Não me venha com essa de amor

23/10/2014



Pode sair daqui com esse sorriso bobo, com essas flores e essa cara de apaixonado. Nem perca seu tempo em sentar do meu lado e exalar essas borboletinhas no estômago, através dos poros da sua epiderme úmida - provavelmente devido à última vez que você abraçou seu grande amor, antes de entrar nesse ônibus. Velho, não senta do meu... Lado. Sentou. Ai, que vontade de mandar você se fuder!

Não sei se é inveja. Dane-se o que é. Acontece que eu cansei de ficar vendo gente amando e sendo amada, enquanto eu fico nessa angústia. É sempre assim, cara. Eu me guardo e me guardo muito. Penso 1, 2, 3 e seja lá quantas vezes for possível antes de abrir 1 milímetro do meu coração. Tento não criar, mas acabo inventando mil expectativas que não sei se são reais ou se são coisas da minha cabeça. 

Ah, nem perca sua energia em me dizer "espera, você ainda não encontrou o verdadeiro amor". Que moral tu tem pra vir me dizer isso, hein? Qual foi a última vez em que sofreu por amor? Na quinta série, quando gostava do menininho que jogava futebol, que nem sabia da sua existência? Nossa, cara, que trágico. Se eu fosse você, aproveitava e publicava um livro contanto pra gente sobre essa sua grande dor existencial e entrava pra esse tal do Ultrarromantismo. Vontade de vomitar em você e nessa sua dor que é ridícula, comparada à minha.

Sim, eu amo. É ridículo confessar isso, mas se eu não tivesse amando, não estaria pensando em todas essas coisas agora. Meu amor tem nome. É Júlia. Um metro e sessenta, olhos verdes, cabelos castanhos, blusa de banda, de esquerda, daquelas que parecem discutir 24h sobre filme iraniano, quando, na verdade, tá enchendo a barriga de brigadeiro enquanto vê mais um episódio inédito da sessão da tarde, lá no trabalho dela. Ela trabalha numa locadora - sim, cara, ainda existem locadoras nessa cidade. 

Hoje eu fui lá e percebi que não dava mais. Nem precisamos falar nada. Bastou eu dar tchau e ela me abraçar de volta, eu fechar a porta da recepção e vir pro ponto de ônibus. De repente, senti o mundo cair nos meus ombros e, que droga, comecei a chorar do lado da moça que vende passe. 

Você deve estar se perguntando: "ora, porque tá tão mal assim? Vai lá, faz alguma coisa. Sai correndo desse ônibus, pega ela pelo braço e fala que tu ama ela. Arrisque". Daí eu viro pra você, com os olhos inchados, e te digo: ela se chama Júlia, lembra? Prazer. Meu nome é Mariana.

Eu realmente poderia ir até lá, jogar todos aqueles dvds, que tão em cima do balcão, no chão, e me declarar. Sabe aquela cena de expectativa e realidade do filme "500 dias com ela"? Pois é. A expectativa seria eu e ela felizes, saltitando até a cafeteria da esquina, dividindo um capuccino e fazendo vários planos maneiros. A realidade seria ela perguntando "tá falando sério?", com cara assustada, quase com repulsa de mim, afastando a mão que antes tava perto da minha e recolhendo os dvds do chão.

Somos amigas. Muito amigas. Ela nunca escondeu que prefere testosterona às minhas curvas - modéstia a parte -, mas o amor é irracional. Não dava pra compreender isso tudo mesmo vivendo tanta coisa ao lado dela. Tanta conversa legal, tanta ida ao mercado pra comprar pão de queijo, tanto desabafo, tanto filme de cachorro morrendo vendo juntas... É tanta coisa, que não dá, simplesmente não dá pra ignorar o que eu sinto por ela. Foda-se a testosterona. Foda-se você que tá sentado do meu lado, mandando mensagem no whatsapp pra sua menininha. Tu acabou de ver ela, velho, solta esse celular.

Dentre todos os sorrisos que vi a Júlia sorrir pra mim, todos os abraços sinceros e apertados que ela me deu, todos os últimos pedaços de pão de queijo que ela me deixou, todos os dvds que ela roubava temporariamente do trabalho pra gente assistir juntas, tudo isso, torna-se sufocante admitir a ideia de que ela jamais vai sentir o que eu sinto por ela da mesma maneira. Vai me ver como uma amiga. Vai me ver só de sutiã e vai me tratar como mais uma menina só de sutiã, enquanto eu me contenho para não voar em cima dela e desabotoar fecho por fecho dos que ela veste.

Desço do ônibus. Tô na rodoviária, com a roupa do corpo e uma grana na carteira. Vou ao guichê azul e compro uma passagem pras 18h15, sem pensar muito. Quando vejo, estou em outro ônibus, dessa vez maior... dessa vez, com mais milhas a percorrer. 

O que me tranquiliza é pensar que a vida é mais que isso. É mais que histórias de amor entre dois. É mais do que beijar, transar, trocar mensagens fofas antes de dormir e dizer que ama. Apesar de me sentir incapaz diante disso tudo, pensar em mim me fortalece. Talvez eu volte a fechar meu coração - e olha que vai demorar pra abrir de novo. Mas prefiro abri-lo às sensações, aos sabores, aos ventos que bagunçam meu cabelo na janela de um ônibus, para um lugar qualquer. Quero me permitir viver além disso. Se pá eu volto logo - ou demoro mais alguns meses. Depende. Não sou dona do futuro. 

Quero que ela saiba, mesmo sem saber por minha boca, que eu não lhe guardo mágoa. Odiar essa situação não significa odiá-la. Tô abdicando de nossa amizade por mim e talvez isso pareça egoísmo, mas prefiro ser egoísta sozinha num ônibus, que tá indo pra um lugar que nem conheço direito, do que dormir acreditando que um dia viverei tudo o que gostaria de viver com ela. Não vai ser assim. Continuaremos fazendo as mesmas coisas e o meu amor não vai diminuir. Não se eu não sair dessa cidade. 

Isso não é fugir. É ter compaixão por si mesmo. É querer se sentir leve. É querer ter paz. É querer arranjar motivos pra continuar com vontade de acordar em terças chuvosas, sozinha. É saber que, independentemente de Júlias e pães de queijo, eu tenho a mim mesma. E é comigo que vou ficar até o fim.

"Matar não quer dizer a gente pegar o revólver de Buck Jones e fazer bum! Não é isso. A gente mata no coração. Vai deixando de querer bem. E um dia a pessoa morreu." (Meu Pé de Laranja Lima). 


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10 comentário (s)

  1. Que incrível, e com a música ficou perfeito mesmo *o* que talento menina :3 faz crônicas no seu computador e publica no wattpad como livro de crônicas :3 vai que alguma editora veja, ja rolou isso está sendo lançado o livro de uma menina que escrevia no wattpad.

    ☆ visita se quiser ❤ ☞ inocentementeingenua.blogspot.com.br ◕‿◕

    poderia me dizer o nome desta musica e cantor? (escreve la no meu blog)

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    1. não conheço o wattpad, mas vou procurar! um dos meus sonhos é publicar um livro.
      tô escrevendo um romance, mas também toparia numa boa uma publicação só de contos e crônicas ^-^

      vou te contar no seu blog, mas deixo aqui aos interessados:
      música: Paranoid Android
      banda: Radiohead

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  2. Oi Manie :)
    Adorei seu texto. Amo ler ~histórias de amor~ diferentes. Via de regra, ou elas tem final choroso ou final feliz - mas sua personagem deu outra cara e outro rumo para a dor de cotovelo. Achei interessante!
    Beijo

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    1. a intenção foi justamente essa, Ana! foi mostrar, através de um texto desses, que a dor não é fácil de ser combatida, que não adianta ser inocente diante dela e que há muito mais pra se preocupar do que só essas coisas... espero que as pessoas se identifiquem.

      quando a gente tá mal, especialmente com amor, é foda ler só coisa fofinha na internet, sabe? é legal ler algo mais realista e impactante, que realmente nos inspire a procurar uma saída de verdade.

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  3. Adorei o teu texto, deu pra sentir muito a personagem e, realmente, não é aquele tipo de texto que a gente para pra ler e sente ódio porque tá num clima péssimo e as ~interwebs~ tão cheias de amor eterno. Ficou incrível!

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    1. esse foi o objetivo, Amanda... é chato não estar bem e só encontrar fofura por aí!

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  4. Agora fiquei morrendo de vontade de pão de queijo, merci petite Manie =/
    Teus textos são sempre muito vivos, e a musica caiu perfeitamente. Eu tava tão zen, agora tô aqui numa agonia danada Aff !
    O que me chamou atenção é que, mesmo se fosse a historia da Julia e do Mariano, ou do Julio e da Mariana, não sei se seria uma boa "Sai[r] correndo desse ônibus, pega[r] ela pelo braço e fala[r] que tu ama ela". Se alguém fizesse isso comigo, de duas coisas uma, se eu gostasse da pessoa ia ficar com medo de tanta paixão desde o inicio de uma relação, se eu não gostasse ia achar muito constrangedor ter que jogar um balde de agua fria depois de tanta efusão amorosa.
    Acho que tô ficando velha...

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    1. não sei se é bom ou não essa coisa de se sentir agoniada, mas por incrível que pareça, fico feliz de ter causado isso em você (sinal que o texto foi fundo!)

      acho que eu também me assustaria, ainda mais se fosse algo que eu jamais tivesse desconfiado. minha reações nesses momentos são justamente ficar com cara de paisagem e perguntar 'é sério?' hahaha

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  5. Amei tanto, tanto esse texto. E me identifiquei, me senti nele. Me li em cada trecho. Consegui apalpar a dor, a indignação com "dores e amores de quinta série" perante a dor e o amor que poderia ser pra sempre, mas não é.

    Falando em identificação... No caso da minha personagem, apesar de demorar a abrir completamente o coração, quando o faz, tem a mania de ir até o fim. Não aceitar a falta de respostas, a incerteza que fica. Ela precisou se declarar e ouvir um "não estou pronto agora". No final das contas, também se afastou, preferindo isso à ter a amizade - que, pra ela, nunca seria só amizade e tudo permaneceria igual.

    A história ainda não acabou, mas, em suma, minha personagem voltou atrás.
    Ainda dói, é claro, mas nossos pães de queijo e os sorrisos valem à pena.
    Desistir não é uma opção.

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    1. também não gosto dessa incerteza... é bonitinho, até certo ponto; depois sufoca.
      hoje confesso que sou bem diferente da minha personagem nesse texto, mas foi um desafio pensar por outros patamares e poder escrever algo que não fosse pra mim.
      não gosto de desistir, mas às vezes é preciso abrir mão de algumas coisas para ter outras que, muitas vezes, são muito melhores hihihi


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