Sobre o adulto perfeito

12/02/2015


Eu costumava achar que ter 18 anos era a coisa mais adulta que poderia acontecer comigo. Via aquela galera toda da Vagabanda, lá na época que Malhação não tinha hispsters, e achava o máximo aquele pessoal grande, inteligente, resolvido com a vida. 

Daí eu me tornei 'de maior' e vi que não tinha nada de diferente. A coisa mais rebelde que fiz foi virar vegetariana aos 15 e, sei lá, perder o horário da escola de propósito. Então o meu foco mudou: a vida mudava mesmo era depois dos 20. Ter um 2 na frente da minha idade me proporcionaria toda a formação intelectual e eu saberia lidar com todos os problemas da vida, afinal, já seria uma adulta.

Vou fazer 21 em junho e isso não aconteceu. Quando sinto que tô driblando os problemas da vida, sempre vem um e VRÁ na minha cara, com um leque daqueles de Nany People e me faz voltar ao zero. Vivi muitas coisas incríveis, mas não me sinto adulta, não me sinto preparada pra qualquer coisa. Então me foco nos 25. Quando eu fizer dois ponto cinco tudo vai mudar. Vou virar adulta mesmo (talvez a vida tenha atrasado um pouco toda a maturidade que tinha para me dar).

Só que eu sei que não vai. Então eu mudo o olhar e penso nos 30. Cara, ter 30 anos é muito distante... Não, pera, faltam só 9 pra eu chegar lá. Será que em 9 anos eu vou ser o adulto que eu quero me tornar? Sério, porque eu sinto que ainda não deixei de ser adolescente. 

Talvez aos 40 mude. Vou ser gente grande de verdade, sabe. Pode morrer alguém querido, que vou saber lidar muito bem; posso perder o emprego que nada vai me abalar; posso ter meu coração partido por algum relacionamento futuro, mas não vou me enfraquecer. Estarei convicta. Aos 40 poderei tudo. 

Não.

Então pulemos toda essa coisa de 45, 50, 60 e todas as meias idades possíveis e vamos direto aos 80. Cara, aos 80 vou ser foda. Vou ter muita coisa pra contar e nenhuma fraqueza. Poderão falar o que quiser, mas foda-se, terei 80 anos.

Que estranho. Terei vivido todos esses anos buscando ser uma mulher adulta firme e forte, que sabe enfrentar tudo o que aparece, sem derrubar uma lágrima sequer. Acho isso um tanto quanto bizarro. Então terei planejado um esteriótipo positivo de mim mesma enquanto a minha vida passava por mim, é isso?

Refletir sobre isso me permitiu enxergar uma resposta: eu nunca serei a pessoa perfeita que eu tenho na cabeça. Nem aos 20, nem aos 40, nem aos 80, mas é justamente sobre isso que a vida trata. Viverei sim, da melhor maneira que eu puder e farei todos os dias possíveis valerem a pena, mas jamais serei eternamente intacta, porque as coisas não são lineares. Nosso gráfico da vida é uma coisa tão louca, cheia de curvas, que é impossível querer ter controle sobre isso.

Nossos pais eram nosso supremo exemplo de perfeição, até que a gente percebe que eles são tão propensos a não saber lidar com problemas quanto a gente. Sofrem das mesmas fraquezas, em intensidades maiores ou menores. Talvez não tenham se tornado o que sonharam aos 18. Isso nos deixa sem rumo. Então, pera lá, toda a base sólida que eu criei do que seria um ser humano perfeito e adulto simplesmente não existe mais?

Exatamente isso.

De repente, eu notei que o que faz eu ser quem sou hoje aos 20 e o que fará eu ser a futura Manie aos 50, não é ter um super poder. O que fez eu ser quem sou são as coisas que eu vivi.  Me tornar vegetariana (e depois não ser mais), faltar na aula porque tava com sono, assistir Malhação em 2004, ter conhecido determinada pessoa, ter me afasto de outras, ter comido aquele bolo naquele dia, ter viajado pra'quele lugar, ter chorado por causa daquilo, ter morrido de rir por causa de outra coisa. Essa é a minha vida. E, segundo um livro que li uma vez, a vida é aquilo que acontece enquanto você faz planos.

Viva o ser humano imperfeito que há dentro de você.

Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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