"A maior aventura que você pode fazer é viver a vida de seus sonhos"

23 de setembro de 2015

Pra começar um texto com frase da Oprah é porque o negócio é profundo mesmo. 


Quando eu pensei em sair de Santos e vir morar a 700km da minha antiga casa, eu tinha em mente o lado ruim de tudo isso, mas a parte boa sempre foi maior. A sensação de estar prestes a realizar um dos grandes sonhos que era entrar em uma universidade federal - com árvores - e aprender a me virar sozinha era maravilhosa. 

Me sentia tipo num on the road, sabe? Ou naquelas fotos de tumblr em tons pasteis com minhas malas, rumo à nova jornada. Tudo muito poético e propício para que e me sentisse livre, conquistando meus sonhos, cada vez mais independente e com um monte de histórias pra contar.

A despedida não foi fácil em alguns itens - itens: meus avós e o Bob -, mas quando cheguei aqui foram tantas novidades e coisas pra por em ordem que eu mal tinha tempo pra me afundar em bad vibes ouvindo Radiohead. Finalmente teria um quarto só pra mim e lavaria a louça quando eu bem entendesse; conheceria pessoas novas, com sotaques diferentes; teria uma rotina muito diferente da que eu estava vivendo meses antes de me mudar; passaria a controlar meus gastos muito mais do que antes (e descobriria que eu sou chata pra caralho com isso); descobriria que leite estraga depois de 3 dias na geladeira e que devo prestar muita atenção antes de subir alguma ladeira aqui em Floripa: ela pode não ser a ladeira certa.

Burocracias? Nem se fala! Fazer um novo cartão de ônibus (e dizer adeus ao que eu usava em Santos, cujo saldo parecia ser eterno), correr atrás de um chip com ddd 48, fazer carteirinha do SUS pra ter acesso ao HU (hospital universitário), comprar passes pro RU (restaurante universitário), enfim, praticamente fazer um novo conjunto de documentos essenciais pra minha existência aqui na nova cidade. 

Tudo certo, tudo organizado, tudo pronto. E agora? FOCAR EM DEZEMBRO! Férias, logo logo eu estaria em casa, reveria meus amigos e minha família; 
sentiria os cheiros antigos, os gostos de comidas que eu costumava comer lá; 
andaria do canal 1 ao 7 tranquilamente porque sei que lá não tem ladeiras que me obrigariam a fazer eventuais rapéis pra poder subir; 
chegaria em qualquer padaria e pediria "duas médias, por favor", sem ser chamada de esquisita; 
daria meus amados rolês no centro e ficaria de boa porque eu não precisaria esperar até as 5 pra pegar ônibus e voltar pra casa - e ainda levaria cinquenta nego pra dormir no chão da minha sala; 
comeria quantos hambúrgueres do Edson eu quisesse porque, afinal, é só 3 reais; 
pegaria o 54 num final de quinta-feira pra jogar video-game com o Vini e ligaria pra minha mãe falando que "já tá tarde, vou ficar por aqui".

Mas e o que eu conquistei aqui? Enquanto eu penso nos temakis que eu comeria sem dó em Santos, o que eu faço com os 15 passes do RU que estão na minha carteira? Enquanto penso na rua plana onde eu morei por 11 anos, o que fazer quando eu tiver que subir todo dia a ladeirinha até meu novo prédio? E o que dizer das inúmeras sensações e momentos legais que eu me privo, mesmo que sem querer, de viver aqui, por estar com a cabeça presa lá? Por que eu acho que nada vai ser tão divertido como as noites de sábado em que eu reunia meus amigos de lá pra comermos até morrer e jogar Just Dance até o pé criar calo?

Eu não estou numa colônia de férias da qual vou me retirar no fim do ano pra voltar pra casa. Aqui é a minha casa. Quando eu voltar pra minha cidade natal, terei em mente que, apesar de ter passado 21 anos lá, serei apenas uma turista (uma turista feliz demais, diga-se de passagem... mas ainda sim, uma turista). Não posso pensar que "dezembro vai chegar e tudo vai voltar ao que era antes por 3 meses, até eu voltar pra Floripa e iniciar um novo semestre na faculdade", porque não é pra isso que eu me esforcei tanto durante esse tempo todo. Estar aqui hoje significa muito mais do que madrugadas estudando química orgânica. Foi uma superação pessoal, depois de um acontecimento que eu pensei que fosse destruir minha vida. Eu consegui me desvincular de tudo o que me afastava desse sonho e hoje eu tô aqui, pensando em voltar pra Santos nas férias. A cada 10 coisas que compartilho no Facebook, reparei hoje que 9,5 são mensagens de "saudades" e "quando eu voltar, vamos ouvir essa música, hein!". Qual é o meu problema, afinal?

Mudanças são bonitas e inspiradoras, mas doem. Dói sentir que nada vai ser como antes, ou pelo menos não será na ordem que era no passado. Crescer dói. Nadar próximo à costa é uma aventura que todo mundo adoraria fazer, mas nadar longe até perder a costa de vista é como comprar uma passagem só de ida: poucos tem coragem. E se requer coragem, não é fácil. Volto a dizer: dói sim! Você perceber que não está vivendo temporariamente uma vida adulta, mas sim começando a viver essa vida de adulto sem voltar à vida de criança/adolescente que tinha antes. E a primeira fase desse jogo não é fácil. 

É como estar em abstinência. Você fica dez meses sem ver sua família, mas os primeiros 3 são quase insuportáveis. Não leiam isso num tom dramático - desliguem as músicas tristes -, mas num tom realista. Quando cai a ficha do que está acontecendo com a sua vida, você fica doido. É uma mistura de "quero voltar a viver tudo aquilo" e "tô muito orgulhosa de mim por estar conseguindo viver dia após dia do jeito que eu planejei". Nostalgia e admiração por si mesmo se misturam na sua mente. E é nesse momento que você precisa ter foco.

É preciso focar na alegria que é estar aqui, vivendo na prática o que eu passei anos planejando na teoria. Saber que tudo o que eu vivia antes está lá, bem onde eu deixei - embora algumas coisas mudem eventualmente -, que ninguém vai me deletar da vida e que eu vou poder sim viver tudo isso que eu citei lá em cima, com a maior intensidade desse mundo. Mas é importante demais, pelo meu bem estar daqui pra frente, saber que meu lugar agora é aqui e que futuramente serão outros lugares. Preciso ter em mente que quando a passagem é só de ida eu não estou fazendo um mochilão: estou mudando a minha vida. 

É minha obrigação - a qual eu dei a mim mesma, no caso - fazer a minha vida ter sentido pra mim. Se eu ficar atrás do computador vendo a realização alheia eu nada terei além de inspiração. Inspiração é bom? Sim, é um combustível essencial, mas não posso parar só nela. Tenho que saber o que fazer com ela. Foda-se se vai ter momentos que vou chorar comendo chocolate e vender arte no semáforo pra comprar passagem pra Santos. Eu supero. É isso mesmo, vida: pode me dar o que quiser, porque eu vou superar sim. Até porque, como eu sempre digo - e isso ainda vai virar rodapé de livro conceitual -, camarada: se você não fizer isso por você, ninguém mais fará. 


Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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