A laranja mecânica

26/05/2014


Estávamos saindo pra dançar Pussycat dolls até morrer, na noite de um sábado carioca, quando eu virei pro meu irmão e perguntei: 

- Posso levar esse livro emprestado? 

Gente, o livro era lindo, do jeito que eu gosto, sabe? Velhinho, com páginas bem amareladas e algumas partes amassadas. A capa, bem sugestiva, já entregava o tema: uma estória de violência e terror recriados no futuro. E bem atrás das letras, uma cena de um possível estupro. 

Eu já tinha ouvido falar nessa tal laranja mecânica, principalmente por causa do filme que ficou famoso por retratar a trama, mas nunca parei pra ler, nem assistir. Ainda não vi o filme, mas posso dizer que o livro é realmente incrível. Não porque nêgo cult diz que é, mas por ser mesmo. 


Pra quem não conhece, essa distopia se trata da vida de Alex, nosso narrador de quinze anos (grife o QUINZE ANOS com marcador fluorescente). Pelo dia, ele tem uma vida comum, mas quaaaando o sooool se põõõeeeee, meu bemmmm... Ele vira uma espécie de monstro social (ou sociopata, como os chiques gostam de dizer). Sai pelas ruas com seus "drugues" Pete, Georgie e Tapado, botando o terror. E não é terrorzinho fraco não, viu? A coisa é FEIA: espancamentos, quebra-quebra e estupros, sem nem um pingo de piedade e com uma bela dose de ultra violência e música clássica. Nem criança, nem velhinhos, nem ninguém é poupado. Como o narrador diz durante o livro inteiro, tudo isso é muito horrorshow, meus irmãos.

A seguir, extraio a cena em que Alex estupra duas garotinhas de dez anos (que ele já tinha embebedado), enquanto a Nona Sinfonia de Beethoven róla solta, dando muita ironia à descrição. 
"(...) e aí a melodia beatifica, linda, que diz que a Alegria é uma gloriosa centelha do céu, e aí eu senti os tigres pularem dentro de mim e pulei pra cima das duas jovens ptitsas. (...) Dessa vez elas não acharam nada engraçado e pararam de critchar com grande deleite e tiveram de se submeter aos estranhos e insólitos desejos de Alexandre o grande que, com a Nona e o pico, estavam chudésines, zamechates e muito exigentes, ó meus irmãos. Mas elas estavam muito bêbedas e não podiam sentir grande coisa. (...) Estavam critchando e fazendo ai ai ai enquanto botavam as pletes, e me davam soquinhos com os seus pulsinhos de gurias enquanto eu ficava na cama deitado, sujo e nu, cansado e chateado. (...) A jovem Sonietta estava critchando: "Besta de animal repelente! Porco horroroso!" Então eu deixei elas apanharem as coisas delas e saírem, o que fizeram dizendo que deviam chamar os rodzes pra me pegar e aquela quel toda. Aí, foram descendo as escadas e eu me deixei pegar no sono, ainda com a Alegria Alegria Alegria Alegria rachando e ululando."
 (páginas 55/56)  


Vocês devem ter notado que há palavras muito loucas, que a gente nunca ouviu na vida, mas isso é explicado. Essas palavras pertencem ao vocabulário nadsat, segundo a nossa querida e amada Wikipédia "gírias adolescentes compostas por corruptelas de idiomas eslavos (principalmente russo), inglês e cockney." [mais aqui]. No final do livro, tem uma espécie de "dicionário" com a tradução de todas elas. 

Mesmo assim, não achei a leitura difícil. Nas primeiras páginas a gente demora um pouco pra se acostumar, mas depois as coisas vão fluindo naturalmente. Essa é uma dica pra quem tem dificuldade com livros que contém palavras deconhecidas (como aqueles que a gente tem que ler pra escola): não se apegue a todas as palavras que não conhecer. Leia como se estivesse entendendo, pois as chances de você chegar ao final do parágrafo compreendendo serão muito maiores. Não vale à pena ficar pesquisando significado de tudo o que não sabe, pois a leitura fica lenta, cansativa e a gente fica se sentindo burro por não saber o que aquela caralhada significa

Fiquei apavorada porque conforme eu lia, o livro ia se despedaçando nas minhas mãos, porque é velho mesmo. Cheguei pro Tadeu várias vezes aos prantos "meu deeeeeeus, teu livro tá caindo aos pedaços aqui, socorro!" e ele desesperado do outro lado do computador "minha fiiiiiiilha, toma cuidado com meu livro; ele foi do meu pai, que foi do meu vô, que foi (...)". 


O livro é dividido em 3 partes: 

- as aventuras violentas de Alex e sua gangue;
- a prisão de Alex e a sua submissão ao tratamento Ludovico (leia mais sobre, aqui);
- a tentativa de inserção social de Alex depois do tratamento.

É impressionante notar como Alex se apresenta no início do livro e como ele finaliza a última página. Não quero dar spoilers, então, sendo o mais objetiva possível, a personagem vai deixando a cada página virada a sua juventude pra trás. Vamos notando o quanto o Alex vai ganhando maturidade diante da vida e do mundo que o cerca e o melhor: a gente não consegue ter raiva dele. MANO, o cara fez mil atrocidades e a gente o vê como uma personagem querida, COMO PODE? Eu não sei você, mas eu sou apaixonada por ele, de uma maneira inexplicável. Me chamem de doida mesmo (e dane-se, botei a caralha do pronome oblíquo em início de frase). Ohhh, Alex...



Meu prévios avisos aos interessados em ler/ver a história: tenham estômago, meus irmãos

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Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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