educam, ensinando-as a se defender dos adultos. Não é contraditório?" (pg 105).

Será que um dia viveremos essa pequena utopia de poder trabalhar tatuados, por exemplo? Será que, no futuro, as pessoas estarão mais abertas a aceitar as diferenças? Não digo só diferenças relacionadas a estilo, como no primeiro exemplo, mas as diferenças em si. Eu, particularmente, enfrento uma barra pra poder aceitar as diferenças de todas as pessoas que me cercam. Tem dias que eu acabo deslizando e tentando colocar coisas na cabeça de amigos que não serão absorvidas da mesma forma que são por mim. A realidade do outro não é a mesma que a nossa, mas botar isso em prática já é outra história (beeem mais complicada).

Temos mania de discutir. Queremos estar certos. Até porque, sempre estamos, não é mesmo? Pois é, um soco no estômago pra Manie depois de ler esse livrinho.

Até porque, enquanto perdemos tempo com coisas fúteis - seja lá o que seja fútil pra você, querido (a) leitor (a) -, perdemos também a chance de dar um abraço. Isso faz sentido pra você que, com coragem e força, chegou até o fim deste texto doidinho? Talvez sim, talvez não... Mas pra mim faz.
"Se eu fosse um rei, no meu reino jamais um abraço seria recusado."

O mundo precisa de mais abraços.

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Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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