"Tipo um Paulo Coelho, só que depressivo [...]"

24 de junho de 2014

Tenho um método totalmente involuntário. Um gene budista que faz meus dias felizes não tão felizes e meus dias tristes não tão tristes. (Martín, de Medianeras) 


Quando quero falar e não encontro verbos, nem conjunções, nem substantivos e nem mesmo um sujeito pra me ouvir, venho aqui. É tipo um diário, só que muita gente lê. Gente que eu conheço, gente que eu nunca vi, gente que eu vejo pouco. De qualquer maneira, gente que sabe do link e clica por sei lá qual motivo. 

Hoje eu ia estudar. Confesso que até acertei algumas fórmulas estruturais de aldeídos e outras funções oxigenadas, mas percebi que eu não tava nessa vibe. Ao invés de permanecer me esforçando pra chegar às isomerias, resolvi pegar meu edredom e travesseiro, atirá-los numa espreguiçadeira (?) e assistir a um filme.

Dentro da cabeça, nada de heredogramas, orações subordinadas ou o valor do x. No lugar de tudo isso, uma mistura de certeza e não saber. Um baile aqui dentro de mim, me deixando doida, sem saber se tenho motivos pra realmente ficar doida. Apenas estou. 

E aí veio aquela parte de mim que nem a milionésima parte da população que convive comigo conhece. Aquela parte que às vezes nem eu entendo bem. A parte chata, a parte confusa, a parte angustiada. 

De repente me vi aqui, no canto da sala, apenas comigo mesma. Poderia ligar pra pizzaria, pedir uma 2 queijos da promoção por 15,90 só pra fazer amizade com o entregador. Conversar sobre o frio que vem fazendo ou sobre a dor que chega aqui dentro, sem pedir licença, sem querer saber se eu a quero por perto, sem fazer silêncio, sem cuidado, sem motivo. Mas sabe lá se o entregador entenderia... e eu nem 15,90 tenho. 

Ao invés disso, aperto o play. Coloco os fones de ouvido e viajo em mais uma obra cinematográfica. Penso que vai me distrair, mas não: me traz sem dó à realidade. Nesse momento eu vejo que não adianta fugir de nada. Então dou a minha cara à tapa e assisto minuto após minuto, engolindo as doses de realismo que me vem direto ao peito. Com elas, toda aquela identificação que róla com as personagens e tal, que faz com que eu não me sinta tão sozinha quanto imagino.

Mas que droga, isso tá ficando depressivo demais. Calma, eu não voltei a tentar me embebedar de comprimidos ou lascar navalha no punho, nem nada. Só estou refletindo, coisa que pouca gente hoje em dia tem coragem ou, sei lá, paciência de fazer. Refletindo sobre isso que eu chamo de tristeza que insiste em me abraçar assim, do nada, de vez em quando, me fazendo chegar à doce conclusão de que ela estará sempre aqui, assim como a tal da felicidade. Tem dias que vem, tem dias que vai. É a realidade. 

Não quero parecer uma menina depressiva que passa madrugadas de terça-feira escrevendo textos assim, mais deprês ainda. Não é essa a intenção. Eu não sou isso. Só queria arranjar um jeito de me auto-aconselhar. Porra, eu vivo aconselhando as pessoas que eu gosto e esperando que elas realmente sigam as drogas dos meus conselhos. Por que eu, com essa cara de zumbi que estou nesse momento, tenho que afirmar pra mim mesma aquela velha frase "ah, pra mim é diferente... esses conselhos são pros outros só". NÃO. Eles são pra mim também. 

- Pizzaria, boa noite.

- Quero uma 2 queijos.

- Endereço?

- Rua Carvalho de Mendonça, 473, 22. 

- 15,90. Bebida acompanha?

- Não.

- Meia hora tá chegando.

Meia hora passa. DIM DOM.

- Sua pizza.

- Cara, não quero pizza. 

- Oi?

- Na boa, quero só trocar uma ideia. Senta aí. É, me sinto muito retardada depois que a dor passa, sabe? Parece que eu vivi um drama de novela mexicana exagerado. Mas não é drama, cara. Eu preciso saber que não é. Na hora eu sei que não é. Na hora eu me sinto sozinha, bem sozinha, mas não culpo ninguém. Aprendi a não culpar. Principalmente porque eu sei que depois isso passa, assim como as cócegas passam, a risada passa, as lágrimas passam e todos as outras demonstrações de sentimentos também passam. É que é foda lidar com isso. Era pra eu estar estudando química orgânica, cara, e você devia estar pegando sua moto com seus 15,90 e voltando ao trabalho. Mas olha aqui pra mim... vai parecer carência, vou parecer criança, vai soar meio ridículo, mas você pode me dar um abraço? Sério, tinha deixado de lado a ideia de te trazer aqui, mesmo sem te conhecer, por achar que não me entenderia. Mas, velho, na boa, não quero ninguém que me entenda. Quero apenas um abraço, pode ser?

Ainda ouvi o barulho da moto e o cheiro da pizza ficou. Só o cheiro, a pizza ele levou, junto com meu abraço. Eu disse pra você que eu não tinha 15,90. 



Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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