A garota da foto 3x4

14/02/2012

Texto para Bloínquês
106ª edição visual
Tema: essa foto

Desci do ônibus passando por cima do tempo que insistia em correr mais rápido do que eu. Cheguei ao trabalho com um certo atraso, sob os olhares punidores de alguns colegas.

"Bom dia, Marcos", diziam eles.

Na verdade, eu sentia que o que eles realmente desejavam falar era: ''Chegando atrasado de novo, heim? O que será que houve dessa vez, seu irresponsável?''... Como se tivessem alguma coisa a ver com a minha vidinha.

Dei meus passos para dentro daquela saleta cheia de fotografias estampadas na parede, que sugavam o dinheiro dos consumidores com seus enfeites elaborados. Eram tantos bebês sorrindo em molduras coloridas que tinha gente que engravidava só pra pagar oitenta reais numa daquelas.

- Já tem meia dúzia aí no arquivo - disse uma funcionária mal humorada.
- 3x4?
- Veja, oras...

Eu ainda pude ouvir um "que preguiçoso!" ao bater a porta. Era um trabalho estressante e maquinal que me alimentava, me vestia e pagava minhas contas, inclusive a mensalidade da faculdade. Era editar, preparar e revelar todas as fotos que chegavam pro computador, durante oito horas diárias com uma pequena pausa para o café, às 15h. Não me conformava com o horário dessa pausa, já que as únicas pessoas que tomavam café às 15h com pão e tudo mais eram as senhoras do meu velho prédio.

Dei dois cliques e lá estava o arquivo. Seis fotos para revelação. E sim, eram 3x4.

- Marcos, você pode ajudar o Thiago com as molduras que chegaram? São muito pesadas...

Mal tinha escutado o que aquela chata falara. Fixei meus olhos sobre a imagem que se repetia seis vezes na tela do computador. Como ela era linda...

- Marcos! - gritou.
- O que foi, Jesus?
- Nada! Lerdo!

Nem dei atenção aos mais de quarenta e sete insultos que ela falou ao bater a porta novamente. Eu só olhava para a foto, contemplando a pureza daquela criatura de rosto tão jovial. Era loira e tinha olhos bem escuros. Apesar disso, não possuía uma beleza comercial, daquelas que virariam a próxima Barbie Verão. Ela tinha algo especial naquele olhar e escondia um sorriso sem graça que escapou quando a foto foi tirada. Talvez não gostasse de permanecer séria, olhando para a câmera enquanto era fotografada.

- Essas sete são 25x30 e essas daqui são 10x15. As outras 5 estão em alta resolução e serão para o pôster que a Marlene tinha falado. Ah, não esquece dessas três aqui, são todas em sépia e seguem o mesmo roteiro das sete primeiras... Bom, tá tudo anotado aí no arquivo", dessa vez foi outra funcionária. Ela tinha falado tão rápido, mas tão rápido, que se por acaso eu houvesse prestado atenção em suas palavras, pediria que repetisse todas elas em slow motion, no mínimo 5 vezes.

Era loucura, mas eu precisava ver aquele rosto se movimentando, como se saísse da fotografia e ganhasse vida. As fotos 3x4 demoravam cerca de vinte minutos para ficarem prontas, ou seja, segundo meus cálculos, a garota da foto voltaria em breve. Agilizei sua fotografia, prestando atenção aos mínimos detalhes. Foram as fotos 3x4 mais bem feitas da minha vida.

Enquanto preparava outros pôsters, viajando em outro mundo, ouvi uma voz entrar na loja.

"Vim pegar as fotos 3x4"

Meu coração disparou e parou. Na verdade, não sei se disparou ou parou, mas aconteceu algo muito louco dentro de mim. Era como se eu estivesse no ginásio, prestes a me declarar para a menininha da sexta série. As fotos já estavam sendo entregues quando eu me levantei para tentar vê-la. Mas, de repente, uma montanha se aproximou de mim e tampou a minha visão.

- Marcos, essas são 20x30 - disse um funcionário muito gordo.

E ela se foi, sem que ao menos eu pudesse vê-la.

Passei o resto do dia trabalhando desanimado. As fotos vinham e saíam e eu continuava ali, pensando no rostinho que eu havia visto mais cedo. Só fui respirar quando chegou o horário do café. Tive 15 minutos pra sair daquela saleta abafada e insuportável. Fui à padaria comprar um pão de queijo e fiquei sentado lá no balcão, ao lado de uma moça grávida que comia um monte de coisa. Acho que se ela não fizesse aquilo, o filho dela nasceria com cara de doce de abóbora ao molho de queijo com pão de forma e cheddar (com uma cereja).

Foi dando a primeira mordida no pão de queijo (muito pequeno pra custar 3 reais) que avisei uma pessoa sentada na mesa à frente, perto da janela. Era ela. Me entalei. Tossi. A grávida me ajudou cheia de pão na boca e eu agradeci, mas disse que não precisava. Ela, a moça da foto 3x4, bem na minha frente! Era o destino que fez com que nos encontrássemos novamente! Era um sinal, era um sinal!

Tá, e agora? O que eu faria com aquele sinal? Era a parte mais difícil. Fiquei observando o modo como ela olhava pro lado de fora do estabelecimento e senti que parecia preocupada. Era uma mistura de ansiedade e desânimo que me contagiava. Ela virou o rosto e esbarrou seu olhar no meu. Com firmeza, permaneci olhando para ela. Nossa, pessoalmente ela era ainda mais bela...

- Me vê um desses chocolates.
- A barrinha?
- Não, o bombom.

Não tinha dinheiro para a barrinha, mas o bombom também era gostoso.

- O de trufa, senhor?
- Pode ser...

Paguei e esperei o momento certo. Mas qual seria o momento certo, céus? Ficaria ali por no máximo 5 minutos, pois o horário já me puxava para o trabalho de novo. E a garota? Quando eu poderia vê-la novamente? Será que o destino me traria ela novamente?

- Vai logo, hómi... - sussurrou a grávida, mordendo uma torta de nozes. - Eu sei que tu quer dar esse bombom pra'quela loirinha ali.
- Como você sabe? - perguntei, assustado.
- Basta olhar o jeito como você olha pra ela... Vai logo, seu lerdo!

"Vai logo, seu lerdo!"... aquela frase martelava na minha cabeça e me fazia ficar revoltado comigo mesmo. Eu não era lerdo! Não era!

Levantei-me do balcão e fui em direção à mesa dela. Percebendo minha presença, olhou para cima.

- É... - gaguejei - Eu tava ali e... - pausei, com o coração saindo pela boca. - Eu trabalho no estúdio de revelação e...
- Vai me dizer que viu minha foto 3x4? - perguntou, sorrindo.
- É, sim, é... é... Eu vi... é.

Ela riu da minha timidez.

- Espero que possa dormir bem hoje, depois de ver aquela foto tensa. Esperava sair séria, mas não consigo, entende?

Mesmo forçando a simpatia, eu sentia que ela estava preocupada.

- Tá preocupada com alguma coisa? - perguntei, antes de me dar mil tiros pela falta de discrição.
- Ah, é, estou... Eu saí pra procurar emprego e vi uma cena desagradável...
- Desagradável? - mais tiros, mil tiros, um milhão, paft!!
- Fui traída. - disse, olhando pra fora da janela.
- Ah, nossa... - fiquei sem saber o que dizer.

Olhei no relógio e ouvi o tempo me chamando.

- Queria poder dizer alguma coisa, mas acho que nesse momento um chocolate falaria melhor do que eu. - entreguei o bombom e saí, tremendo dos pés à cabeça.

No pequeno caminho de volta ao trabalho, senti inveja da convicção com a qual ela afirmara aquela bomba. Falou tão ríspida e certa do que dizia que me fez querer ser como ela. Queria dizer pros meus colegas que sei que não gostam de mim e implorar para que parassem de falsidade. Queria dizer pros clientes o quanto ficavam feios quando não sorriam nas fotos 3x4. Queria dizer pras pessoas que se emocionavam ao ver os bebês as fotografias o quanto de cachê cada família ganhou ao vender a imagem de seus filhos. Queria falar o que sempre quis dizer dentro daquele ambiente chato, mas não falei. Voltei ao trabalho e lá fiquei até o final do expediente.

O dia já estava escuro quando saí daquela sala desconfortável com vontade de deitar na minha cama macia, quando uma funcionária antipática me chamou.

- Uma minazinha loira deixou esse bombom pra você. Disse que era pra um carinha que trabalha aqui, deduzi que fosse você. O Thiago é diabético.

Senti uma escola de samba dominar meu corpo por dentro. Peguei o bombom como se estivesse pegando um cheque de um milhão e percebi que havia um bilhete embaixo dele.

"Queria agradecer por ter salvado o meu dia, mas acho que um bombom agradeceria por mim."

Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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