Estude exatas como uma mulher

11 de fevereiro de 2017

São 00h54 e vou ter que acordar cedo, mas não pude deixar de escrever sobre esse filme antes de dormir. Cheguei do cinema há pouco e ainda estou em estado de maravilhamento. Vocês precisam ver esse filme (eu tô falando bem sério).


Hidden Figures, traduzido no Brasil como Estrelas Além do Tempo, é a adaptação de um livro-reportagem homônimo escrito pela americana Margot Lee Shetterly. O filme narra a história real de três mulheres negras que trabalharam para a NASA durante a corrida espacial do período da Guerra Fria, nos anos 1960. E eu acho que eu poderia terminar esse post aqui. 

Quando estudei esse momento histórico na época do colégio, sempre imaginei um monte de homem brigando por ideologia, um monte de homem construindo bomba nuclear e, não por acaso, um monte de homem estudando cálculo pra botar outro monte de homem num foguete e mandar pro espaço. Hoje, ao descobrir que uma das principais responsáveis pelo sucesso do voo da Apollo 11 à lua foi uma mulher negra chamada Katherine Johnson, eu fiquei em êxtase. Meu coração ficou, tipo, sambando dentro do meu peito. Cara, sem ela, John Gleen jamais teria orbitado a Terra. Sem mais.

Não é só a história da Katherine que o filme conta pra gente. Tem também as incríveis Mary Jackson, primeira mulher engenheira da NASA, e Dorothy Vaughan, primeira supervisora negra da NASA. Além de tudo o que essas três mulheres vivenciam e conquistam, é lindo ver a amizade que existe entre elas.



"Essas mulheres eram quase todas as melhores formandas de universidades tradicionalmente negras, tal como a Hampton Institute, Virginia State e a Universidade Wilberforce. Embora realizassem os mesmos trabalhos que mulheres brancas contratadas naquele período, elas eram isoladas em seus cubículos na ala oeste do campus de Langley – por isso, o apelido “os computadores do oeste."
(Margot Lee Shetterly, autora do livro que deu origem ao filme)

Outra coisa que me deixou bastante satisfeita foi o tratamento do roteiro sobre a vida amorosa da Katherine - e das demais personagens. Em nenhum momento o foco do seu trabalho foi desviado para a vida conjugal. Não que eu ache que uma coisa deva se sobrepor a outra, mas estatisticamente isso sempre acontece em filmes com personagens mulheres fodonas. Sempre precisam de um homem pra terem um final feliz, sabe? Ou sei lá, ficam falando dos boy o tempo inteiro, como se fosse a única coisa que a gente falasse nessa vida. Dá pra perceber de longe que a história de Katherine, Mary e Dorothy, pelo pouco que contei aqui, tem muito a mais a dizer. E eu senti, assistindo o filme do começo ao fim, que foi muito bem dita.


Além dos relacionamentos amorosos estarem em segundo plano, as personagens brancas também estão. É óbvio que a gente acompanha toda a segregação racial e percebe a nítida supremacia branca, inclusive dentro da própria NASA. Entretanto, dá pra sacar que quem manda na porra do filme são as personagens negras e isso é tão incrível que meu coração já tá sambando de novo. Eu torci muito pra personagem da Octavia Spencer virar pra personagem da Kirsten Dunst e soltar um eat my shit.


Reflexões que tive ao sair do cinema

Fiquei pensando demais no quanto nós, mulheres, temos que nos provar o tempo inteiro (especialmente mulheres negras, como retratado no filme). Não basta fazer, a gente tem que mostrar que sabe fazer. Ver a Katherine no meio de um monte de homens brancos que trabalhavam no mesmo negócio que ela e ficavam de buenas enquanto ela corria pra lá e pra cá me deixou nos nervos! Da mesma forma que fiquei aborrecida ao ver o esforço da Mary Jackson tendo que proferir um discurso emocionante para comover um juiz e conseguir algo que homens brancos conseguiam muito mais facilmente, sem precisar bolar nenhum discurso poético em tribunais. Ou então a insistência de Dorothy Vaughan para conseguir ser promovida, e vê-la consertando rapidinho um problemão que todo mundo tava quebrando a cabeça pra resolver. Triste realidade, retratada de uma maneira impecável na trama. 


Percebi, também, que o filme nos dá uma falsa sensação de que tá tudo bem hoje em dia. Fico bolada quando vem gente dizer que no passado era pior ou que lá-naquele-país-bem-longe-daqui é pior. É só tu reclamar da cantada que levou na rua e pronto, surge uns quarenta e sete ser humanos falando "ahh, mas as mulheres no Irã...". A impressão que dá é que ao invés de rever os próprios privilégios, perceber que a coisa tá foda e contribuir pra melhorar, a galera prefere jogar o problema pra longe, seja em relação a lugar ou a tempo. Dizem "aaah, maaaas antigameeeeente as mulheeeres não podiaaam votaaaar" como se isso fosse me fazer ficar quietinha e agradecer. 

Se a gente focar no racismo, então, parece que os problemas triplicam. Tem quem diga naquela época, especificamente naquele país, o racismo era algo incomparável aos dias de hoje aqui no Brasil. Houve conquistas, mas ao meu ver, não é porque não tem banheiro separado para os negros que a coisa ficou tão imperceptível assim. A gente vê o filme e se questiona o porquê daquelas pessoas brancas serem tão ignorantes e proibirem negros de frequentarem a mesma seção da biblioteca que elas ou beberem da mesma jarra de café que elas. Mas já perceberam que tudo o que aconteceu no passado soa tão mais absurdo do que o que acontece hoje? 


Os negros se manifestavam, gritavam, demonstravam o quanto aquilo era angustiante e ninguém ouvia... A mãe branca passava com seu filho na rua, via a cena e se afastava. E o mais alarmante: essa galera que segregava não viveu aqui há 700 milhões de anos. A diferença de tempo que nos separa é ridícula. Então por que será que hoje, quando a gente diz que fulano sofreu racismo ou qualquer tipo de opressão, sempre surge um ser humano chatão que fala que é exagero, mimimi? Será que estamos mesmo tão distantes dessa realidade? Será que a pessoa que diz isso hoje também viria um protesto de negros nos EUA, na década de 1960, e passaria reto, dizendo que é muito drama? Será mesmo que a galera evoluiu tanto assim? Fica o questionamento.


TRAILER:

Estrelas Além do Tempo está concorrendo ao Oscar nas categorias filme, roteiro adaptado e atriz coadjuvante (Octavia Spencer). 

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo cerca de 5 doses de café diárias. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias - dessas que sai fumacinha da boca. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

talvez você também goste:

6 comentário (s)