O ladrão que não sabia andar de bicicleta

07/10/2014


- Olha lá - disse J-7, apontando pra uma garota que vinha de bicicleta lá no final da rua - Ela sempre passa aqui, assim, na hora do almoço - apagou o cigarrinho - É bom que não passa quase ninguém aqui. 

- Como tu sabe que ela vem essa hora?

- Oxi, eu vi ué. É o terceiro dia que ela faz isso.

- E se ela não fizesse hoje?

- Porra, Pistola, sei lá... Para de pergunta difícil. Ela chegando, eu abordo e tu pega a bicicleta. Ouviu?

Olhei a menina que se aproximava e tudo ao meu redor congelou. Ela veio em câmera lenta, com os cabelos voando, tipo cena de filme. 

- Ouviu, caraiii?

- Tá tudo no esquema, po. - falei, forçando uma imagem forte. 

Quando ela chegou e se preparou pra abrir a porta do prédio, a gente pulou na frente dela. 

- Passa a bike, passa a bike! - ele falou baixo, mas com firmeza -  Nem enrola, vai logo, na miúda...

Ela pareceu mais brava do que assustada, mas mesmo assim obedeceu. O J-7 subiu na bike dele e saiu no pinote e eu saí correndo, respirei 3 vezes e pulei na bike dela, mas não saí do lugar. Pedalei duas vezes e desequilibrei. Tentei de novo e, quando olhei, o J-7 já tava lá na frente, parando de pedalar e gritando: Qual foi, Pistola?? 

Enquanto isso, a menina permaneceu onde tava, sem entender o que tava acontecendo. Tentei de novo, pedalei umas três ou quatro vezes, mas caí na esquina. O tombo foi feio. Fui de cara no chão.

- Velho - disse uma voz doce e meio rouca, se aproximando de mim - Tu não sabe andar de bicicleta?

Quando levantei a cabeça, vi a mina iluminada pelo sol de meio dia, com os cabelos caindo quase em cima de mim. Sentei no asfalto, assustado, procurando o J-7, mas ele já tinha se mandado. Aquele lá, de forte, só tinha a cara... no fundo se cagava com medo de alguma vítima reconhecer o rosto dele. 

- Tá tudo bem? - perguntou, me ajudando a levantar.

- Sim, acho que tá, sei lá... - falei, com a cara vermelha, não sabia se por causa do tombo ou por vergonha mesmo.

Já de pé, olhei pra ela. Um pouco menor que eu. A bike no chão, deixando de ser protagonista da história pra se tornar uma mera figurante.

- Como tu vai chegar até lá? - ela perguntou.

- Lá onde?

- Onde vocês estavam indo, oras.

- Ah, a pé mesmo.

- E a bike?

- Que que tem?

- Vai levar?

- Tu deixa?

Ela riu.

- Quer almoçar? - perguntou, afastando o cabelo do rosto.

- Almoçar? - fiquei sem entender.

- Sim, tipo, almoçar... de comer.

- Eu sei o que é almoçar.

- Que bom, né. - pegou a bike da esquina da rua - Aqui perto tem uma lanchonete, bora lá.

- Não sou mendigo não, rapá. - disse, parando de andar.

- Tô fazendo boa ação não. Eu tô com fome, você tá aí com a cara toda ralada. Se tiver com orgulhinho besta, eu como e você fica olhando.

Olhei pro rosto dela e notei que ela tinha uma cicatriz na testa. Ela bonita, bonita pra caralho. Não a cicatriz, ela. Tá, a cicatriz era maneira também. 

- Ok. Mas não quero comer nada. 

E assim fomos, eu, a mina e a bike, os três à pé, até dois quarteirões à frente. Paramos num boteco caindo aos pedaços, mas de onde tava saindo um cheiro muito bom de hambúrguer.

- Um x-salada duplo com molho especial, por favor, e uma coca com limão - pediu ela, ao garçom, enquanto sentava numa mesinha com toalha xadrez, do lado de fora. - Senta aí. 

Sentei. Não entendia nada do que tava acontecendo. Eu tinha acabado de tentar assaltar ela e agora ela tava me chamando pra ver ela comer um x-salada duplo com molho especial. Mina doida.

- Acabei de levar um chifre.

- Chifre?

- Sim, passei no trampo do meu namorado, ou ex seilá, depois da escola. Ele trabalha numa loja de peças de computador, daí fica sozinho o dia todo. Mas hoje tinha uma garota com ele. Não tô acreditando até agora.

- Mas tu viu eles se beijando?

- Sim, né. Tavam se pegando hard. E eu fiquei lá, olhando aquela cena, esperando eles terminarem. Quando olharam pra fora do balcão, tava eu. - tirou a mochila de trás da cadeira e pôs no colo, abrindo o zíper. Tirou um envelope de lá de dentro. - Eu ia entregar isso pra ele. 

- O que é?

- Dois ingressos. - o garçom trouxe a coca e ela deu um gole - 30 Seconds To Mars.

- Que?

- É uma banda estrangeira. É a favorita dele. - pegou o celular e colocou uma música. - Conhece?

- Não sei quem é não. 

O x-burguer chegou. Ela mordeu um pedaço e ficou olhando pro potinho de guardanapos, meio triste.

- Tá triste mesmo, cara. - eu falei - Eles deviam tá se beijando muito mesmo.

Ela riu da minha inconveniência.

- Sim. Parecia que ela tava engolindo ele, sabe. Bizarro.

- Quando eu ficar com alguém espero que não seja bizarro assim.

Parei. Aff, que idiota. Por que eu falei isso?

- Tu nunca beijou ninguém? - olhou, assustada.

Não respondi.

- Cara, tu é BV?

Mudei de assunto.

- Teu namorado é burro, heim - eu falei, sem pensar.

- Burro?

- Sim, tu é mo bonita. Comprou ingresso do show da banda que ele gosta. Essas bandas estrangeiras devem ter show tudo caro. Olha quantos x-salada com molho especial você poderia ter comprado.

- Valeu pelo bonita

Ela olhou pra mim e sorriu. Os dente tava tudo com molho especial, mas continuava bonita. Pensei em algo pra mudar de assunto novamente.

- Tem quantos anos?

- 16.

- Eu também.

Parei. Mo silêncio. Ela terminou o hambúrguer, pagou a conta e pa, e pegou a bicicleta. Andamos o caminho contrário, em direção ao lugar que mais cedo eu tentei roubar a bike dela. Procurei algo pra puxar assunto, mas nada me vinha na cabeça, até que, de repente, ela me deu um beijo.

Quando abri os olhos, eu tava no meio da rua, beijando uma mina que eu tinha tentado assaltar minutos antes. Ela olhou pra mim e falou, segurando a bicicleta:

- Ó aí. Te ensinei a beijar.

Ela ia entrar no prédio dela, eu ia dar tchau, nunca mais nos veríamos e eu ia sonhar com aquele rosto durante dias e me xingar muito por não ter pedido telefone, nem perguntado onde ela estudava, nem nada. Pensei em puxar outro assunto, mas nada me vinha na cabeça. Olhei pra bike, olhei pra ela. Ambas se afastavam e giravam a chave na porta do prédio. 

- Hey. - eu gritei.

- Oi.

- Me ensina a andar de bicicleta?



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9 comentário (s)

  1. Owwwn quem dera que os assaltos da vida fossem assim cara! Se bem que a minha sogra ja escapou de ser assaltada simplesmente por ter dado um "boa noite" pro meliante...
    Detalhe, so vc pra fazer a moça comer um X-SALADA kkkkkk achei valido :)

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    1. HAHAHAA
      da próxima vez coloco um hambúrguer de soja!

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  2. É por esses continhos que amo esse brogue <3

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  3. HAHAHAHAHAHA inusitado e sensacional. uma pena que eu tenho muito medo de assaltantes pra chamar os caras prum hambúrguer. :p

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    1. realmente, as experiências que eu tive com assalto não foram nem um pouco bonitinhas como no texto haha, mas brotou essa ideia e eu deixei fluir XD

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  4. Um texto tão simples me fez refletir, compartilhar, sorrir e curti demais o seu post.

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    1. que bom saber que eu te causei isso, Lisa <3

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  5. Ei rs Não sei dizer se foi estranho, bonitinho, bizarro, inesperado, louco, putz, interpretei tudo isto, mas tenho certeza que isto foi criativo rs Me lembro o Laranjinha e o Acerola, sabe? rs Se pagavam de fodões mas eram meio moles (de início). Lindo!

    Isso aí!
    xoxoxo

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