Presos que menstruam

22 de setembro de 2016

"Este livro é uma colcha de retalhos costurada ao longo de quatro anos. A linha e a agulha são entrevistas, visitas aos presídios, livros, artigos, estudos e processos judiciais de minhas personagens. O tecido é composto por trechos de vida de sete mulheres com quem me encontrei diversas vezes e de algumas outras detentas que cruzaram o meu caminho de forma passageira". (Nana Queiroz)

Pedi esse livro emprestado a uma amiga, depois que a professora de Redação III solicitou que a gente lesse um livro-reportagem. Após me emprestar, ela logo me alertou que não seria uma leitura leve e que me renderia alguns embrulhos no estômago. Pensei comigo mesma que talvez não fosse tão pesado assim e que eu conseguiria ler numa boa, afinal era só mais um trabalho pra faculdade. Eu estava muito enganada.

Safira, Gardênia, Júlia, Vera, Camila, Glicéria e Marcela. Em capítulos curtos, acompanhamos a história dessas 7 mulheres, que foram presas nas mais variadas circunstâncias. Através da narrativa realista da Nana Queiroz, que não deixa passar nenhum vício de linguagem, nem expressão fora da norma culta da língua, nos sentimos próximos às personagens, que parecem contar suas histórias diretamente pra gente, numa conversa informal. Conhecemos não só suas vidas na prisão, mas os motivos que a fizeram parar ali e como suas vidas eram antes de tudo isso.


Logo no começo, um dos momentos que mais me marcaram foi a história de Safira. Ao 14 anos, transou com um homem mais velho e foi expulsa de casa pela mãe. Passou a viver com o homem, que descobriu ser muito violento, e com ele teve um filho. Depois de algumas idas e vindas, teve outro filho com ele e, no fim das contas, teve que cuidar das duas crianças sozinha. Procurando um jeito de sustentá-los, conseguiu um emprego num supermercado de bairro nobre. Pediu pra que a mãe cuidasse do caçula, mas tendo o pedido negado, foi atrás da irmã, que lhe cobrava 100 reais para ficar com a criança, enquanto o mais velho ficava com o pai. E eis a parte que mais me tocou:
"Safira passou a levantar todos os dias às 5 horas da manhã para empacotar as sacolas de compra da classe média. Embrulhava todos os dias coisas que tinha desejo de comer, biscoitos que adoraria levar para o filho (...)"
Uma das personagens é de classe média e universitária, mas a maioria são periféricas, com histórias de vida muito difíceis bem antes de serem presas. Pais ausentes, gravidez precoce, desestrutura familiar beirando o absurdo, abandono. O que me faz pensar em como eu sou privilegiada. De repente eu estava sendo os embrulhos que minha colega havia me alertado. 


É vergonhoso saber como o nosso sistema prisional é podre. Mulheres grávidas em trabalho de parto tendo que implorar para serem conduzidas ao hospital; mulheres mães que tem seus filhos na prisão e preferem ficar anos longe deles do que vê-los passar os primeiros seis meses de vida em um verdadeiro inferno; tratamentos .Em meio a todo esse caos, as mulheres se tornam cada vez mais fortes, não só para enfrentar a própria realidade, mas porque força, pra elas, era uma questão de sobrevivência.

A autora estabelece uma relação entre o companheirismo dos homens com suas esposas/namoradas e vice versa. Muitas mulheres foram presas por serem cúmplices de seus companheiros. Algumas participaram ativamente dos crimes, mas boa parte simplesmente estavam no lugar errado, na hora errada. Quando os homens são presos, suas companheiras permanecem fieis, submetendo-se a situações constrangedoras nos dias de visita, aguardando até o dia em que eles sairão de lá. Ao contrário, quando as mulheres são presas, as visitas de seus amados vão se tornando cada vez mais escassas e um dia deixam de existir, pois eles acabam se envolvendo com outras mulheres lá fora. O dia de visita é um dos mais bonitos e esperados na vida de muitas dessas mulheres e saber dessa realdade me doeu muito.


No vídeo acima, Nana Queiroz fala um pouco sobre o livro e eu vou deixá-lo como uma forma de terminar esse texto. 

ISBN:  8501103675
Editora: Record
Páginas: 294
★★★★

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Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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