Uma dose de metalinguagem

12/12/2013


Doralice se pôs diante da escrivaninha, tremendo não sabia se de frio ou nervosismo. Viu a lapiseira prateada refletindo as luzes natalinas que enfeitavam a prateleira. Respirou fundo, retirou uma folha em branco da gaveta e fez força pras palavras saírem. Foi quando algo sobrenatural aconteceu.

- Você tá doida pra deitar na sua cama, que eu sei.

Num só pulo, a menina, com seus cachos-quase-dourados, se levantou; olhos arregalados.

- Fala sério. Você tá se imaginando num filme bonito aí sentadinha na escrivaninha, luzinhas marotas e tal, tipo weheartit.com, mas na verdade tá louca pra se jogar nesse colchão e tentar escrever algo pela milésima vez nessa semana.

Ela permaneceu com os olhos arregalados.

- Não precisa se assustar não. Eu falo sim. Mais do que você até. - prosseguiu a folha de papel sobre o móvel.

Esfregou os olhos, tossiu, bebeu um gole d'água imaginário, piscou incessantemente e não adiantou.

- Cara, se você for ficar pensando que eu sou uma miragem, eu prefiro ficar quieto. - reclamou o papel.

- Não... Quer dizer, sim. Ou não. Pera, isso é muito louco pra minha cabeça.

- Pode sentar aqui pra gente trocar uma ideia.

Ainda assustada, Doralice caminhou até a escrivaninha novamente, dando passos lentos. Sentou-se, prendendo algumas mechas de cabelo atrás da orelha.

- O que você quer me dizer?

- Você é que tem que me dizer alguma coisa. - blefou o papel - Olha para você, minha filha. Tá querendo escrever há dias e nada sai dessa cachola... - pausou - Por isso resolvi te dar uma força. Resolvi falar pra ver se te ajudo nessa pequena luta aí dentro.

- Pequena luta?

- Sim, oras. Querer escrever, querer falar, querer se expressar, querer gritar e não poder é muito sufocante. Pior do que engolir pó de canela. Vai, diga o que quer dizer.

A menina parou, pensou, parou de novo... Resolveu tentar falar alguma coisa. Afinal, não é todo dia que se tem uma folha de papel pra conversar.

- Eu... Eu descobri que eu não sei... Amar.

- Nossa, que chocante. E quem é você pra achar que sabia?

- Eu devia ter aprendido. Fui fraca.

- Eu só não te dou um beliscão porque sou um mero papel. - pigarreou - Você não foi fraca. E sabe disso.

- Mas não adianta nada eu saber se a pessoa que eu amo não sabe.

- Você não pode controlar a mente das pessoas. Pare de tentar isso! Olha pra você... Esses olhos fundos, esse cabelo despenteado, essa dor no coração... Essa angústia por não poder mudar o mundo, por não poder ajudar todo mundo, por não poder ser todo mundo. Olha, olha bem pra ti.

Doralice virou o corpo para o lado e se viu no espelho do armário. Viu uma imagem triste. Cinza. Parecia ter corrido uma maratona inteira e chegado ao final. Estava dolorida. Cansada. Sofrendo.

- Abrir mão disso é egoísmo. - disse ela, ainda olhando pra sua imagem - Olhar só pra mim. Tentar ficar bem... Isso é bobeira. Injustiça.

- E guardar toda essa vida que há dentro de você é o que? Justiça?

Ela respirou, segurando o choro que teimava em aparecer no rosto.

- Isso me sufoca. Eu não estou bem. Não quero tomar decisões.

- Quem decide isso, no fundo, não é você, nem qualquer ser humano.

As lágrimas desceram a face. Um impulso tomou conta do seu peito, no qual seu coração parecia coordenar uma escola de samba.

- Você o ama. Mesmo sem saber amar.

- É... Isso explode aqui dentro.

- E vai continuar explodindo. Mas quando você perceber, essa explosão não vai doer mais. Essa explosão, um dia, vai te fazer sorrir demais.

A garota voltou a olhar para o papel, acariciando aquele pedaço de folha que permanecia em branco.

- Seu problema tá no nome. Doralice. É uma mistura de Dor e Alice. Conhece Alice no país das maravilhas? Você não tá no país das maravilhas, meu amor. - disse o papel, carinhosamente - Se eu fosse Axl Rose, diria you're in the jungle, baby.

A menina deu uma risadinha sincera, deixando uma lágrima escapar pelas suas bochechas macias.

Como uma mágica, o papel se dobrou num avião e convidou a garota a viajar nele. Juntos, sobrevoaram a mente confusa e bagunçada que nela martelava.

- Olha pra dentro de você. Você não é perfeita. Vo-cê-não-é- per-fei-ta. Posso separar em sílabas poéticas se quiser.

- Heptassílabo.

- Espertinha... - riu o papel - Tá vendo? Você tem tanta coisa aí dentro, senhora Dor Alice.

- Sério?

- Seríssimo. Essas cores, essas vozes, essas músicas, esses sabores. Essa sua vontade de se encontrar. Essa sua ânsia curiosa pelo mundo, por mais inexplicável que ele seja. Tudo isso, Doralice, tá aí dentro e você já sabe que não tem como esconder. Isso tudo tá preso. E cabe a você libertar todos esses prisioneiros.

Doralice sorriu, como há tempos não sorria.

- O que você sente por ele tá aí e vai sempre estar. Vocês iluminaram o mundo com o que viveram. Vocês nunca vão ser iguais ao que se vê por aí. Vocês são inesquecíveis. - e o papel olhou para a última lágrima que caía no rosto da garota - Não tenha medo.

Um filme passou pela sua memória, fazendo cosquinhas na sua barriga conforme as cenas eram transmitidas. Sorriu. Guardou consigo o que vivera um dia pra ninguém tirar. Desceu do avião improvisado, aterrizando diretamente na escrivaninha.

- E agora, papel?

- Agora? - sorriu ele - Agora escreve.

Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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