Uma gota de lembranças

15 de dezembro de 2013


"Deixe-me ficar com esta lembrança... por favor, só essa."
(Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças)


- Serviços de atendimento ao cliente, bom dia!

- Ai moça, me dá um abraço.

- Perdão?

- É que tem horas que eu sinto que meu coração vai explodir... E eu sinto falta de um abraço.

- Se acalme, senhora...

- Na verdade, o seu abraço talvez não adiantaria muito. Eu gostaria muito de abraçar ele.

- Ele quem?

- Ai moça, não pergunta nada não... Eu só queria desabafar um pouquinho.

Silêncio.

- Obrigada... - eu disse, prosseguindo - Sabe... Talvez todo mundo esteja pensando que tá sendo fácil pra mim, mas essa vem sendo uma das coisas mais difíceis que eu já passei na vida... E olha que eu já sofri várias perdas, viu? E nem venha dizer que é drama de novela do SBT, porque eu não estou exagerando. - respirei e continuei - Não sei o que há com essas pessoas que terminam o namoro e saem postando foto de "tô indo pra balada, superei!" no Facebook. Isso é desagradável, você concorda? Não precisa responder. Eu fico imaginando como deve ter sido o relacionamento dessas pessoas pra elas, de repente, pegarem meia dúzia de estranhos numa só noite. Ou falar que pegaram, com hashtags e afins. 

Peguei uma pipoca do balde e continuei falando.

- Eu não sei ser assim e nunca quis. As lembranças que eu tenho aqui dentro, independentemente do final de tudo, não vão virar piada não. E ái... - veio uma fisgada no coração - São tantas lembranças. E eu sinto falta de cada uma delas. Malditas lágrimas... Peraí, moça, vou pegar um lencinho.

- Voltei... Onde parei? Ah, sim... Como eu disse, todos os dias antes de dormir várias lembranças e sensações me tomam a mente e não saem de jeito nenhum. Dançam de um jeito tão danado aqui dentro do peito que chegam a doer, saindo em forma de lágrimas. Eu olho prum lado, vejo um presente que ganhei dele. Olho pro outro, lembro do perfume que ele usava... Um dos milhares de perfumes. Esses dias mesmo passou uma pessoa que eu nem vi o rosto na rua, usando o primeiro perfume dele que eu tenho na lembrança. O perfume de quando ele me beijou pela primeira vez. Mas que desgraçada essa pessoa que passou perto de mim. Por que fez isso? Por que me trouxe tantas lembranças através de um simples gesto olfativo?

- E sabe... - continuei - Até as músicas, moça. As músicas! Qualquer pagodinho meloso que eu ouço eu lembro dele. Desde sertanejo até as músicas que eu realmente gosto e que ouvíamos juntos. Nem a minha banda favorita eu tenho conseguido ouvir normalmente... Eu só queria abraçar ele, moça. Só isso. Sentir que a gente sente muita coisa um pelo outro e que nenhuma palavra ruim que dissemos quebrou isso. E mesmo que a gente nunca mais se veja, queria ao menos abraçá-lo. Olhar pra ele. Sentir ele perto de mim. Porque, droga, eu sinto falta. Eu sinto falta de acordar ele com cosquinhas, de receber um cafuné e de desejar 'feliz dia 17' em todo dia 17 de todo mês. Eu sinto falta de entrelaçar minhas mãos nas mãos dele e sentir a aliança que ele me deu ficar presa entre nossos dedos. Foi o anel mais lindo que eu ganhei. É o anel mais lindo que eu tenho, mesmo que ele fique guardado no meu baúzinho. É simples, é cheio de significado, é cheio de memórias, é mutante, é lindo... É lindo.

- Ai, moça, você deve estar cansada de me ouvir falar tanto. Fazia tempo que eu não falava tanto assim. É que por mais que pessoas legais e especiais tentem nos acalmar com palavras, fica vago lá no fundo. A gente acaba precisando falar tudo o que conseguir. É muito sentimento pra traduzir em palavras. É muito sentimento. Muito. Sentimento.

- Mas o que fazer? Ele me disse que não quer mais me ver. Eu respeitei. Mas esse respeito tá apertando aqui dentro. Eu queria aparecer na casa dele de repente, só pra ver ele uma vezinha, nem que eu fique pulando pra ver ele pela janela do outro lado do muro - já que eu tenho apenas 1,56m. Queria ligar pra alguém que passasse o telefone pra ele só pra dizer que ele é lindo. Dizer que ele é demais. Dizer que eu amo ele, ainda que imperfeitamente. Talvez ele queira me esquecer. E esquecer tudo o que a gente viveu. E eu não tenho o direito de contrariar isso.

- Eu só espero que essas lembranças todas que me abraçam todos os dias comecem a me trazer paz. Eu quero que elas representem memórias boas, pra eu lembrar sorrindo. Não quero mais chorar. São lembranças lindas que não vão se apagar. Nem que eu me submeta a um processo estilo Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. Não vão se apagar. E eu não quero que se apaguem...

- Moça? - uma pausa - Poxa... Me deixou falando sozinha.

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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