É só prometer três pulinho pra São Longuinho

30 de maio de 2017

Eu me lembro bem dos domingos que ia pra casa dela. A gente tocava a campainha, já sentindo o cheiro dos temperos e ouvindo o barulho da panela de pressão, antes mesmo de entrar no apartamento. Bastava esperar um pouquinho e lá vinha ela, com pano de prato no ombro. Abria a porta e voltava ao fogão correndo, reclamando que a gente tinha chegado cedo demais. Nos seus braços, algumas queimaduras, que logo iam sarar e dariam lugar a outras milhares. Ela não tinha paciência de verificar se a comida da panela estava pronta com uma colher: usava as mãos mesmo. Aliás, não era nem um pouco dramática com esse tipo de machucado. Vivia tropeçando e caindo na rua. Teimava em ir à feira sozinha, voltando sempre com várias sacolas pesadas. 

- Vó, hoje vou dormir aí na sua casa pra ir contigo amanhã na feira, tá? 

E quantas vezes acordei assustada, no dia seguinte, quando já passava das 10h30, com o barulho das chaves e sacolas... Mesmo quando eu despertava a tempo de lhe fazer companhia, bastava que eu me distraísse, pra ela cair. Uma vez caiu do lado da barraca de peixe. Como ria. Toda ralada, mas rindo. De vergonha ou de graça, sei lá, só lembro que ria. Um dia caiu da escadinha da garagem e quebrou o pé. Teve que botar pino e tudo. Mal se recuperara, lá estava ela, atendendo a gente todo domingo com pano de prato no ombro.

Negra, cabelo crespo que não era seu, mas que era seu porque o comprara. Em casa, sem as maquiagens que deixariam qualquer youtuber no chinelo, usava lenços de renda pretos, que cobriam a cabeça toda, presos em um nó perto da testa. Vaidosa da cabeça às pantufas da Avon, ficava brava quando chegava visita de repente. Gostava de preparar a beleza e a casa para receber as pessoas. Se fosse pega de surpresa enquanto assistia Inezita Barroso, Mazzaropi ou novela das seis, de lencinho no cabelo e sentada no sofá, sai de perto! Ai de quem levasse gente na casa dela sem avisar. O carnê das Casas Bahia atrasado, mas o peito de peru mais caro do mercado tinha que estar na mesa. 

Ela amava que a gente comesse bem na casa dela. Essa paixão por boa comida era nítida. Se você negasse o bolo de fubá com erva doce e a xícara de café, acabaria comendo, de tanto que ela insistiria. Talvez essa tenha sido a maneira de ela recompensar a miséria que vivera na infância, lá no litoral sul de São Paulo onde hoje é Eldorado e que um dia já foi Xiririca. Aos 8 anos foi enviada a casas de família para trabalhar. Tinha até quartinho. Passou a infância, a adolescência e um pedaço da vida adulta orgulhosa de ter deixado de ser empregada doméstica para ser a cozinheira. Era o que ela me dizia, nas nossas inúmeras conversas antes de dormir, sempre que eu passava a noite na casa dela – meu avô se mandava pro quarto do lado e eu dominava o cantinho dele, pra dormir com ela. Lembro como ela se emocionou ao dizer que, quando se casou com meu avô, já com uns 30 e poucos anos, finalmente teve os próprios utensílios de cozinha, que ganhara da minha bisa. Não ia precisar mais usar os da patroa.

Nunca me esqueço do dia em que ela ganhou uma grana boa no bingo e gastou tudo no supermercado. Chegou de madrugada lá em casa, eu e meu irmão pequenos, com uma compra cheia de leite, danone e bolacha. Ah, sim, ela era gamada em bingo. Ficava estarrecida quando perdia dinheiro nesses jogos. Quantas vezes eu ouvia ela indignada, quase chorando, fazendo um drama que invejaria Fernanda Montenegro...  

- Eu ia bater, faltava a 23. Daí ele cantou o 30 e um homem levou. Ai que ódio, fiquei danada, menina! 

O dinheiro era um ponto fraco. Vivia perdendo a bolsinha de moedas com o troco do mercado dentro. 

- Já prometi 3 pulinho pra São Longuinho – dizia, molhando o pedaço de média no café com leite – Ai, minha Nossa Senhora, de hoje não passa!

São tantas lembranças, que fica até difícil retornar à vida real, depois de tanto viajar. Mais difícil ainda é lembrar que isto não se trata de um relato póstumo. Minha vó tá viva, de lenço na cabeça e tudo, mas as células do corpo nem sempre são boas como a gente pensa – e nem sempre trabalham como nos ensinam na escola. Certas coisas podem até não voltar mais, mas fazem você voltar até elas. 

Texto que escrevi pra aula de Redação IV do curso de jornalismo. A proposta era criar o perfil de alguém que não fosse famoso.

Manie
Estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. Tenho 22 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tento ver graça nas coisas simples do dia-a-dia.

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