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15 de julho de 2015

Às vezes eu sinto que a humanidade tem salvação. Daí eu abro o Facebook. 

Andou circulando essa semana, na internet, um vídeo de um rapaz sendo espancado por ter tentado roubar uma moto. Não vi nem 2 segundos quando percebi do que se tratava porque simplesmente não tenho estômago pra isso, mas não é difícil concluir que ele foi pisoteado até a morte. Se ele não foi, teve sorte, porque muitos que passaram pela mesma situação tiveram esse trágico fim.

O mais doentio é ver gente apoiando essa prática. Pessoas que aplaudem os famosos justiceiros afirmam que a cadeia não resolve, então acham normal espancar o possível* bandido até a morte. Possível*: vale lembrar de casos como o da moça acusada injustamente de estuprar crianças, que foi espancada até a morte, no Guarujá.

Não foi vendo debate em rede social que eu formulei minha opinião sobre fazer justiça com as próprias mãos, mas ouvindo o que minha mãe dizia quando eu era pequena: é errado bater no coleguinha quando ele faz algo errado, ok?. Tanto que eu nunca me enfiei em briguinhas pós aula, daquelas típicas de ensino fundamental, nas quais os alunos se reuniam pra assistir a um verdadeiro espetáculo de luta livre e aplaudiam.

A atitude dos que apoiam os justiceiros me lembra do que estudei em história, no ensino médio: várias pessoas iam ao Coliseu, no período do império romano, pra assistir a morte de gente acusada de praticar algo contra as regras, seja roubar um pão ou, pasmem, ser cristão. Por que isso choca tanto quando estamos diante de um livro didático e nos é tão natural quando o Datena fala?

Sabe qual o problema? Muita gente ainda vê o Capitão Nascimento (ao qual o próprio ator Wagner Moura se opõe) como herói. Acha que o rapaz que foi pego assaltando deve ser sim jogado de um penhasco, pisoteado até morrer ou viver uma vida de merda pra sempre, pra "aprender a ser bom". Muito ser humano só é humano no nome. "Mete bala mesmo", eles dizem. Parecem olhar a situação toda do camarote, com o nariz em pé e brindando com convicção tamanha atitude nojenta.

"Você não apoia essa ação porque nunca levou facada na rua". Já fui assaltada 5 vezes em 21 anos de vida, uma delas na porta da minha própria casa. Em todas elas eu fiquei morrendo de medo, nervosa, tremendo, mas nunca desejei mal pras pessoas que me assaltaram. Se eu senti raiva de alguma coisa, não foi delas, mas do sistema ao qual todos nós estamos submetidos e que propicia o acontecimento de toda essa violência. 

Talvez você discorde de mim e fale que o bandido fez porque ele é malvado, então sugiro que assista ao filme Querô (veja o trailer aqui). Dar violência a um ser humano que provavelmente nunca soube o que é amor não vai fazer diferença nenhuma na vida dele. Ele vai nascer e morrer sem nunca ter sentido o que é "correr o risco de perder algo", porque quem não tem nada a perder não vai se comover vendo um ladrão ser espancado; vai é continuar roubando. 

Certo, o bandido cometeu um crime. E as pessoas que o espancaram, muitas vezes até a morte? O que elas são? Justiceiros? Adultério era considerado crime até pouco tempo atrás, por parte da mulher. Se eu fosse homem e fosse traído, seria natural que eu amarrasse minha esposa num poste e chamasse 20 pessoas pra baterem nela? E essas pessoas que fizeram a tal da justiça? Não estão se contradizendo? Afinal, espancar alguém é crime e matar muito mais ainda. Por que elas não são condenadas?

INCLUSIVE, não sei se vocês sabem, mas muitos assassinos matam determinada pessoa porque esta fez algo que eles acham injusto/errado/inaceitável. Traiu? Mato! Não me pagou? Mato!. Dá pra perceber o quão sem noção é defender uma coisa dessas? Estaríamos legitimando qualquer tipo de assassinato que não seja por pura psicopatia. Matar o vizinho porque ele ouviu música alta seria liberado, afinal, foda-se a constituição, achei um absurdo, matei.

Justiceiro, pra mim, é tão criminoso quanto o rapaz que amarraram num poste. Sinto nojo de ver um vídeo desses, mas não só pelo excesso de sangue que é mostrado e sim pela naturalidade e superioridade com as quais essas pessoas agem dessa maneira. Porém, infelizmente, ainda vemos a maior parte da população sendo a favor dessa situação porque muitas delas estão acostumadas a matar geral no Call of Duty e esquecem, mesmo por um minuto, que na vida real é diferente. 

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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