Sobre caras amassadas

3 de junho de 2014



Eu a vi ao meu lado, pegando o celular e tentando abrir os olhos pra enxergar o horário. Vi quando ela abraçou o edredom, como se dissesse "só mais cinco minutos". Tava frio, mas não quis acordá-la quando percebi que havia pegado no sono novamente. Fiquei lá, com os olhos semicerrados - por causa do sol que tava meio que me cegando, apesar de já ouvir as primeiras gotas de chuva caindo lá fora -, observando ela virar pro meu lado, enquanto dormia. A blusa 3x maior que seu corpo caia-lhe pelos ombros e seus cabelos pareciam ter ido à uma rodinha punk sozinhos durante a noite e voltado pra cabeça de manhã. Mas era uma cena tão linda, sabe? Eu poderia fotografar aquilo e guardar numa gaveta eterna, mas preferi guardar na minha própria memória. Assim ficaria só pra mim. 

Nem percebi quando fechei os olhos de novo e voltei pro mesmo sonho. Não lembro qual sonho era, mas quando acordei levei um susto. Ninguém ao meu lado. Nem blusa caindo nos ombros, nem cabelo bagunçado, nem nada. Levantei, levemente angustiado, já sabendo o que acontecia. Claro, ela foi embora. Teve o que quis e se mandou. Não, pera, pára... Não pode ser. Não quero isso! Quero ela de volta. Ponho o pé no chão e percebo que uma das meias acordou debaixo da cama, como de costume. Pego o cacete da meia e ponho no pé, que nesse momento tá mais congelado que o Jack no final de Titanic. Já estava preparando me fígado para a dose cabulosa de álcool que ele teria que aguentar pra eu mesmo me aguentar naquela tarde de terça-feira, sozinho no meu quarto-sala, quando ouvi a maçaneta girar. 

- Puta fila do inferno... - aquela voz doce que eu conhecia, dessa vez meio revoltada, abrindo a porta da sala, com uma sacola plástica. Vestida com o meu casaco e com aqueles chinelos já desbotados, fecha o guarda-chuva - Não sabia se tu gostava de pão de queijo, então trouxe chocolate... - e olha pra mim, sorrindo, com a cara toda amassada - Porque chocolate é bom demais. 


Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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