Culpa da Copa do Mundo

19/05/2014


- Tá quanto a estadia de hoje pra amanhã? - perguntou uma voz feminina do outro lado da linha.

- Te faço por 1200. 

- Mil e duzentos por uma noite? 

- Culpa da Copa do Mundo. - ironizou, mordendo mais um pedaço do meu hambúrguer.

Houve uma pausa e logo em seguida ela finalizou:

- Pelo jeito não vou encontrar nada mais em conta... Pode fechar. Estou almoçando aqui perto e daqui a pouco estarei aí.

- Mas se até meio dia você não aparecer vou deixar a proposta aberta pra outro interessado. 

- Sem problemas. - respondeu, muito tranquila - Chegarei em alguns minutos.

Quando veio essa onda de Copa, Bernardo logo viu que seria uma boa alugar seu outro quarto. Morava sozinho há dois anos, desde que saiu do interior e veio pra cidade grande. Não era um apartamento luxuoso, mas era confortável e perto do trabalho. 

Naquele domingo meio frio, com um pouco de sol do lado de fora, resolveu ficar por lá mesmo, pondo os projetos em dia. Vida de publicitário não é fácil. 

Estava colocando o prato na pia, quando o interfone tocou. Era ela, a sua nova hóspede. Com preguiça e andando em passos lentos, foi até a porta assim que a campainha soou. Nem fez questão de olhar pelo olho mágico. E mágico foi o que viu diante de si quando abriu a porta.

- Oi. - disse ela, sem sorrir demais. 
- Oi... - respondeu ele, meio desconcertado.

Era uma moça jovem, provavelmente uns 23 anos. Longos cabelos castanhos presos, óculos de sol afastando as mechas do rosto e um brinco de pena colorido em uma das orelhas. Vestia uma calça jeans simples e uma camiseta de mangas longas grudada ao corpo; nos pés, hawaianas comuns. Mesmo com tanta simplicidade, logo atraiu os olhos do também jovem publicitário. 

- Pode entrar! - disse ele, sem graça por não ter organizado tanto sua sala, nem sua cara - Desculpa a bagunça -  tirou o controle remoto do meio do caminho.

- Não se preocupe... - ela tentou acalmar, simpática.

Chegando à porta do quarto, ele apontou:

- É aqui... Não é muito grande, mas tem uma vista bem bonita. - abriu as janelas, que dava pra um parque cheio de árvores.

- Parece bastante agradável. - ela comentou, apoiando-se no parapeito. Ele ficou olhando aquela cena como se admirasse uma paisagem. - Vale o preço.

- Espero que passe bem a madrugada. - ele falou, sem ter mais nada interessante a dizer.

Ela deu um sorriso e deixou sua mala de rodinhas no canto do cômodo.

- Bem, eu preciso sair agora. Volto à noite. - entregou os 1200 na mão dele.

- Vou te deixar com as chaves. - disse enquanto caminhava até a sala, pegando o molho.

Com as chaves nas mãos, ela se dirigiu à porta, parando quando ele perguntou:

- Seu nome?

Ela virou, afastou o cabelo do rosto e respondeu:

- Júlia.

Ca-ra-lho. Foi apenas o que Bernardo pensou, quando ela fechou a porta. Que mulher maravilhosa. E que olhos. E que sorriso. E que simpatia. E que fofura. E que bunda.

Quando o sol foi embora, logo tratou de tomar um banho e tirar aquela cara de ontem que estava. Deu um jeito na sala e lavou a louça toda. Ficou de frente pro computador, atualizando seus compromissos da semana, vestindo uma roupa casual, mas não tão zoada como aquela blusa dos 10 km Tribuna FM que usava quando ela chegou mais cedo. 

20h14 no relógio quando a maçaneta foi girada. Ele estava vendo televisão, deitado no sofá, mas se levantou e ficou sentado quando ela entrou.

- Boa noite! - Júlia disse, com aquele mesmo sorriso. Bernardo respondeu acenando e repetindo o gesto - Será que eu poderia usar o banheiro? 

- Sim, claro... - respondeu ele, ficando de pé.

- Acho que não há outro lugar pra tomar banho aqui perto. - ela comentou, dando uma risadinha.

- O banheiro tá incluso no pacote - respondeu, piscando um dos olhos - Já que o seu quarto não é suíte... Precisa de toalha?

- Não, tenho tudo. 

- Então tá.

Ficou parado e depois percebeu que não tinha mais nada pra falar. Voltou pro sofá e ficou lá, sentado, vendo o filme da TNT. Era um suspense qualquer, daqueles bem sessão da tarde. Sentiu um vento gelado na canela e levantou pra fechar a janela e as cortinas. 

- Oi... - disse Júlia, chegando na sala.

Ele se virou pra voltar ao sofá e ficou paralisado. Ela estava inexplicável. Vestia uma camisola preta que marcava suas curvas perfeitamente e estava descalça, com os cabelos soltos. O batom vermelho a deixava mais incrível ainda. 

- Será que eu posso ficar aí com você? - perguntou - No meu quarto não tem tv e eu não pretendo mais sair hoje.

- C... Cla... Claro - ele quase gritou, ajeitando as almofadas no único sofá que havia na sala. 

Sentando ao lado dele, a moça perguntou do que se tratava o filme. 

- É um cara meio doido que mata as pessoas dentro de bares. - explicou ele, sem prestar muito atenção na televisão. Notou que as pernas dela combinavam com a almofada azul marinho que ela estava segurando - Agora tão tentando capturar ele. 

- Ah, sim... - pousou os olhos nele - Tem algo pra beber?

Bernardo sentiu o coração pular pela garganta. Tava ficando meio óbvio que ela queria dar pra ele, pensou.

- Eu vou buscar. - afirmou, indo em direção à geladeira - Cerveja preta? - gritou, perguntando.

- Pode ser. - respondeu em alto tom.

Voltando pra sala, o rapaz entregou a garrafa de vidro à moça, observando a alça vinho do seu sutiã rendado saindo da camisola. Beberam alguns goles e apoiaram as garrafas no chão. Ela virou o corpo pro lado dele e apoiou o cotovelo na parte de trás do sofá. Jogou o cabelo pro lado.

- O que você faz?

Bernardo mexeu no próprio cabelo e respondeu:

- Sou publicitário. 

Foi quando olhou fixo nos olhos dela. Eram escuros e pareciam convidá-lo, bem como aquela boca vermelha cinematográfica.

- Adoro publicitários. - foi o que ela disse, antes de puxar Bernardo e beijá-lo. 

O beijo foi intenso, tão intenso que ele tentou abrir os olhos e recuperar o fôlego, mas ela não deixava. Foi pra cima dele ferozmente, arrancando sua camiseta e beijando seus ombros de um jeito irresistível. Vendo o que acontecia tão rapidamente, colocou as mãos dentro da camisola dela, subindo-as pelas costas de Júlia, até tirar sua roupa. Os beijos continuavam e ela arranhava seu pescoço enquanto ele desabotoava seu sutiã, jogando a peça no chão da sala. Sentiu seus seios grudarem em seu corpo quente e pensou que aquele era o melhor dia da sua vida em meses. O perfume dela invadiu sua pele e ele a deitou embaixo de si, beijando seu corpo com uma força que não sabia de onde vinha. Ela inverteu a situação e ficou em cima dele, repetindo tudo, com uma sede enlouquecida, tirando sua bermuda. O filme continuava na televisão, sendo ignorado diante da cena louca que aquecia aquela sala antes fria. Enquanto a beijava, Bernardo sentiu algo estranho aproximar-se de seu pescoço. E foi num golpe fatal que Júlia embebedou-se de toda a sua psicopatia, cortando a garganta da sua vítima indefesa.

- Culpa da Copa do Mundo.


Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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