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18 de maio de 2015


Daí vocês falam pra mim: ué, o dia das mães já passou. Datas, sempre datas. Eu sou o tipo que quando faz mais um mês de namoro, vira pra Vinicius às 23h56 e fala:

"nossa, cara, fazemos 3 meses hoje" 

e ele diz:

 "nossa, é verdade"

 e eu continuo: 

"mas tipo, como eu ia dizendo, o projeto do vestibular..."

Não ligo muito pra esse tipo de data, porque muita gente força uma imagem que não é real, sabe? Fica postando mil declarações só porque é o dia de fazer isso. Até postei uma foto com minha mãe no domingo retrasado, mas sabe, nem significou tanta coisa, principalmente pra ela. Prefiro fazer esse tipo de coisa quando dá vontade, tipo agora. 

eu incomodada com gente atrapalhando meu almoço, como de costume

Ela não perdia uma reunião na escola, nem apresentação daquelas que a tia veste da gente de coelho e faz a gente cantar "comi uma cenoura com casca e tudo tão grande ela era fiquei barrigudo" - e claro que ela se acabava de chorar vendo essa cena um tanto quanto deprimente, mas linda pra ela.

Quase teve um infarto quando descobriu que ganhei uma medalha de 'melhor companheira da classe', em 2003, quando eu tava na terceira série. O mesmo aconteceu quando meu irmão recebeu o prêmio de melhor aluno do Camps, dia em que ela protagonizou na íntegra uma verdadeira fã de Beatles no show deles. 

Viu de perto eu me tornar rebelde-em-crise-existencial, aos 15, fazendo perguntas do tipo "por que o mundo é assim?" e, sem saber muito como responder, dizia: "porque é, agora come logo esse macarrão". Me botou em psicólogo, em centro espírita, fez reza braba, mas não adiantou, só fiquei mais revoltada com tudo e hoje sou esse ser humano super questionador que estraga tardes de terça-feira falando sobre racismo e homofobia.

Talvez ela se questione se foi boa o suficiente e eu digo que sim. Não é só porque ela não tinha todas as respostas na ponta da língua junto com todas as soluções pros meus problemas que eu não deva considerar tudo o que ela faz por mim até hoje. Mãe não é aquela pessoa que precisa ser perfeita sempre, acolhedora sempre, fofa sempre, gente. Mãe é um ser humano. 

Já ouvi muito minha mãe dizendo "desde que você e seu irmão nasceram, deixei de ser Marcia pra ser mãe da Manie ou mãe do Gugu". Hoje sei que isso não é verdade. No dia-a-dia, desempenhamos um monte de papeis, seja o de professora, irmã, namorada, aluna, filha, mas, acima de tudo isso, somos nós mesmos, seres humanos com nossas qualidades, defeitos, opiniões e sonhos.

Sei que sou uma construção social, mas os abraços e beliscões dela fizeram parte disso. Sou grata por nunca ter apontado o dedo na minha cara e falado 'você vai estudar em tal faculdade e vai trabalhar com isso querendo ou não' ou 'para de comer tanto, você vai ficar gorda'. Nunca me impôs que eu me maquiasse, alisasse o cabelo, namorasse pra mostrar pros familiares que 'sou de família' ou dissesse "caralho, tá estudando pro vestibular há 5 anos... tá pensando que é festa?".

Um ou outro comentário é sempre motivo pra gente discutir, mas sei que no fundo, muitas vezes ela sabe que eu não tô viajando. E isso não é errado, porque a relação de mãe e filho tem que ser recíproca, ou seja, eu também posso mostrar novas ideias pra ela e esperar do fundo do coração que ela as considere. Quando falo "você não é obrigada a fazer isso" e ela me deixa falando sozinha ou muda de assunto, sei que não tô agindo errado. Cada um tem um tempo. Não preciso exigir que minha mãe faça um big chop, comece a ler Simone de Beauvoir e saia militando comigo nas ruas. O que me faz feliz é saber que de alguma forma eu estou contribuindo pra que ela desconstrua muitas ideias que se passavam por normais e que a gente sabe que não são.

Sinto que eu deveria ser mais 'amiga', especialmente por todas as perdas que ela já sofreu, em relação à amizade, mas nossa relação nunca foi do tipo "e os gatinhos, como estão?". Tem dia que gostaria de dar algum conselho pra ela da mesma maneira que daria pro Tadeu, mas nem sempre isso funciona de uma maneira natural. Então tento ajudar de outra maneira, direcionando ela pro caminho que eu sei que é o melhor. 

Só depois de mais velha, fui perceber que minha mãe se preocupava de um jeito exagerado em relação a mim, ao meu irmão, ao meu pai, aos meus avós, ao Bob, e talvez continue sendo assim sempre, porque é inevitável que um amor tão grande quanto ao que ela tem por nós não gere nem um pouco de preocupações. Mas comecei a lembrá-la que acima de nós todos estava ela. Que ter 44 anos não é sinônimo de "não da tempo de fazer mais nada por mim". Que nunca é tarde. Tanto que depois de 2 anos insistindo pra ela voltar a estudar, posso dizer que hoje, enquanto escrevo este texto, ela tá no curso de enfermagem, que tanto quis fazer e sempre achou que seria bobeira pensar isso agora.


Agora chegou a minha hora de seguir meu caminho, um tanto quanto longe de casa. Minha mudança está programada para julho e só ontem comecei a sentir que isso era mesmo real. A ficha tá caindo. Vou sair da casa dos meus pais e do colo da minha mãe, pra descobrir o que tem fora dessa zona de conforto. E, claro, ela está me apoiando de uma maneira inexplicável, mesmo que queira dizer "pelo amor de deus fica aqui pra sempre não vai embora nunca" assim mesmo, tudo sem vírgula. Topou esquentar a bunda comigo por 13h até Florianópolis só pra fazer a minha tão sonhada matrícula no curso de Jornalismo, na UFSC, e tá tentando ver tudo isso da maneira mais natural possível. 

Daqui a algumas semanas seguiremos separadas por alguns quilômetros, mas nada disso vai abalar nossas estruturas. Continuaremos sendo mulheres incríveis, cada uma com algo bom pra passar pras outras pessoas. Aprendi muito com ela e sei que ela também aprendeu muito comigo e isso jamais vai acabar. 

Sentirei falta de detalhes que acontecem entre nós de vez em quando, como um café + torta de morango na rua ou aqueles abraços que a gente mais rebola que abraça. Não sei o que vai ser do futuro, se eu vou voltar a morar com ela ou se vou voar mais pra longe ainda. Só que de uma coisa eu sei: se eu não ligar o Skype uma vez ao dia ela vai de jet ski até minha nova casa e interpretar de um jeito inegável a Rochelle

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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