Um certo cafuné

22 de fevereiro de 2014


O lençol estava todo bagunçado, depois que Ele se atirou com tudo na cama. Deitado de bruços, foi aos poucos pegando no sono, com os braços dobrados embaixo do travesseiro. Sem perceber quanto tempo passara naquele sono quase profundo, ouviu um barulho de página virando. Aquele barulho típico, tão comum como os cachorros do vizinho latindo toda a manhã ou como o tilintar da água escoando pela cafeteira. Aquela folha de papel significava que Ela havia chegado. 

Sentada na beira da cama, Ela, delicadamente, lia aquele livro que não acabava nunca. Costumava dizer que, quando a história era boa de verdade, valia à pena demorar semanas pra virar a última folha. Enrolava de propósito, sabe? E aquele era um dos detalhes que Ele mais amava nela, depois das covinhas, claro.

- Não quis te acordar... - disse, com um sorriso esboçado no rosto, num tom de voz baixo, como se Ele ainda estivesse dormindo.

- Não se preocupa. - sussurrou Ele, ainda com a cara amassada pelas marcas do travesseiro e os olhos semicerrados, direcionados a Ela.

Tão bonita... Estava com aquele vestido azul marinho, aquele de sempre, com os cabelos soltos, que ela prendia atrás da orelha, mas que insistiam em invadir seu rosto. 

Marcando a página com uma das mãos, Ela sentou mais perto dele, pousando a outra mão em seus cabelos. 

- Cafuné? - perguntou Ele, fechando os olhos novamente. 

Ela não respondeu, apenas esboçou o mesmo sorriso e continuou a ler o livro de onde havia parado. Dividia-se entre a história e os fios do cabelo dele, depositando seu amor em ambos os gestos. Já Ele, ao contrário, não conseguia se dividir em mais nada. Toda a atenção estava voltada àquelas mãos macias, que se afogavam em seus cabelos de um jeito tão bom.

- Ei... - disse Ele, ainda com os olhos fechados - Vem aqui comigo.

Olhando pras pálpebras fechadas dele, ela respondeu, com a voz ainda baixinha:

- Vou terminar esse capítulo... Você precisa ver como esse desfecho tá ficando lindo. Olha isso...

E ela leu um parágrafo, alguns trechos em francês. Realmente era bonito, mas Ele não sabia se prestava atenção no que ela lia ou nela. Quando percebeu, estava sorrindo, feito bobo.

- Já está acabando. - disse ela, voltando os olhos àquelas páginas amareladas. 

O vestido deixava os ombros e parte das costas dela livres. Via o contorno de uma das suas curvas marcando sua cintura, mas não era só a atração física que enchia os seus olhos. Era tudo. Aquela áurea, aqueles sorrisos repentinos enquanto lia, as expressões que ela fazia a cada frase por seus olhos gravada. Era irresistível. 

- Ei... - repetiu Ele, dessa vez sentando-se onde estava deitado, pousando um pequeno beijo nos ombros dela. Sua respiração fez com que ela movesse os ombros, como se tivesse sentido cócegas. - Solta esse livro.

Aquele beijo foi seguido de outro que foi seguido de outro. E o livro caiu no chão. 


Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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