Ruth descobre que adora ler

3 de fevereiro de 2016

Ainda era cedo quando Ruth pegou o ônibus em direção ao centro da cidade. Vários rostos conhecidos lhe davam "bom dia", em meio ao tumulto cotidiano, o que fazia com que ela entrasse em profunda reflexão sobre os motivos que levam pessoas a entrarem em transportes públicos tão animadas antes das 7 horas. Dolores, que subia um ponto depois dela, até tentou puxar assunto, mas a sinceridade de Ruth, que só aumentava aos 46 anos de idade, foi mais forte que a paciência.

- Dolores, não estou disposta. 

Sentada no fundo do veículo, sintonizada na rádio de hits dos anos 80, Ruth dublava as músicas enquanto observava a paisagem correr do outro lado do vidro. Segundo ela, dublar canções era uma maneira prática de evitar com que seres humanos extremamente empolgados se aproximassem dela com o intuito de qualquer interação social - especialmente às segundas-feiras.

Num ponto antes do túnel, um jovem rapaz atravessava a roleta. Estava com um livro de capa colorida debaixo de um dos braços e procurava um lugar para sentar. Chegando perto de onde Ruth estava, reparou que a senhora ao lado dela se levantava para descer. Sem pensar duas vezes, ocupou o lugar, abrindo o livro logo em seguida. Parecia entretido com a história e mal reparou que Ruth dublava Take my breathe away, numa das tentativas de evitar conversas.  

De canto de olho, a moça observou que rapaz demonstrava certa indignação pelo que lia. Sua testa franzida e suas pernas balançando como se estivesse ansioso aumentavam a curiosidade de Ruth, dando a ela uma vontadezinha de virar a capa do livro pra saber do que se tratava. Foi quando ele virou a última página e bufou, fechando o livro. 

- Você consegue me escutar? - perguntou ele, de repente, apontando para os fones dela. Ela acenou um "sim" e ele continuou a falar - Estou estarrecido! Nossa, eu não acredito que o João enrolou a história toda dizendo que amava o Bernardo pra, no final, dizer que tava confuso em relação à vida e ir embora. Dá pra perceber a imaturidade dessa pessoa? Ganhei esse livro do meu ex namorado logo depois que a gente terminou e pensei que fosse um pedido de desculpas por ele ter resolvido sumir da minha vida, do nada. Que ridículo! Era só uma forma literária de repetir todas as merdas que eu tive que ouvir ele me dizer. Olha, eu tô bem revoltado. 

Antes que Ruth pudesse dizer qualquer coisa ao rapaz, ele levantou e deu o sinal para descer. 

- Eu não vou nem perder tempo indo à rodoviária pra visitá-lo naquele fim de mundo a 2 horas desse lugar e agradecer o presente. Vou é descer aqui mesmo e fumar meu cigarro. - e, quando o ônibus parou, entregou o livro à Ruth - Pega pra você. Desculpa o spoiler.

Ruth permaneceu onde estava, com o livro no colo. Uma sensação boa preencheu sua mente e pela primeira vez ela gostou de ser incomodada em sua viagem rotineira. Não era nenhuma daquelas pessoas demasiadamente animadas comentando sobre o último capítulo da novela, que ela nem assistia. Era uma história real, dessas que a gente se interessa em menos de 1 minuto de sinopse. E o livro, uma boa ideia para passar o tempo no 183 - Centro e se livrar de possíveis futuras conversas chatas. 

Virou a primeira página e sorriu. Dali em diante não precisaria mais dublar nada.

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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