Sobre inspiração e cupcakes de nutella

22/07/2014

 


Algumas pessoas perguntam da onde tiro inspiração pra escrever. Muitas delas pensam que eu preparo o ambiente com incensos e convido índios para fazerem danças xamânicas aqui na sala de casa, pra depois irmos à pracinha daqui do bairro e dançar sobre a terra, descalços e tal. Ou então, acham que eu me visto com vestidos de bolinha e vou até a Bolsa do Café, diariamente, tomar uma xícara de capuccino com bastante canela e, se pá, conhecer algum francês com seus vinte e poucos anos, casar com ele no dia seguinte, numa praia deserta, fazermos amor sobre as pedras e depois eu voltar pra casa numa boa, pronta pra postar no blog.

Mas na minha história não tem índio nem francês. O que me inspira são coisas cotidianas. Vou à padaria, com aquele look meia+chinelo e cabelo estilo "não, cara, não penteei", olho pra moça do balcão e imagino o que ela deve fazer depois do trabalho. Imagino o dentista do consultório da avenida ao lado (que eu nunca vi, mas sei que existe um consultório odontológico na avenida ao lado) vindo de moto buscá-la. Aí ela olha pro bolso do jeans desbotado e percebe que esqueceu o celular no armário. Vai até lá e é surpreendida pelo padeiro, que, sem pensar muito, rouba um beijo da Mirtes (acabei de dar um nome pra ela). Esse parágrafo tá grande, vamos pro próximo.

Uma rápida descrição, um tanto quanto tardia (me perdoe, leitor, se você já construiu uma Mirtes na sua imaginação): moça jovem, lá pelos trinta e dois, estatura média, cabelos castanhos com californianas até os ombros. Gosta de chocolate (ela não só gosta, mas tem um vício incontrolável) e várias vezes já deixou de atender os clientes porque os cupcakes de nutella estavam sendo postos na cestinha em cima do balcão no momento em que precisava atendê-los. Fala que gosta de Chico Buarque pra parecer culta, mas já chorou muito ouvindo Jorge e Mateus, Luan Santana e outros Prozac's da vida - amorosa.

Voltemos à cena do padeiro. Ele, recém contratado, já tava há dias de olho na nossa querida Mirtes. Não deu outra. Sabendo que ela esperaria o seu suposto namorado às 22h10, discretamente colocou o celular dela propositalmente em cima do armário. Foi só ela voltar pra buscar e PAAAAAAA ele simplesmente não mediu seus atos. Beijou ela como se não beijasse alguém há anos. Dane-se o emprego, dane-se o que ela acharia no dia seguinte, dane-se o dentistaaaa, a vida é beeeeelaaaaaaa, ele queria beijar Mirtes e beijou. E ele não sabia se ela estava realmente retribuindo ou se já tinha dado um tapa na cara dele, saído pela porta que entrou e ele tinha ficado ali, beijando o ar. Mas não... Ela tava ali, e ele tava beijando ela. 

Quando parou, quase arrependido do que fizera, viu, na pouca luz que tinha o ambiente, o rosto de Mirtes. Ao redor de sua boca, uma mancha quase abstrata e bem vermelha estampava sua pele. Era o batom vermelho, aquele que ele tinha visto ela comprar da revistinha da Avon, cujos produtos a moça da banca revendia. Seus olhos meio assustados com o que acontecera fixaram-se nos dele e eles ficaram ali, por alguns segundos, que pareceram horas. O único barulho era a respiração de ambos - e talvez o coração dele, que quase pulava pra fora da garganta. E, num ímpeto inexplicável, Mirtes fechou a porta da sala dos armários e pulou em cima do nosso jovem padeiro.  

Ainda se ouviu as buzinas da Suzuki 750 do coitado do dentista. Mas naquele momento, a sala de armários estava à prova de qualquer som externo. 


- Mais alguma coisa? - perguntou a moça, do outro lado do balcão. 

Levo um choque de realidade e me vejo de frente pra atendente da padaria, sentindo a meia impedir que meus dedos se separem no chinelo. Aí percebi que a Mirtes não existia mais. E nem cupcake de nutella tinha na cestinha. 

- Não, não... valeu. - pego o pão e vou ao caixa pagar. 

Mas é assim... A inspiração vem das coisas simples, do ônibus, do mercado, do programa de tv, daquela conversa, da pessoa passando por mim e falando no celular. Desses detalhes eu tiro histórias. Algumas eu guardo pra mim, por imaginar que um dia vou vivê-las lenta e intensamente... outras eu escrevo.


Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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