Eu tinha esquecido como era brincar

23 de junho de 2014


Minha torta de limão tinha acabado e eu comecei a ficar impaciente. Meus pais tavam conversando, meu irmão no celular e, de repente, percebi que eu tava meio que forever alone ali no meio da quermesse. Sentada na mesinha de plástico nº 15, fiquei olhando ao meu redor, buscando algum conhecido, ou sei lá, algum átomo de hidrogênio visível no ar. 

Foi quando uma garotinha, na mesa do lado, me encarou. Ela tava meio tímida e por isso, quando eu a encarei de volta, ela correu os olhos pro outro lado rapidinho. Achei engraçado e olhei pra ela de novo, mais ou menos assim assim. Acho que isso deixou ela mais tranquila, por que ela deu uma risada gostosa e pegou uma bola rosa enorme (que provavelmente ela tinha ganhado na pescaria) debaixo da cadeira.

Ainda não éramos tão íntimas assim. Faltava alguma coisa. Então ela começou a brincar sozinha, jogando pro alto e pegando, até que a bola veio parar no meu pé esquerdo e eu chutei. Pronto, viramos melhores amigas.

Ficamos brincando com aquela bola uns vinte minutos, ao som do chorinho que meu vô tava tocando lá no palco. O combinado era não deixar cair no chão, mas a bola sempre caía. As pessoas ao redor deviam pensar "que moça gentil, brincando com a criança". A moça era a menina, claro.

- Qual seu nome? - ela me perguntou.

- Mariany e o seu?

- Eduarda... ops - saiu correndo pra pegar a bola que tinha caído longe. 

Refleti sobre a sorte que ela tinha em ter um nome tão simples, sem Y, nem nada. Esperei ela voltar e continuamos a brincadeira. Nem me liguei no quão besta eu comecei a ficar, porque sério, eu realmente tava me divertindo. Acho que mais do que ela até.

Fiquei pensando no que conversar com ela. Tinha esquecido como era puxar assunto com crianças e provavelmente ela não ia querer saber das músicas que eu ouço ou que eu tenho um blog. Então eu arrisquei um "quantos anos você tem?".

- 6. 

Pensei "não pergunta, não pergunta, não perguntaaaaaaa..."

- E você? - ela perguntou.

- Vinte.

- Viiiiiiiinnnnnnnteeeeeeeeeeeeee? - ela perguntou, meio assim.

E continuamos a arremessar aquele planeta rosa hiper leve. Daí eu, Manie, 2.0 na cara, joguei a bola sem querer na cabeça careca do vô dela, que tava sentado de costas pra gente. A bola caiu em cima da mesa dela e derrubou a garrafa de azeite. E uma moça, talvez sua tia, ficou brava com a Duda (disse que somos íntimas) e guardou a bola debaixo da cadeira de novo.

Ela fez cara de "ih..." pra mim e eu respondi com a mesma cara, voltando com as pernas pra dentro da minha mesa novamente. Mas a mãe da Duda tava conversando com a minha mãe (esqueci de contar essa parte) e, então, a garotinha chegou no ouvido dela e cochichou alguma coisa. Depois, veio no meu ouvido e sussurrou: acho que sua mãe vai te deixar de castigo.




Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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