Não é difícil perdoar

11 de maio de 2015

"(...) Creio que serás o primeiro a cansar... Um dia, olharás o teu amigo e ele te parecerá que já não é o mesmo; não mais apreciarás a sua tez ou outra qualquer coisa... Hás de condená-lo no teu íntimo e acabarás por pensar que se portou mal contigo. No dia seguinte, te sentirás perfeitamente calmo e indiferente. Será lastimável, porque isso te transformará... O que me disseste é romance, um romance de arte, direi, e o mais desolador é que te deixará uma recordação pouco romanesca."

O Retrato de Dorian Gray, por Oscar Wilde | página 24.


Somos dramáticos. Mesmo sem perceber, apreciamos muito um bom drama. Não precisamos necessariamente buscar esse tema em novelas, livros e filmes, pois, querendo ou não, ele está presente em nossas vidas diariamente. Na minha então, nem se fala. Sou mais dramática que a discografia inteira de Radiohead tocando ao mesmo tempo num quarto escuro.

Por mais equilibrada que a pessoa seja, sempre vai ter alguma pequena dúvida crescendo ali dentro de si, que muito provavelmente vai ser tornar uma puta insegurança. Não venha me dizer que você, leitor, tá livre disso e que vive super tranquilo sempre. Pode ouvir o John Lennon que for, fumar a maconha que for, morar em um casebre no meio do mato, não importa. Ser dramático faz parte do ser humano.

Os nossos problemas são sempre os mais difíceis de solucionar. A decepção do outro sempre vai ser menor do que a nossa e mesmo que nos digam "vai passar", sempre achamos que vamos comemorar nossos 87 anos lembrando da mesma história de sempre, aquela que nos deixa com um nó na garganta toda vez que é lembrada, nos causando certa dor.

Quando falo de dor, não meço sua intensidade. Pode ser uma frase mal intencionada na fila do pão ou uma traição. Toda dor, dentro do seu contexto, é grave. Se não fosse grave, não seria dor. Só quem sabe o que realmente nos magoa somos nós mesmos e não adianta que apontem em nossas caras dizendo "isso é bobeira... pra que se importar com isso tanto assim?". A decisão se aquilo foi digno de dor vem de dentro de nós e não é algo que escolhemos sentir. Afinal, quem gosta de sentir dor? Pior: quem gosta de demonstrar que está sentindo essa coisa tão negativa? Queremos sempre estar sorrindo, ser pacientes, compreensíveis, únicos aos olhos dos outros. Ninguém quer fechar a cara de propósito e parecer um velho ranzinza. Queremos ser perfeitos.

Porém, tudo isso passa. Quando a gente se decepciona com alguém, por exemplo, temos um determinado tempo para conseguir abstrair o motivo pelo qual ficamos desse jeito. O problema é que muita gente ainda possui uma coisinha chamada orgulho, que não permite que ela diga "que bom, não estou mais chateada com tal pessoa". Isso faz com que o indivíduo passe semanas, meses e, muitas vezes, anos forçando uma mágoa que já não existe mais. O que existe ali é orgulho. Medo de dizer que perdoou. Medo de fazer aquela dor que era tão intensa se tornar banal, assim, depois de um determinado período.

Nenhuma dor é eterna. Até a coisa que mais nos magoou, aquela que está no ápice das mágoas de toda a vida, vai perdendo a intensidade com o passar do tempo. Para reavivá-la em nossa mente, precisamos fazer um esforço muito grande e nos transportarmos ao passado, momento no qual vivemos esse sentimento ruim na sua mais pura forma. Isso nos impede de perdoar. 

Temos medo de nos tornarmos vulneráveis novamente às mesmas coisas que nos fizeram sofrer em outros tempos. Somente nós mesmos sabemos o quão difícil foi superar muitas delas e só de pensar em viver algo parecido e ter de fazer todo o esforço de novo, mesmo que seja em outra realidade, nos deixa desesperados. Assim, nos trancamos em dores que já passaram, mas que insistimos em trazer ao presente e, dessa forma, nos fechamos para qualquer outra experiência. Quando percebemos isso, vemos que além de estarmos repletos de orgulho e consequente falta de perdão, estamos privados de viver sentimentos bons.

É necessário perdoar. Digo mais: não é difícil. Pode parecer impossível agora, mas saiba que daqui a um tempo, não importa quanto seja, as dores não serão mais as mesmas e poderemos ser honestos com nós mesmos.

Guarde coisas boas das pessoas, principalmente se forem seus amigos. Não abdique de amizades por causa de orgulho. Não queira comemorar seus 87 anos lembrando de decepções da festa de debutante. 

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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