Minha pequena contracultura

8 de agosto de 2012

Aviso prévio: Este é um texto longo e revoltante. Ao ler, não se desespere. Se não gostar, clique no X. Se curtir, bom pra nós dois. Se odiar e querer se jogar pela janela, não me denuncie. Ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser [pago] e consultado. Se não pagar, sofra. 


leão pra indicar o começo do filme (finja que ele está rugindo)




"Se você não estudar, não será ninguém"
"Você vai repetir de ano e ver todos os seus colegas passarem na sua frente"

Não é difícil ouvir essas frases por aí, enquanto você tá com aquela cara de batata amassada requebrando os ossos, encostado na janela do ônibus nosso de cada dia. Tornou-se comum fazer a famosa analogia de estudo com humanização. Simples assim: se você não estuda, é vagabundo. 

Fácil olhar pra trás e ver que as mudanças tão sonhadas viraram pó. "Ai, que pessimismo!" 
É como aquelas revoluções burguesas: uma classe social saindo de um sistema de submissão e criando outro. Até porque, vejam vocês, é muito fácil botar um trouxa pra trabalhar pra você e ganhar um salário mísero, enquanto o seu famoso dim-dim enche sua pancinha. 

Salário. Dinheiro. Seria hipocrisia falar que eu odeio isso, afinal precisamos disso pra sobreviver. Mas é justamente o que está por trás de todo esse papel verdinho que me faz sentir nojo por saber que um simples símbolo capitalista julga se você vai ou não ser alguém... Pior: se você vai ou não sobreviver, como foi dito lá em cima.

Você põe vidas no mundo (mais conhecidos como filhos, ou propriedades particulares, ou sejá lá como queira chamar) para defendê-los do que eles provavelmente se tornarão no futuro. Uma vez li uma frase parecida no livro O Pequeno Filósofo, de Gabriel Chalita, dizendo que os adultos criam as crianças para que elas se defendam dos adultos. Para tudo que eu tô doida! Que sistema doido é esse que eu tô dentro? 

Por isso, chega a ser triste afirmar que um pai está errado ao dizer que o filho deve se matar de estudar pra sobreviver no futuro. São realidades individuais que se juntam numa só, então é complicado apontar quem está certo ou errado. Mas é triste, também, ver que do outro lado da moeda está uma criança, que depois se tornará um adolescente e depois [infelizmente] um adulto. E, nem sempre, esse ser humano está disposto a caminhar por um caminho trilhado pela sociedade em que vive. 

Ir pra escola é uma piada. E não venham me apedrejar, porque quero ser professora. Justamente por querer ser essa espécie de "educadora", posso afirmar com todas as vogais e consoantes que seria muito mais prazeroso dar aula para pessoas que realmente gostassem daquilo que eu me disponho a passar adiante, e não somente para passar na porra da prova que chamam de vestibular. E, convenhamos, estudar o que se gosta também seria maravilhoso e é isso o que eu mais ouvi em toda a minha vidinha escolar: 

No ensino fundamental: Odeio matemática.
No ensino médio: Que inferno do capeta para que usarei essa obra do tinhoso feita de números em minha vida jesus? (assim, sem vírgulas mesmo, pra enfatizar o desespero)
No cursinho: Vou ter que engolir essa joça.
Na faculdade: ESTATÍSTICA! De novo não, caceteeeeee!

Ainda bem que eu gostei de matemática. Pelo menos, mesmo sem fazer sentido concreto algum pra minha vida, eu me divirto resolvendo equaçõezinhas (ainda mais quando acerto). Mas meu lado das chamadas ciências humanas fala alto também. Se eu descobrir a poção mágica que me fez gostar dos números e das letras eu vendo pra você (até porque, capitalismo tá aí, né...).

ACONTECE que nem todo ser pensante gosta de estudar matemática. Aliás, tem gente meu irmão mais novo que não gosta nem de matemática, nem de história, nem de física... química, artes (e curte Educação Física porque pode dormir e/ou se divertir longe da lousa). Aluno vai pra escola, do primário ao final do ensino médio, só pra não ter falta. Faz milagres (cola, decora, aprende, dane-se o método) pra adquirir boas notas. Até porque, o número que o seu lindo professor estampa na sua prova vale exatamente o que você usufruiu estudando sobre Briófitas (matéria a qual você amou tanto que vai tatuar nas costas sua divisão mitótica).

Aí você cresce mais um pouquinho. Vê que se não passar no vestibular não vai ser ninguém. Depois de passar a vida inteira se preparando pra'quela prova do capeta, sofrendo pra decidir assim, do nada, o que você vai querer fazer pro resto da sua vida, ainda tem que passar horas de um domingo ensolarado resumindo tudo o que você aprendeu durante mais de 11 anos com X. Isso se não tiver que escrever e ser corrigido pelos seus errinhos ortográficos. Além disso, ainda tem que ouvir o carinha do lado mastigando a droga do doritos que você esqueceu de comprar em alto volume, o desgraçado atrás de você chutando sua cadeira, o frio do alasca invadindo seu corpo se houve ar condicionado e não houver casaco. Daora a vida.

Tem gente que curte tudo isso. Talvez esteja tranquilo, esperando passar por toda essa loucura e fazer algo que goste, realizar algum sonho, enfim. E quem não está? Venha cá, chegue mais que eu te conto. Pega uma caneca de café com leite... puxa uma cadeira... Não é n-i-n-g-u-é-m. Ou pelo menos é um alguém (só que ao contrário). Seria muito legal se eu dissesse que, aos olhos do sistema em que vivemos, se afastar desse destino é normal. Agora, vai falar pra 99,9% do aglomerado humano sua decisão. Se liga na gravidade da minha estatística pessimista. No mínimo vão te chamar de louco, sem mais.

A vida talvez tenha perdido seu sentido, se é que tem algum. Ao mesmo tempo em que nos tornamos individualistas, nos unimos num pensamento inconsciente que nos move até batermos as botas. A escola tornou-se uma prisão, modeladora de pessoas que se calam diante de seus ideais pra não quebrarem o sistema vigente. Será que é isso mesmo que queremos? Será que é pra isso que estamos nesse mundo?

Vou te contar o que eu quero. Quero ajudar as pessoas a realizarem seus sonhos. Talvez esteja simplesmente movimentando o mesmo sistema que critiquei até agora, mas enquanto meus ex-futuros colegas de revolução não acordarem, prefiro divulgar meus pensamentos aqui nesse espaço e tentar fazer o que eu realmente gosto. Se terei ou não que enfrentar um vestibular pra realizar isso, dane-se. Quero ver o sorriso de um aluno meu brotar em seu rosto depois de entender o que eu disse... E te digo mais ainda: quero ver o aluno que dorme de tédio em minhas aulas bem longe delas, por amor. Por amor a mim e a ele, que não gosta do que eu gosto e não precisaria passar por isso, se vivesse dentro de outro sistema.

O foda é que sempre tem alguém querendo ser mais do que outra pessoa. Não importa se isso acontece com todos ou só com quem tem ambição e ganância dentro do peito. Mas se um pedreiro ganhasse o mesmo que um médico ou se um jogador de futebol ganhasse o mesmo que uma secretária, talvez desse certo. Só que aí entra quem quer consertar tudo isso e esquece que o verdadeiro problema não está nas folhas: está na raiz.



"Já que também podemos celebrar

A estupidez de quem cantou

Essa canção..."

(Perfeição - Legião Urbana)

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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