Romance de papelaria

14/05/2014


Terça-feira chata do cacete. Tava eu lá, atrás do balcão daquela papelaria sem graça, só pra conseguir pagar o aluguel atrasado e me sentir um pouco menos Sr. Madruga. As pessoas passavam do lado de fora usando roupas de praia, com seus óculos enormes e chapéus de palha maravilhosos, enquanto eu, amarrada naquela calça jeans, contava os minutos pro meu almoço.

- Boa tarde! - disse uma voz masculina meio rouca, entrando na loja.

Quando tirei meus olhos da papelada que eu tinha que encadernar e olhei pra pessoa que se aproximava, meu coração pulou pra fora da boca, sambou no balcão e voltou correndo pro meu peito. Era um cara daqueles de filme, sabe? Barba ruiva por fazer, camisa xadrez e violão nas costas, com um sorriso lindo. 

- O-oi! - disse, gaguejando um pouco - Posso ajudar?

Ele parou, olhou bem fundo nos meus olhos e aquilo em deixou meio incomodada. Mas era um incômodo bom. Os olhos dele eram pretos, mas pretos mesmo, o que contrastava com aquele cabelo alaranjado no qual eu fiz um cafuné imaginário rapidamente. Ei, volta com esses olhos aqui!

- Eu quero imprimir um arquivo, por favor. - ele falou, me entregando um pen drive amarelo, que tirou do bolso da calça.

- Ah, sim - peguei o pen drive e meus dedos esbarraram nos dele. Fiquei meio desconcertada, mas tentei agir naturalmente pra não parecer idiota. "Pára de se comportar como uma menina de 15, Gabriela", martelava na minha cabeça.

Abri o disco removível (F:) e ele apontou um arquivo do word pra eu abrir. Não costumava prestar atenção nos arquivos alheios, mas mesmo que rapidamente, li algumas palavras e vi que era algum trabalho. O cara estuda. Já sei uma coisa sobre ele.

- Está aqui. - entreguei as cinco folhas impressas pra ele, sorrindo de leve. Ele retribuiu o sorriso e saiu. E me levou junto. Volta aqui, coisa linda!!! 

De repente, lá estava eu novamente, sozinha naquela papelaria. O que me restava era esperar que ele tivesse mais trabalhos pra imprimir e que voltasse ali. 

Na manhã seguinte, a ideia louca de ele voltar lá me animou a acordar. Até batom eu passei. Mas ele não apareceu.

Depois de alguns dias, para a minha surpresa, ele voltou. Dessa vez tava usando um moletom azul marinho e a barba tava um pouco maior. 

- Oi, de novo! - cumprimentou ele, sorrindo.

"Oi, de novo!". Ele disse "de novo". Ele lembra de mim. Ele quer meu corpo nu. 

- Oi! - respondi o sorriso, jogando o cabelo pro lado. Ai meu caralho, joguei o cabelo pro lado, pareci oferecida. Tossi sem querer tossir. - É pra imprimir? - perguntei, vendo que ele estava com o mesmo pen drive na mão.

- Sim, sim. - me entregou. 

Ele ainda voltou lá umas quatro vezes. Pouco tempo, eu sei, mas o suficiente pra eu jogar o cabelo pro lado mais algumas vezes. Nossos diálogos eram sempre os mesmos, nada surpreendente, mas isso era tão bom. Ele me disse que tinha se mudado pro quarteirão do lado recentemente e ficou tranquilo por saber que havia uma papelaria tão pertinho, pois sempre tinha algum papel pra imprimir. 

Numa certa quinta-feira, com aquelas chuvinhas finas e chatas, fui pro lado de fora da loja fumar um cigarro. Faltavam alguns minutos pra eu retornar do almoço e eu fiquei por lá, admirando aquela paisagem de carros, poluição, poças d'água e bueiros entupidos por pacotes de fandangos. Dobrei uma das pernas pra trás e a apoiei na parede da papelaria, trazendo a fumaça pra dentro de mim. Foi quando eu o vi. Ele, sem guarda-chuva, passando do outro lado da rua, carregando uma caixa. Eu, com meu olhar sem miopia alguma, enxerguei o que se tratava: uma impressora.

O desgraçado comprou uma impressora! E a nossa história de amor? Fiquei indignada. Nem terminei de fumar o cigarro. Tá, era drama, mas fiquei chateada. Agora não ia mais ter nossos mini diálogos durante meu expediente. C'est la vie. 

Três dias depois ele entrou na papelaria. Ó céus, justo no dia em que eu tinha perdido o horário e tava com cara de zumbi. Meu cabelo então, sem comentários. Mas fiquei feliz em vê-lo ali, com o violão nas costas e o pen drive amarelo na mão.

- Oi! - disse ele - Comprei uma impressora, mas ainda falta comprar a tinta. Hoje vou providenciar isso, mas antes preciso imprimir esse trabalho. Maldito Cálculo I.

- Não vai mais vir imprimir aqui? - perguntei, procurando não parecer desesperada, olhando pro computador, enquanto o pen drive era reconhecido.

- Agora não mais. - respondeu, sem muito sentimento.

Engoli uma saliva inexistente e nem li o que tinha no word dessa vez. Peguei a folha da impressora e falei "cinquenta", esperando a moedinha.

- Você vai me cobrar mesmo?

Não entendi.

- Er... Por que não cobraria? Não sou dona daqui não. - dei uma risadinha sem graça. Pedindo desconto de cinquenta centavos? Fala sério.

- Sei lá... Certas coisas são impressas sem necessitarem de dinheiro em troca.

- Você tá poético, hein. Tudo isso porque não tem cinquenta centavos? - virei os olhos, começando a me irritar. Ele compra uma impressora, não dá a mínima pras nossas pequenas conversas e vem fazer gracinha?

- Vira a folha. - pediu, sorrindo um sorriso maravilhoso. Desgraçado, sorria lindo.

Virei. Com fonte Edwardian Script ITC 22, tava escrito, bem bonito:

"Cinema?"



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20 comentário (s)

  1. AAAAAAIIIII, que texto mais <3 <3 <3
    não preciso repetir pela 783228793292323ª vez que você tem talento, né?
    fiquei aqui de boas segurando na mão de Deus e dessa mocinha do conto para ela dar logo umas bjkas nesse cara dos calculos. me fez lembrar muito aquele nosso mini romance secreto e platônico pelo vendedor da livrariaaaaaa <3
    fico até hoje imaginando se ele chegou a supor que a gente tava indo mais lá por causa dele do que por conta do climinha e dos livros. vai saber...
    continua escrevendo esses contos e crônicas aqui para alegrar minhas noites, tá? num futuro próximo, podemos fazer algo juntos hihi

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    1. ai ♥
      que saudades de ir paquerar o livreiro contigo
      lembro até hoje do dia em que eu subi a escada rolante do miramar e não tinha mais livraria... meu munnnnnndo caiiiiiiiiiiiu

      boa ideia prum próximo texto, hein! será baseado em fatos reaissss

      penso muito em unir esses contos/crônicas contigo e lançar um livrinho
      sério, vamos pensar nisso prum futuro bem próximo

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  2. Caramba Manie. Me senti dentro da história. . Mas agora me resta uma dúvida: é tudo "poético" ou aconteceu mesmo?!?!?! Ahhhhh.. preciso saber HAHAHAHAHA. Enfim.. tu escreve bem pra cacete ♥

    Beijao. :)
    www.ritacolatino.blogspot.com

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    1. fico chateada em dizer que não é real :'(
      eu fui na papelaria ontem imprimir uma folha e me veio essa ideia no caminho de volta, vai entender! mas não teve barbudo, nem cinema, nem nada... voltei pra casa e fiquei estudando história com meu cachorro hahahahah

      ps: mas toda história é real dentro da gente ♥

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  3. AI MEU, EU CASAVA VIVIA PRA SEMPRE AMÉM kaslçkçlaskçlaskaçslksa sério, nunca tive muita paciência pra ler textos/crônicas/contos desses que surgem em blogs e tal mas sério, o teu me encantou! Já tô escrevendo esse comentário rapidão pra sair "aloca" procurando mais textos pelo blog. A entrometida aqui leu os comentários e sim, lance um livro, dois, três, quatro, quantos você lançar em compro! hahahaha
    PS.: Quem foi procurar a fonte no google? Pois é, eu.

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    1. HAHAHAHA você foi no google mesmo? morri
      ai meu, esse comentário coloriu ainda mais a minha tarde... sério, muito obrigada ♥

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  4. Esta personagem é meio você porque o coração dela samba. E eu só conheço um coração que samba: O seu. haha. Manie, você escreve muito bem. Sério. Adorei, li tudinho, meus olhos correram apressados pra encontrar um final que fosse mais começo que final e olha: encontrei. Nesses dias que estive fora nunca deixei de vir aqui, li os posts, vi os vídeos e a cada dia tive a certeza do porquê de gostar tanto daqui. Aqui tem essência.

    Saudadinha, maluca <3

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    1. AAAAAAAAA NAO ACREDITO QUE VOCE VOLTOUUUUUU

      TO SAMBAAAAAAAAAAAAAAAAANDO

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  5. Eu fiquei achando que era real, mas é um conto haha. Que triste!
    Adorei! Me senti dentro da história.
    Fala pro carinha, que se der errado com a menina da papelaria, ele me ligar! hahahaha
    Beijos

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    1. hahahahaa pode deixar! quem me dera ser real ♥

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  6. Ai, que amor de texto, xeeeente!!! hahahahaha. Consegui sentir a decepção da personagem no momento em que avistou a impressora e já estava dando por perdido quando li o final... Que demais, amei, Manie!!!
    Beijão.

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    1. oun, você sentiu as dores/amores da personagem... que bom ler isso! beijosss

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  7. Bem, ja sei o que vou lhe dar de presente: canetas...muitas canetas para a noite de autógrafo do seu primeiro livro!! Como pode meu cromossomo x sair tão perfeito em ideias? kkkkkk Assinado..fã!

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    1. mãe = comentando como anônimo em nossos blogs desde 1994

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  8. Que lindo, Manie! :3 E o carinha ainda era ruivo, módeusdocéu! <3 <3 CASAVA! haushausha'
    Amo os seus textos, porque sempre tem um romance fofo (como se alguma coisa sua não fosse fofa), mas sem ser meloso! :3
    Li o comentário de todo mundo ~interesseira modo on~, e gostei principalmente da sua resposta pro Tadeu, se lançar um livro com todas as suas crônicas e textos eu compro, hein? Cato moedinha e vendo bala no sinal, mas compro! haushashaus' ><'
    Sel do Jovens Gordinhas

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    1. hahaha aaaaaa vou até sua cidade pra lançar ♥
      brinks, ser escritor no brasil tá tenso... vamos ter que dar um jeito!

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  9. Esse post me lembrou a nova propaganda do Nescafé, já viu? É uma que o cara quer chamar a moça pra almoçar, não tem coragem e manda imprimir o convite! Bem parecido!
    Abraços!

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    1. aaai que lindinho, não conhecia! vou procurar ^-^

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  10. Meu Deus que delícia de texto! Nossa quando eu li "Cinema?" no final me deu um frio na barriga, sério!
    A cada dia que passa fico mais impressionado com o seu talento.Que orgulho!
    Escreva mais textos assim, são gostosos e inspiram bastante. Te amo desgraçadíssima.
    Beijos.

    www.cassiomatos.com

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    1. desgraçadissimo ♥♥ obrigada pelo comentário. ouvir isso de você é muito gratificante
      TE AMO

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