O Meu Pé de Laranja Lima

02/11/2013

Criança é feliz, né? Enxerga tudo com olhos mergulhados na ingenuidade, entoando gargalhadas pra todos os cantos. Rala o joelho numa brincadeira de roda e chora como se não houvesse amanhã, mas logo já se vê correndo novamente, com um sorriso estampado no rosto. 

Pra criança, tristeza é abrir o pacote de presentes e ver uma linda blusa no lugar do tão esperado brinquedo. Felicidade é qualquer coisa. É pular na cama elástica, é comer doce até não caber mais na barriga, é ir num parque, é brincar com alguém, é fazer cócegas ou ver o episódio novo do desenho que tanto gosta. 

Aí, depois de discutir tudo isso, a gente se vê pensando errado esse tempo todo quando conhece a história de um meninozinho que um dia descobriu a dor


O Zezé não é ingênuo não, minha gente. Aos 5 anos já aprendeu a ler, mesmo antes de entrar na escola e começou logo cedo a descobrir o preto e branco da vida. Não adianta falar que um cisco caiu no seu olho se ele te pegar chorando: é capaz que ele ainda descubra o motivo de seu choro antes de você. 

Seu conhecimento sobre as coisas é tão único que é impossível não dar umas risadinhas durante a leitura. 

- Totoca. 
- Que é? 
- Idade da razão pesa? 
- Que besteira é essa? 
- Tio Edmundo quem falou. Disse que eu era “precoce” e que ia entrar logo na idade da razão. E eu não sinto diferença. 
- Tio Edmundo é um bobo. Vive metendo coisas na sua cabeça. 
- Ele não é bobo. Ele é sábio. E quando eu crescer quero ser sábio e poeta e usar gravata de laço. Um dia eu vou poder tirar retrato de gravata de laço. 
- Por que gravata de laço? 
- Porque ninguém é poeta sem gravata de laço. Quando tio Edmundo me mostra o retrato de poeta na revista, todos têm gravata de laço. 
- Zezé, deixe de acreditar em tudo o que ele fala pra você. Tio Edmundo é meio trongola. Meio mentiroso. 
- Então ele é filho da puta? 
- Olhe que você já apanhou na boca de tanto dizer palavrão; Tio Edmundo não é isso. Eu falei trongola. Meio maluco. 
- Você falou que ele era mentiroso. 
- Uma coisa nada tem a ver com a outra. 
- Tem, sim. Noutro dia Papai conversava com seu Severino, aquele que joga escopa e manilha com ele, e falou assim de seu Labonne: "o filho da puta do velho mente pra burro"… E ninguém bateu na boca dele. 

Uma coisa que me encantou demais foi o modo como o Zezé fala. Mesmo sendo um prodígiozinho, ele se expressa como uma criança e a gente nota que isso não é forçado. Já li alguns livros em que as crianças falavam como adultos, sabe, sem gírias próprias, nem aquele jeitinho infantil de dizer as coisas. Enquanto eu lia esse livro, no entanto, ouvia a voz do menininho na mente, soltando palavras em tom de criança. 

- Pronto, Lalá. Pode me bater.
Virei as costas e ofereci o material. Trinquei os dentes porque a mão de Lalá tinha uma força danada no chinelo.

O Meu Pé de Laranja Lima narra boa parte da infância de Zezé, que na verdade é o próprio autor: José Mauro de Vasconcelos. Menino pobre, morando com a tonelada de irmãos que tem - o mais velho cuidando do mais novo numa escada infinita -,  ele vai conhecendo as dores do mundo com o passar das páginas, mas que dores são essas você só vai descobrir lendo.

Não tomara nem café e não sentia nenhuma fome. Minha dor era muito maior que qualquer fome.

Olhando a capa, pensei que se tratasse de um livro infantil, mas ele se direciona a todas as idades. É como eu ouço falar por aí sobre O Pequeno Príncipe: você lê de um jeito a cada período da vida.

Zezé agora é um dos meus amigos literários. A vida difícil que logo cedo lhe abriu os braços, os momentos em que seu lado pestinha ganhou força, uma grande e inesperada amizade que formou ao longo da história e outras passagens ficarão gravados no meu coração.

Deixo aqui o livro online AQUI pra quem não pode comprar (ou pegar emprestado como eu fiz haha - obrigada, Mari). 

Se você não gostar de ler no computador, deixo o link do filme AQUI. Eu não assisti ainda, mas depois conto procês o que eu achei. 

Alguém já comprou algo pela Estante Virtual? Eu achei alguns exemplares por preços bem camaradas pra quem se interessar AQUI.

Meu perfil no SKOOB

Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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