Quero um chá e um fá sustenido, por favor

2 de abril de 2014


Somos humanos, ok. Acordamos, comemos, falamos, tomamos banho, respiramos, bebemos e fazemos uma porção de atividades que se tornam cada vez mais rotineiras em nossas vidas. Mas quando nós vamos fazer xixi e pensamos na vida (você também faz isso, não negue), começamos a analisar que a glicose se quebra antes de entrar em nossas mitocôndrias para, num processo muito cabuloso, gerar a energia que a gente precisa pra fazer tudo isso. E aí começamos a nos sentir insignificantes. Afinal, não somos uma carcaça com células dentro. Nós SOMOS células, numa quantidade tão grande, que potência nenhuma é capaz de contar ao certo.

E quando a gente começa a refletir sobre o universo, antes de dormir? Pensamos no planeta Terra, que é um milhão de vezes menor que o nosso Sol. Este, por sua vez, é um pontinho comparado à VY Canis Majoris, maior estrela descoberta, sendo um bilhão de vezes maior do que o querido astro-rei. 

Nesses dois casos, perdemos a nossa identidade. Somos, em relação ao que nos cerca, coisas extremamente insignificantes, feitas de átomos, que se ligam e desligam a todo o momento em nosso corpo. Pensando assim, por que sofremos com a morte? É uma reciclagem natural do nosso planeta, oras. Todo carbono, nitrogênio, fósforo e uma renca de elementos químicos que a gente possui, um dia terá que voltar ao solo para, então, dar origem a outros serezinhos, sejam eles plantas, bactérias ou gorilas. Pense, por exemplo, num átomozinho de carbono, que tá aí no seu dedo mindinho e você não consegue enxergar. Ele já pertenceu a um velociraptor

Por que a gente fica com vergonha de arrotar, se é um processo puramente natural do nosso corpo? Por que a gente se preocupa quando alguém demora pra chegar em casa? Por que a gente se comove quando alguém tira a vida de outra pessoa? Por que a gente se anima quando recebe a notícia de que uma pessoa querida vai nos visitar? Por que a gente chora quando se decepciona com alguém? Por que a gente dança? Por que a gente desenha? Por que a gente assiste televisão? Por que, por que, por que...


Por que eu me encontro tão ansiosa pra ver um show? Um show, diante disso tudo, é o que, afinal? Nada? Então porque eu quero ir? Será que é porque existe muita coisa além do que os átomos podem me responder? 

Acontece que eu acredito na existência de uma alma dentro de mim... E ela ninguém nunca decifrou, nem mesmo eu. O que eu sinto quando ouço uma música que eu gosto é inexplicável. Pode rolar aquelas paradas de hormônios e um samba louco de sinapses entre meus neurônios, mas confirmar que todo esse sentimento seja fruto de uma ligação química é muito supérfluo pra mim. 

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer
[...]
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade.
[...]
A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte

(Titãs)


Eu adoro tentar dançar as coreografias da Beyoncé. Eu adoro descobrir que vou viajar. Eu adoro dar aula. Eu adoro conseguir captar uma cena legal, numa fotografia. Eu adoro conseguir fazer aquele bolo, sem queimar. Eu adoro brincar de esconde-esconde com meus primos menores. Eu adoro visitar meus avós e ouvir as duzentas histórias que eles sempre tem pra me contar. Eu adoro terminar de ler um livro e dar cinco estrelas pra ele. Eu adoro surpresas. Eu adoro ganhar presente. Eu adoro concluir um capítulo de História. Eu adoro entregar uma redação que eu tenha tido orgulho de escrever. Eu adoro ficar ansiosa pra viver um momento... E eu adoro Muse

Depois de 6 anos aguardando, sambando, correndo, pulando, juntando dinheiro, deixando de comprar bala, comprando o ingresso na cara e na coragem mesmo sem ter ninguém pra ir comigo, bebendo muito chá pra me acalmar, eu finalmente vou ouvir minhas músicas favoritas com mais uma tonelada de pessoas que eu nunca vi na vida, no mesmo ritmo, desafinada, sem voz, descabelada, com batom no dente, all star branco cheio de lama e uma sensação inexplicável de ter um dos meus milhares de sonhos realizado

Porque eu sou um ser humano. Sei do caminho das minhas glicoses, sei do ATP que eu formo, sei que eu não sou nada perto da VY Canis Majoris, mas eu quero viver os meus próximos dias intensamente, e não pela metade. 

Agora vou tomar meu chá, porque pra eu viver tudo isso, precisarei ter contido minha louca ansiedade e, pelo menos, conseguir dormir. Vai um chá de camomila?




Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

talvez você também goste:

8 comentário (s)