Renascer

14/07/2012

O banco livre ao lado da velha gorda me chamava como os olhos de Capitu chamavam Bentinho: a onda vem e te leva... te leva pra longe... pra longe da verdade, da razão... te ilude... assim como olhos de ressaca... e 

Brrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrvvvvvvvvvmmmmmmmmm!!!

E o ônibus breca com toda a força. 
Vejo pessoas como macacos pendurados nos galhos daquele veículo, alguns xingamentos, meus poucos fios de cabelo branco segurarem em meu coro cabeludo e dois peitos gigantes se esmagando no banco à frente: eram da gorda ao meu lado.

É, já citei essa velha duas vezes no texto, mas não é sobre ela que vou falar. O que importa é que eu consegui sentar ao seu lado e acomodar minhas pernas curtas naquele restinho de banco que sobrara para mim. Estava cansado devido ao trabalho desgastante e a vida sem graça que eu exalava naqueles tempos. Meu ânimo estava inversamente proporcional ao dinheiro que eu pagara naquela maldita passagem de ônibus diária e diretamente proporcional ao tamanho do banco no qual eu estava sentado. Está bem, eu vou tentar ser breve...

Estou aqui por meio de mim mesmo e por auto-vontade-própria by myself, escrevendo este texto. Talvez naquele momento, no ônibus, eu não fosse capaz de escrever como escrevo hoje. Talvez me faltasse auto-estima ou, simplesmente, um pouco menos de desânimo. Acontece que meu trabalho era a única coisa que eu fazia para me sentir alguém. Tinha 43 anos e nenhuma memória digna de virar um best-seller. Acordava, ia pro trabalho mais infernal do mundo e voltava... Voltava cansado de servir como robozinho daquela fábrica de calçados. Eu via que muita gente achava aquilo o máximo, e talvez realmente fosse, mas eu não suportava. A realidade era que eu queria ser professor. 

Não fui por dificuldades que não vêm ao caso. Perdi um monte de gente ao mesmo tempo e me entreguei àquele trabalho relativamente escravo. O que importa é que, naquele dia, no ônibus, minha vida mudou. 

Minha viagem era longa, como sempre. Metade do ônibus havia descido e eu permaneci lá. Até a gorducha do meu lado tinha saído. Permaneci no mesmo lugar, olhando pra janela e observando o sol que finalmente nascia. De repente, observei uma garotinha lendo uma revista, com fones de ouvido. Provavelmente era uma daquelas revistinhas juvenis e, talvez por isso, ela tenha guardado tal conteúdo na bolsa. Tirou os fones do ouvido e abriu um livro, que percebi instantaneamente que se tratava de um livro de História. Eu sempre gostei dessa matéria durante o período de escola, e me animei. Talvez tenha sido intruso, mas desejava mais do que nunca saber do que se tratava aquele período histórico. Sentei atrás da garota e fiquei tentando caçar algumas palavras... Hm... Absolutismo. Palavra bonita. Anotei. 

E é estranho. Meus conhecidos não acreditam quando contam que eu permaneci durante o ano inteiro caçando palavras no livro daquela jovem garota. Eles devem pensar que eu menti que ia trabalhar para frequentar alguma espécie de cursinho pago com um dinheiro clandestino, mas não tem problema. Era um desejo tão grande que me motivava a pegar aquele ônibus todos os dias no horário certo... Uma vontade de aprender, conquistar o mundo, virar Napoleão, Gauss, até Galileu... E é... Eu realmente fiquei o resto do ano procurando a garota no ônibus cada bendito dia e lendo o que eu podia de seus livros, já que eu não tinha dinheiro para comprar os meus próprios. Um dia tomei coragem.

- Porque esse x passou dividindo? 

Ela levantou a cabeça assustada. Talvez tivesse pensado que houvera um contato paranormal com alguma entidade do além naquela viagem de terça-feira. Olhou para mim e deu uma risadinha simpática.

- É porque ele tava multiplicando esse 3y. Aí eu isolei pra substituir depois.

Acenei satisfeito. 

Certo dia, lá pra dezembro, ela não esteve mais no ônibus. Ficou um vazio. A viagem foi silenciosa em meu universo de eterno aluno. 

Ao bater cartão no final do expediente, eu já estava saindo da fábrica, quando João Barnabé, um rapazinho do RH, me chamou.

- Sim? - perguntei.
- Uma garota passou por aqui e deixou uma pilha de livros pra você. Não entendi muito bem, mas ela disse que é um presente... E ela disse umas coisas meio estranhas que eu não entendi muito bem. - estranhou.
- O que ela disse? - perguntei animado com a notícia.
- Disse que era pra você abrir todo dia um dos livros o máximo que puder enquanto estiver no ônibus, algo assim... - disse ele, com cara de paisagem duvidosa.

Eu dei uma gargalhada e deixei o rapaz sem entender bulhufas. Peguei meu presente e fui para casa, deixando o livro de História, meu favorito, o mais aberto possível, para que o conhecimento não se perdesse dentro de um só ser.

Hoje encontro a garota todos os dias. Sou seu professor, em seu segundo curso. 

Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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