Sobre relacionamentos abusivos

4 de dezembro de 2015

{vou deixar trechos dessa música espalhados pelo texto, porque ela resume tudo o que eu escrevi}

Sempre evitei falar sobre o que estou prestes a escrever aqui hoje, porque não é algo que me traz boas lembranças. Além disso, praticamente ninguém ao meu redor consegue compreender exatamente o que eu passei e a última coisa que eu queria era que isso parecesse um desabafo qualquer.  

Só que algumas coisas me fizeram enxergar que existe muita gente passando pelo o que eu passei, com intensidades diferentes ou semelhantes. A primeira coisa que me fez pensar em escrever sobre isso foi o que eu li alguns comentários do #meuamigosecreto e outras hashtags do tipo. Além disso, comecei a acompanhar uma série chamada Jessica Jones, que tá fazendo muito sucesso no Netflix, e também aborda o que vim falar. Foi aí que percebi que esse assunto está muito mais presente na vida de outras pessoas do que eu pensava. 

Hoje, com a Jout Jout e tanta informação sobre isso, a gente acaba se inteirando mais sobre o tema, mas na época em que eu vivi essa realidade, não sabia nem que tinha nome: relacionamento abusivo. Essa denominação, à primeira vista, parece um tanto agressiva demais. Naquela época eu jamais chamaria meu relacionamento de abusivo, porque soaria negativo e eu não sentia que o que eu vivia era tão negativo assim. Hoje eu percebo que, justamente por eu não enxergá-lo dessa maneira, ele correspondia à denominação. Eu vivi um relacionamento abusivo e quero usar a minha experiência pra ajudar outras pessoas. E há alguns dias, completou 2 anos que me libertei. 

Não é tão simples perceber que a gente tá vivendo uma situação dessas quando ela não é tão nítida. Se o seu namorado não te obriga a tirar o batom vermelho, nem te bate, nem te impede de sair com seus amigos, não é tão fácil considerá-lo um opressor. Eu digo namorado porque foi o meu caso, mas se você é um menino hétero e se identifica com o que eu passei, ainda que você faça parte de uma exceção, isso também serve pra ti. Aliás, se você é lésbica talvez isso possa acontecer também. Eu não sei o que é possível ou não, gente, só quero que isso atinja positivamente todo mundo que se identificar com a minha história. 

Como eu ia dizendo, é difícil reparar nos detalhes enquanto você está preso em um relacionamento abusivo. Principalmente se você é a única pessoa que conhece de verdade - ou a que mais se aproxima de conhecer - o seu parceiro. No facebook, nas festinhas ou na escola, a galera vai ver vocês como um casal fofo. "Poxa, quase 3 anos juntos, que amor!". E você até gosta que te digam isso, porque no fundo é o que você sonha em viver: um relacionamento fofo, que te faça sonhar. Parece até um mantra quando chegam pra você e dizem "Oun, como vocês são lindos juntos!", porque é justamente isso que você quer acreditar. Mas você sabe, lá no fundo, que isso não corresponde à realidade.

Você começa a namorar aquele carinha maneiro. É com ele o seu primeiro beijo e várias outras pequenas experiências sexuais. Ele é a primeira pessoa que te faz mudar o status do de relacionamento do facebook... Que gracinha! Vou poder contar pra todo mundo que tô namorando! 

Aos poucos, vocês vão se conhecendo e vão dividindo as inseguranças com o futuro, lá pelos 17 anos, época de fim de ensino médio e tantas dúvidas. Juntos, vão se afastando cada vez mais daquilo que a sociedade quer que vocês sigam. Não vão prestar vestibular, nem trabalhar, nem nada. Isso tudo é um absurdo. Por que ninguém consegue enxergar isso? Estamos sozinhos. Mas espera, talvez eu queira trabalhar ali na farmácia do bairro, sei lá, sabe, pra ganhar uma graninha. NÃO, NÃO POSSO. Isso é errado. Não vou me entregar ao sistema capitalista. Vou me juntar a você, no seu quarto, e vamos passar o domingo inteiro vendo televisão. E ai de mim se eu te falar da minha intenção de fazer algum curso. Só se eu levar junto uma justificativa bem plausível sobre como minha pequena decisão pode afetar positivamente a sua vida. Caso contrário, jamais. 

(...) You were my oppressor / Você era meu opressor
And I, I have been programmed to obey / E eu, eu fui programado para obedecer

Lembro bem do dia em que meu avô me trouxe em casa e começou a passar mal. "Mãe! Mãe! O vô não tá conseguindo sair do carro!", eu gritei pelo interfone. Logo desceu todo mundo e eu subi chorando pro apartamento, ligando o computador, sozinha em casa, esperando alguém pra conversar. E você estava online. E você ignorou tudo aquilo. E você disse que ficou a tarde toda muito mal porque eu não dei sinal de vida e, portanto, não pude ouvir seus problemas. E eu disse "Meu vô foi internado". E você disse "Não posso fazer nada". No dia seguinte eu me senti mal por te deixar sozinho em casa e ter te trocado pelos meus avós. 

(...) Behold my trance formation / Observe minha formação inconsciente
And you are empowered to do as you please / E você tem poder de fazer o que quiser
My mind was lost in translation / Minha mente se perdeu na interpretação
And my heart has become a cold and impassive machine / E meu coração se tornou uma máquina fria e impassível

Aos poucos fui deixando de ser a Manie pra ser o que você queria. Virei alguém que nem eu mesma conhecia e eu tinha consciência de que isso estava acontecendo. Mesmo assim, achava-me um ser humano muito bom por abdicar de tudo o que eu achava inspirador - e que você insistia em provar que não passava de ilusão - e fazer tudo pra te ver feliz. Mas você nunca ficava. Você tinha problemas. Não saía de casa, não tinha amigos e os poucos que tinham, até hoje, não devem fazer a mínima ideia do que realmente estava acontecendo com você. Só eu sabia. Depressão é uma palavra um pouco redundante, mas você estava bem insatisfeito com você, comigo, com a sua vida, com o mundo ao redor, e ninguém te ouvia. Eu fiz questão de te ouvir e tentar ajudar, mas minha capacidade humana não atingia o que você considerava a sua salvação. Mas eu tinha que dar um jeito e eu me cobrava disso. Te levei a comida gostosa que eu tinha em casa, te levei pra viajar, perdi comemorações em família pra estar com você. Às vezes eu te lembrava de tudo isso, mas você me julgava por estar jogando na sua cara. E eu só queria mostrar que você não estava sozinho.

Quando eu atingi o meu limite e já não era mais a Manie, tentei de todas as maneiras fazer o mundo ser bonito pra você. Recorri a tudo, até pro centro espírita eu te levei. Me afastei dos amigos que você achava que me influenciavam a voltar a ser quem eu era - ou seja, todos. Mas não deu. Percebi, aos poucos, que a pessoa que eu era implorava pra que eu voltasse a ficar bem. A fazer o que eu achava certo. Tentei, delicadamente, voltar a me dedicar ao que eu gostava. De-li-ca-da-men-te. Mas foi como uma adolescente chegando escondida de madrugada na casa dos pais, sem fazer barulho pra não acordar ninguém, sabe? E de repente, você acordou. E acordou furioso. 

Você me chamou de mimada. Idiota. Ignorante. Egoísta. E coisas piores. Mandou eu me fuder, ir pra puta que pariu, me culpou por estar voltando a ser o que eu sempre fui. Xingou meus amigos, xingou minha família. Eu não sabia mais se te dava 'oi' no facebook ou 'OI MEU AMOR' ou simplesmente não dava, porque não importa o que eu fizesse, estava errado. Então eu cansei. Cheguei no meu limite. Emagreci. Fiquei doente. A dor embaixo do peito me acordava todos os dias e isso não é metáfora, porque não faço questão nenhuma de ser poética aqui: era uma dor física mesmo. Uma puta dor do caralho. A ex chefe da minha mãe, que não sabia de nada da minha vida, chegou a perguntar pra ela se eu estava bem, pois tava muito abatida. Eu só tinha 19 anos.

Perdi as esperanças pra tudo. Nada mais fazia sentido. Todas as alternativas que me fariam bem não incluíam você. E, olha, parabéns, você conseguiu controlar a minha mente de um jeito espetacular. Como me libertar de um relacionamento desses se exatamente todas as minhas ideologias eram, na verdade, suas? Não era só questão de "adeus". Terminar com você e te tirar da minha vida era, ao mesmo tempo, negar tudo o que eu pensava que achava certo. 

Um dia eu acordei. Estava dormindo no colchão do quarto dos meus pais, porque não quis dormir sozinha. Minha mãe estava na minha frente, com uma caneca de café com leite. Ela olhou pra mim e eu chorei, da mesma forma que estou chorando agora ao lembrar de todas essas coisas que eu nunca gostei de falar. E eu lembro exatamente do que ela me disse:

- Se você não fizer algo, eu vou fazer.

Nesse dia, eu me olhei no espelho. Eu estava horrível. Meus olhos inchados e aquela dor no peito me apertando. Não entrei o dia inteiro na internet. Não quis falar com você. Foda-se se você estava mal, eu também estava. SIM, eu também estava. Esse tempo todo eu aguentei tudo em silêncio pra tentar transformar o mundo num lugar bom pra você se sentir bem. E naquele dia, de frente pro espelho, eu percebi que você NUNCA tinha feito NADA pra fazer o meu mundo ser feliz. Pelo contrário: você destruiu o que eu chamava de mundo. E foi foda reconstruir.

Leave me alone / Me deixe em paz
I must disassociate from you / Eu devo me desassociar de você

À noite, você me mandou um sms pedindo pra eu entrar no facebook. Eu entrei. Perguntou se era isso mesmo que eu queria. Eu disse que sim. E você disse "segue seu caminho". Senti como se a porta do céu tivesse se aberto pra mim. Mas na verdade, era a Manie que estava voltando a ser quem ela tinha deixado de ser há muito tempo. Eu falei 'tabom'. 

TABOM! 
Foi o fim e o começo. 
E que puta começo maravilhoso na minha vida!

(...) I won't let you control my feelings anymore / Eu não deixarei você controlar meus sentimentos
And I will no longer do as I am told / E eu não vou mais fazer o que me mandam
And I am no longer afraid to walk alone / Eu não tenho mais medo de andar sozinho
Let me go / Deixe-me ir
Let me be / Deixe-me ser
I am escaping / Eu estou escapando
From your grip / Do seu domínio
You will never own me again / Você nunca será meu dono novamente


Segui meu caminho.

Se alguém que tá lendo esse texto até o final também quer seguir o seu, eu imploro: SIGA. Ninguém, nem sua mãe, nem seus melhores amigos, vai fazer isso por você, por mais que eles queiram. Então faça isso por você mesmo. Faça o que você quer. Nunca abdique do que você acha certo pra agradar ninguém, porque se, ao menos, isso funcionasse e todo mundo ficasse feliz, até poderia ser algo benéfico. Mas não é. Você não pode carregar o mundo nas costas, nem resolver os problemas de todos. 

Não implore amor. Não implore atenção. Não importa se você tá namorando há quatro anos, dez anos, a vida inteira, se isso não tá te fazendo bem, saia! O tempo de um relacionamento jamais pode ser critério pra você decidir se continua nele ou não. Você não é um monstro por querer ser feliz, por querer seguir o que você acha certo e por trilhar sua vida da maneira que bem entender. Eu desagradei uma pessoa pra agradar um monte de outras pessoas maravilhosas que hoje fazem parte da minha vida e que, mesmo a 700km de distância, torcem, sem querer absolutamente nada em troca, pela minha felicidade. 

E esse foi o meu ano logo depois que me libertei de um relacionamento abusivo:

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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