Cansei de ouvir Paranoid Android

20/05/2015

Minha vida amorosa foi sempre baseada em voltar aos 3:33 de Paranoid Android repetidas vezes - e parar antes da guitarrinha começar de novo. Melhor ainda quando eu tava num ônibus, aquele tempo nublado, cabelo voando, olhos lacrimejando e cara de Eliana no barco*.
*cara de Eliana no barco: expressão utilizada entre mim, Cassio e Tadeu para expressar a feição que a apresentadora Eliana faz ao participar de matérias que envolvem barcos e paisagens bonitas, como, por exemplo, viagens ao Pantanal.



A vida é feita de decepções e superações. Só que algumas decepções viram trauma. Vejamos um exemplo: quando te prendem uma vez, você sente medo de se sentir preso de novo. É como alguém que nunca saiu de casa, de repente, ir pra Campos do Jordão e você falar pra essa pessoa que ela vai voltar pro quarto dela em 2 dias. 

Quando você passa por um trauma amoroso, o negócio é parecido com o exemplo acima, caso ele envolva sentimento de prisão. É 99% certo que você vá tatuar na testa frases como "monogamia nunca mais" ou "viva o amor livre". Vamos explicar duas coisas primeiro:

Amor livre: parafraseando esse texto, "(...) todo amor é livre, pois amor sem liberdade é qualquer outra coisa, menos amor".

E AGORA, APRESENTO A VOCÊS, A NOSSA MAIS IMPORTANTE AQUISIÇÃO:

Amor próprio: substância essencial, tanto quanto oxigênio e água; indispensável para solteiros, enrolados, namorados, adeptos do poliamor, ou seja, qualquer ser humano. E claro, se é amor, é livre, o que complementa esse item ao anterior.

Agora que já entendemos bem o que são essas duas coisas, vamos pensar um pouco: Somos sozinhos. Não importa o quão dependente sejamos de quem quer que seja, ainda seremos sozinhos. Nossos organismos estão separados e o que vem junto também (a que você pode apelidar de espírito, alma, sentimentos, o que bem entender). Então precisamos estar satisfeitos com o que somos, com o que estamos nos tornando, com o que estamos fazendo com a vida que temos. Porque, no fundo, quando isso não acontece, quem se fode é a gente mesmo.

"Nós aceitamos o amor que achamos merecer". Se você aprendeu a valorizar quem você é e a gostar tanto de si mesmo que gostaria que tivesse um 'outro eu mesmo' para poder ser seu amigo, parabéns, amor próprio completado com sucesso, vamos para o próximo item.


~AGORA PARTIU FALAR DO AMOR LIVRE~

EIS UM PEQUENO FATO: Todo relacionamento é livre quando as pessoas envolvidas são seres humanos conscientes. Não importa se isso envolve duas, três, dez pessoas, o que vai dizer se o amor ali envolvido é livre ou não são elas mesmas.

E a minha pouca experiência nessa área pode afirmar que não, migo, você tem grande chance de estar se iludindo em uma relação que acha que é libertária só porque não envolve apenas duas pessoas. Não adianta cantar John Lennon e ficar com ciume quando o cara que tu gosta fica com outra pessoa na sua frente. Pior: fingir que tá tudo tranquilo. Vamos ser mais honestos com nós mesmos. Vamos começar a respeitar nossos sentimentos.

A gente vive numa era que é difícil confiar em alguém. Quem tem mais de 2 amigos sai no lucro e não tem como negar essa realidade. Imagina então confiar em alguém pra amar? (tipo, de se apaixonar e tal). Nessa era de amores líquidos, como disse a autora desse texto, a probabilidade de encontrar alguém com quem a gente se sinta confortável pra se abrir por inteiro é quase nula. Vivemos num grande "onde está o Wally", e como a Mariana do filme Medianeras disse, "se mesmo sabendo quem eu procuro, não consigo achar, como vou achar quem eu procuro, se nem sei como é?". 


Muita gente desiste. Pior, pessoas jovens, que muitas vezes terão anos pela frente pra se deparar com alguém por quem valha a pena se apaixonar. E, quando encontram alguém bacaninha, fazem bom uso dos famosos joguinhos emocionais. Dá até pra entender o motivo: a gente tá tão acostumado a não ser especial pra ninguém que, quando somos, recuamos... É estranho pra gente. Pra isso existe joutjout: ASSISTAM!


O ponto que eu quero chegar é: não importa se é num poliamor ou num relacionamento monogâmico, cara, o princípio disso tudo é você saber que ambos são livres e que, acima de qualquer coisa, é essencial ter amor próprio. Logo, você pode estar tanto em um, como em outro, como solteiro e vai se sentir preenchido.

Não adianta falar horrores a respeito de relacionamentos 'fechados', dizer que é atraso, que é prisão, que é o caralho que for, porque gente, o problema não está na forma como essa relação se mostra, mas como seus integrantes estão preparados pra isso. Se entregar requer preparo, principalmente no que diz respeito às superações. Da mesma forma que é necessário estar preparado para se entregar a um relacionamento aberto, sabendo o quão honesto você está sendo consigo mesmo em dizer que "fica de boa" com determinado acontecimento. Quanto menos traumas, mais livre você vai estar pra se relacionar da maneira que achar melhor.


É libertador perceber que, na realidade, eu não tinha as vontades que eu criei. Vontades essas que foram criadas como precaução de uma possível futura "prisão". "Não, eu não nasci pra me fixar a uma pessoa" ou "agora vou entrar numa fase nova, vou conhecer pessoas, quero estar livre pra ficar com quem eu quiser". Pra que tudo isso, Manie? Se você, leitor, se sente bem assim, sério, peço que siga seu caminho e faça o que te faz feliz, porque é pra isso que estamos aqui. Mas eu não sinto que determinadas coisas agreguem de verdade algo a mais na minha vida.

Tive que provar pra ver e a conclusão que cheguei foi: tanto faz ficar solteira numa sexta-feira pra ficar com quem eu quiser. Não me acrescentou e nem me tirou nada ter experimentado tudo isso. Não só desconhecidos, mas pude ficar com pessoas que eu gostava também, de alguma maneira, mas que só agora percebo que não é desse jeito que vai dar certo. Existem taaantas formas de amor que, no fundo, ninguém vai sofrer por conta do que decidi pra mim. De qualquer maneira, se "tanto faz", porque não escolher o que me fazia bem mesmo? Que me divertia, que me fazia me sentir especial, que compartilhava seus sonhos comigo, que imaginava mil e uma coisas ao meu lado?

Foi aí que percebi cada vez mais que quem eu realmente queria não estava ali, naquela noite de sexta, mas em outro lugar, tentando compreender essa minha necessidade tão grande em não namorar com ele. E olha, não deve ter sido nada fácil pra ele aguentar essa minha euforia-com-a-vida-vou-beijar-todo-mundo-isso-que-é-liberdade. Mas ele aguentou. Deve ter chorado pra caralho em alguns momentos, mas se tem uma coisa que eu nunca ouvi sair da boca dele foi "Manie, volta a namorar comigo porque você está me fazendo sofrer".

EU PAREI.
PENSEI.
E DECIDI.

Não consigo saber que existe um filme chamado Like Crazy e que eu tô abrindo mão de sentir tanto a idealização quanto a realidade da maneira mais intensa por causa de medo. Medo de me sentir isso, aquilo, presa, acorrentada, algemada, porra, Mariany! Acorda!

Vale muito mais a pena sentir o gosto do que a vida está me dando agora e ter certeza que vai valer muito mais a pena ainda esperar quatro, cinco, seis meses pra sentir aquele abraço, do que achar que tô me satisfazendo todo final de semana, com quem aparecer. Tanto aqui quanto a 13 horas de distância, quando eu me mudar. E lhes digo: não é privar minha liberdade. Liberdade é fazer o que você quer. Se eu, no fundo, não quero fazer algo, logo não tô me privando de nada.

É incrível como eu só reparei isso há tão pouco tempo. Foi sorte eu ter parado com essa ideia de enxergar problema no tipo de ligação e não em como ela ocorre. No meu caso, foi a monogamia, ou o relacionamento dentre duas pessoas, ou o que queiram chamar. Sei que quando eu chegar numa determinada idade e olhar pra trás, vou ver que não perdi uma oportunidade - por muito pouco - que poucos tem. A oportunidade de achar o bonequinho de roupa listrada vermelha e branca no livro da vida.

Daqui a algumas semanas, vou entrar naquele ônibus sabendo que tomei uma das decisões mais bonitas da minha vida. Vamos acordar juntos, mas separados, desejando bom dia um pro outro e contar como foi o dia antes de dormir. Vai ter dia que não vou nem conseguir Wifi, mas a gente dá um jeito. Só de saber que tem no mundo alguém que faz tanta questão da minha companhia, eu já tenho uma pequena noção do que é me sentir amada. E o melhor: livre de verdade pra fazer o que eu realmente quero.

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8 comentário (s)

  1. Ah, Manie, seus textos sempre ótimos... Muito legal a mensagem de amor-próprio e liberdade que você passou em suas palavras. Eu concordo! E mais: também assisto à Jout Jout, hehe ♥

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  2. Primeiro, hahahahahahahahahahahaahahahahaa! "Cara de Eliana no barco"? Melhor frase da vida.
    E sim, você está certa: amar tem tudo a ver com se libertar. Quanto ao seu penúltimo e último parágrafo, me identifiquei pacas, pois, não sei se vc sabe, eu namoro há mais de dois mil km de distância há quase 5 anos. E olha, se é o que você quer, então dá certo. Fiz uma escolha, decidi ficar com ele, apesar de. E sabe, se eu não tivesse escolhido isso, talvez não fosse tão feliz. Nem tão livre.

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    1. nunca acreditei em namoro à distância. sempre achei que fosse fingir estar namorando, sabe? até que eu abri os horizonnntes e percebi que tem sim como namorar à distância, só que ao invés de ver meu namorado 1 vez na semana, vou aguardar alguns meses.
      muito ansiosa :3

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  3. Que texto maravilhoso. Fico feliz em saber que você descobriu esse segredo maravilhoso da vida: ser livre. Pra se amar, e amar como quiser.
    O que eu SEMPRE digo, amor não tem regra. É tanto tipo de amor, e tantas formas de se relacionar por causa do amor, que cada um cria seu próprio amor e cada um cria sua própria forma de se relacionar. Não é porque não deu certo com outro que não dará com nós e vice-versa.

    Like crazy me deixou louca quando eu vi, essa cena do banho, nossa! Depois desse post sinto que preciso rever.

    Felicidades nesse novo rumo! <3

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    1. exato, sarah! amar com regras nem sempre é realmente amar, né?
      like crazy: morri assistindo.

      obrigada por comentar ♥

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  4. Manie.. seu texto tocou em mim de uma forma tão direta. O video da Jout Jout veio pra dar o tapa na cara que tava faltando pra eu cair na real e encarar a vida de uma outra maneira. Adiantar o sofrimento por medo de sofrer mais posteriormente.. como ela disse no video: tá tudo errado! Obrigada por compartilhar seus sentimentos. <3

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    1. ♥♥♥♥ jout jout é a psicóloga de todos nós!

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