Hoje eu olhei o mar

13 de julho de 2014


É como se tivesse um ponto de interrogação enorme no meu peito... não, no meu estômago. De vez em quando ele fica numa boa, sem demonstrar que tá ali. Mas tem hora que ele resolve simplesmente sambar aqui dentro, me deixando com uma mistura de dor com sensação de autossuficiência.

Não sei vocês, mas quando eu fico nessa vibe, eu me sinto assim, autossuficiente. Parece que a gente tem o poder de tudo só por se deixar sentir esses momentos ruins, como se a gente falasse "olha, mundo, eu sei que eu sinto essas coisas e eu aceito isso". Até porque não adianta esconder: uma hora os monstrinhos  em forma de ponto de interrogação aparecem.

Ontem eu tava bem. Não estava num ápice de alegria, mas assim como nos últimos dias, venho ficando numa boa. Parece que tô sacando qual é essa de liberdade, de tranquilidade, de paz. Nos últimos tempos, vim me deixando viver o que eu quisesse, sem medo, sabe, apenas vivi. Um dia após o outro, gole lento pós gole lento. 

Então hoje eu olhei o mar. Tava de noite e muito frio. E, de repente, era só eu e aquelas ondas, que batiam nas pedras e formavam cortinas d'água congelantes. Fechei os olhos e senti aquele vento gelado voando no meu rosto, já imaginando "taquipariu, vou ficar gripada nessa porra", mas continuei ali, com aquela mistura de cloreto de sódio e sabe lá mais o quê. Pensei em coisas que voavam pela minha mente como se fossem vultos de aquarela, algumas vezes coloridos, outras cinza. Foi uma mistura de "sou foda" e "que merda de vida". 

Poderia ter parado por ali e cortado aquela dor pela raiz. Poderia ter ido pra casa. Poderia ter conversado com meus amigos sobre o último jogo do Brasil, mas não. Eu me fechei ali, naqueles minutinhos, tragando a dor e soltando ela pro mar. E as ondas continuaram batendo nas pedras.

Quando acordei hoje, com aquela cara amassada e o cabelo bagunçado como de costume, notei que eu não fiquei gripada como imaginei que ficaria. Ao invés disso, senti ali, olhando pra fresta da janela que permitia a entrada de um fino raio de sol, o ponto de interrogação indo embora pela metade. Parece que boa parte dele se desfez durante as últimas horas, depois de me consumir lentamente. E saiu por aquela mesma fresta da janela, me deixando com a sua outra metade, pra que ela se manifeste em um outro dia, num outro lugar... olhando prum outro mar.



Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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