Sobre o tal do amor livre

18 de janeiro de 2015

Tem gente que chega pra mim, olha desconfiado e pergunta: 

- Legal que você vai se mudar - daí toma o último gole do café frio e continua - E o namoro, como vai ficar?

Eu sempre tenho paciência em responder, mas fico guardando uma estranheza em mim. Ninguém me pergunta como meus avós, que vez ou outra ficam doentinhos, vão ficar quando eu me mudar. Ou, sei lá, como meus outros amigos vão se sentir com a minha partida. É sempre O Namorado. Parece até nome de filme.  

Daí eu paro pra refletir sobre isso e chego à conclusão de que estou feliz por viver a essência de um amor livre. Eu sou uma pessoa. Ele é outra. A gente se esbarrou nessa vida, na cantina de um cursinho há dois anos e de repente, PÁ, tamo namorando. Só que isso não foi uma decisão, nem um termo de compromisso, nem nada. Estamos namorando porque essa é a única palavra que o dicionário nos oferece pra tentar explicar o que a gente vem vivendo nos últimos quatro meses: não estar afim de ficar com outras pessoas; estar de buenas ficando só entre nós, simples assim. 

Sempre fui a rebelde da casa, daquelas que lutam com argumentos persuasivos pelo direito de não arrumar a cama. Isso fez com que eu me tornasse uma pessoa que não tem paciência pra depender daqueles que fazem parte da minha vida. Eu desabafo com alguns - poucos -, procuro ajuda deles quando preciso, mas sempre tento me virar sozinha primeiro. E estar namorando não quebraria essa independência que eu carrego comigo desde novinha. 

Na teoria é lindo ver como amar é libertador. Tirinhas de Facebook com passarinhos voando pra fora da gaiola tão aí pra provar isso. Colocar essa realidade em prática é outros 500. Agora mesmo eu nem sei onde meu namorado tá, pra vocês terem uma ideia. Fui no cinema com minha amiga de infância, voltei, esquentei um pedação de pizza no microondas e agora tô aqui, pedindo pelo amor do senhor deus maomé ogum pra que o ventilador da sala faça efeito. Quando paro pra pensar nesse detalhe tão simples, vocês não fazem ideia do quanto eu me sinto leve. Talvez a gente nem se fale antes de dormir, mas, se eu não morrer dormindo, teremos mais uma tonelada de dias pra conversar. 

Não sei como vai ser quando eu me mudar. Pra falar a verdade, eu nem sei onde vou morar, como vou me manter, com quem vou dividir o aluguel, nem qual órgão do meu irmão vou vender pra pagar minha passagem até lá. Meu namoro, assim como todas essas coisas, é algo que eu realmente não faço ideia de como vai ficar. Vou sentir saudade - dele e de todas as pessoas que me darão tchau do outro lado do ônibus-, mas, maior que a saudade vai ser a paz que eu sinto em saber que existe no mundo alguém como ele. 

A graça de viver é sentir as coisas intensamente, mesmo que elas cessem logo. É não ter medo do desconhecido, nem de se desprender. É saber que desapego é uma das chaves para uma respiração mais tranquila e pra'quela satisfação imensa em estar respirando. É saber que todo amor é livre, pois amor sem liberdade é qualquer outra coisa, menos amor. 

Ficando com uma pessoa ou com várias, não importa: amar livremente vai muito além de banners de John Lennons e Yoko Onos peladões com um monte de hippies pelados também na grama e fontes vintage bem desenhadas (tudo sem vírgula) dizendo "Viva o amor livre!"; amar com liberdade é ir além da superfície: é mergulhar sem saber em que ponto dela irá retornar. 

Amar é deixar ir.


Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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