O retrato de Dorian Gray

12 de junho de 2015

ANTES DE MAIS NADA, estive ausente - bastante ausente - por motivos de 1) meu aniversário, 2) viagem pra Bertioga e 3) meu computador ter pifado e eu estar usando um notebook muito zoado (daqueles que você sussurra "cavalo de tróia" e ele te narra Ilíada na íntegra). Estava morrendo de saudade de escrever aqui e quero dizer que tem vídeo chegando no canal sobre minha festa de despedida feat. aniversário em breve! Desde já, muito obrigada pelos comentários no último post!

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Eu achava que esses livros com edições econômicas fossem proibidos de ler, sabe? Pensava "nossa, nunca vou conseguir ler um livro de páginas brancas com essas letras miúdas e blablabla", até que minha situação era tão econômica quanto as edições, então parei de preconceito estético-literário e mandei ver. Comprei O Retrato de Dorian Gray (escrito por Oscar Wilde) na minha última ida à Saraiva, junto com o Fahrenheit 451, já resenhado aqui no blog.


Estamos em Londres, na Era Vitoriana. Dorian Gray é um rapaz que atende aos padrões de beleza da época e acaba ganhando o coração de Basil Howard, um pintor gente boa. Este sugere que o rosto de Dorian seja eternizado através de uma pintura e ele aceita numa boa.

Ao finalizar a pintura, Basil fica totalmente comovido com a obra que acabara de fazer. Segundo ele, "todo retrato pintado com sentimento é um retrato, não do modelo, mas do artista.". Isso nos mostra que a alma e os sentimentos do pintor estavam no quadro tanto quanto a imagem de Dorian. Era, portanto, uma representação do que ele mesmo sentia e não somente da beleza do modelo. 

Até que entra na história uma das personagens mais nojentinhas (e machista num nível inexplicável) de todos os tempos, o Lorde Henry, que enche a cabeça do jovem Dorian com ideias do tipo "você vai ficar velho e feio, diferente do seu retrato, o qual permanecerá eternamente jovem". 

- (...) O senhor possui uma juventude admirável e a juventude é a única coisa desejável.
- Eu pouco me incomodo.
- Pouco se incomoda... agora. Um dia virá, quando estiver velho, enrilhado e feio, quando o pensamento lhe houver sulcado a fronte com a sua garra e a paixão marcado os seus lábios de estigmas desfigurantes, um dia virá, dizia, em que se há de incomodar amargamente."


Desesperado ao refletir sobre as palavras de Henry, Dorian Gray começa a correr em círculos e resolve fazer um pacto, num acesso louco de narcisismo: ele permaneceria jovem pra sempre e seu retrato envelheceria. 

Atendido o seu pedido, o jovem vê todos os podres da vida que passa a levar sendo estampados no retrato e não em sua própria face. Torna-se um adulto rico muito mimado, que sequer consegue acordar sem a ajuda do mordomo, que lhe entrega tudo de bandeja - literalmente. Gente, eu não tô acostumada com essas frescuras, então me dava nos nervos ler trechos em que Dorian parecia um príncipe. 

A impressão que eu tive foi que Basil e Henry disputavam "quem ia formar a personalidade do Dorian", porque no começo do livro, o jovem rapaz quase não tinha opinião formada sobre as coisas, estando, portanto, totalmente suscetível a influências externas. Inclusive, na edição que comprei, há alguns comentários de Alcione Gonçalves, que compara Basil à figura da mãe e Henry à figura do pai, em relação ao Dorian. Segue um trecho do seu comentário:

"Basil apresenta-se como a mãe que se projeta no filho (...) Dorian Gray deverá ser um total reflexo da personalidade de Basil ou a plena realização de Lorde Henry."


Dorian é tão influenciável que se eu chegasse pra ele e dissesse que as vacas vieram dos tomates, ele provavelmente acreditaria. Por isso, no início ele era uma personagem que eu adorava, mas depois se tornou um homem tão ridículo quanto o Lorde Henry, que fez a sua cabeça de todas as maneiras possíveis. 

A leitura pode não ser tão simples como a de um Young Adult, mas não é difícil, garanto. Não precisei usar dicionário, nem reler os parágrafos pra compreender melhor. Tudo fluiu bem natural e foi muito interessante me deparar com uma narrativa diferente, com construções frasais que a gente já não usa atualmente, mas que nem por isso se fizeram difíceis de entender. 

Oscar Wilde surpreendeu a época em que publicou o livro (1890, primeiramente em uma revista mensal) e os editores cortaram um monte de coisas que eles não achavam "viáveis". Isso porque o autor expôs duas coisas que magoam a moral de qualquer sociedade conservadora: 1) um homem se apaixonar por outro homem e 2) os podres da aristocracia e toda sua vida mesquinha e egoísta. 

E sabe o que me deixa meio chateada? Imaginar que hoje ainda tem gente que leria um livro desses e teria a mesma opinião dos críticos e editores da época. Estamos em 2015, mas tem gente que insiste em permanecer na Inglaterra do século retrasado. 


ISBN: 9788544000120
 Editora: Martin Claret
Páginas: 254
★★★★✫

Onde comprar: Cultura  / Saraiva / Submarino

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Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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